Trigo

Solo preparado para o inverno

Na hora de planejar o plantio das culturas de inverno, caprichar na adubação e no preparo da terra é fundamental para preservar a qualidade do solo e conquistar bons índices de produtividade

Denise Saueressig denise@agranja.com

Incremento de renda para produtores de diferentes regiões do Brasil, o cultivo de cereais de inverno requer cuidados especiais no momento do preparo da terra e da adubação. Além de fundamental para buscar bons índices de produtividade, todo o período pré-plantio pode significar também a manutenção da sanidade do solo.

>A preparação básica começa com a análise do terreno, alertam os especialistas. É através dela que o agricultor vai saber que correções serão necessárias e qual a quantidade de insumos que será utilizada, seja no trigo, principal produto desse período, seja nos demais cultivos, como aveia, canola, cevada, centeio ou triticale. “Nesse estágio inicial deve ser estabelecido o teto de rendimento da cultura. Para cada projeção, haverá uma necessidade diferente de aplicação de insumos”, esclarece o agrônomo Antoninho Luiz Berton, assistente técnico regional da Emater do Rio Grande do Sul. Como existem diferentes manchas de solo, a análise precisa ser feita com freqüência, a cada ano, ou no máximo, em um intervalo de três anos. A realidade, entretanto, indica que nem sempre os produtores se dedicam a esse cuidado.

Levantamento feito na região de Passo Fundo/RS mostra que apenas 18% de uma área de 1 milhão de hectares cultivada na safra de verão passa pelo processo de análise regularmente. “Infelizmente, a maioria dos produtores brasileiros ainda faz a adubação ‘no chute’. É como uma pessoa ir ao médico e não precisar fazer exames para saber que problema tem”, compara Berton.

Para ele, a resistência não pode ser justificada pelos gastos com o processo, já que uma avaliação laboratorial tem custo entre R$ 15,00 e R$ 20,00. Normalmente, cada estudo é feito a partir de uma amostra correspondente a uma área de cerca de 20 hectares formada por várias porções de terra de uma gleba homogênea. “É essencial para iniciar a lavoura racionalmente, porque uma adubação que não corresponde às necessidades implica em redução de produtividade e aumento de custos”, ressalta o agrônomo.

Macronutrientes – O nitrogênio (N), o fósforo (P) e o potássio (K) estão entre os macronutrientes indispensáveis para a fertilização da terra. “Os índices de cálcio e magnésio normalmente são satisfeitos pela aplicação de calcário para corrigir a acidez”, declara Berton. Para obter o volume necessário de N, é preciso levar em conta a matéria orgânica presente no solo. Quanto maior for esse índice, menor será a aplicação de N. Se a cultura precedente à lavoura de inverno for uma leguminosa, a quantidade da substância também deve ser diminuída. Os volumes de P e K vão variar de acordo com a presença desses elementos na terra. Para o cultivo de trigo no Rio Grande do Sul, por exemplo, a aplicação de P pode chegar a 110 kg/ha em caso de teor muito baixo da substância.

Principalmente em regiões onde impera o plantio da soja na safra de verão, torna-se fundamental cobrir o solo no inverno. Isso porque, a matéria seca da oleaginosa se decompõe rapidamente. “A falta de cobertura em períodos de chuva facilita a erosão e as perdas físicas e de fertilidade”, observa o engenheiro agrônomo João Batista Beltrão Marques, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé/RS.

Para preservar a sanidade do solo, é preciso prestar atenção nos riscos de erosão e nas formas de prevenção. A técnica do plantio direto, além de conservacionista, ainda proporciona, ao longo dos anos, a redução da quantidade de fertilizante aplicado na terra. Mas para o sucesso do sistema, precisam ser considerados fatores importantes, como o grande volume de palha e um planejamento detalhado de rotação de culturas. “Quando a área for utilizada para a criação animal, o produtor deve cuidar o manejo, para não permitir que o gado deixe o solo sem palha. O pisoteio pode compactar o solo e aumentar os riscos de erosão”, enfatiza Berton.

A crise enfrentada no campo tem interferência direta sobre o planejamento da lavoura. É natural que em tempos de preços retraídos, exista a redução do nível tecnológico. A adubação é um item de peso no bolso do agricultor, já que o gasto com fertilizantes representa entre 10% e 20% do custo total de uma lavoura de trigo. “O produtor não deixa de tratar as ervas daninhas e as doenças, mas normalmente penaliza a adubação e compromete a nutrição da planta”, conclui o engenheiro agrônomo Antonio Costa, pesquisador da área de solos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Ele ainda lembra que é justamente a planta bem nutrida que reage melhor aos problemas. “Na minha opinião, quando a situação é de dificuldade financeira, é melhor reduzir a área plantada do que diminuir a quantidade de insumos”, acrescenta o especialista. Quando o mercado é desfavorável, também é comum os produtores substituírem o plantio do trigo por materiais de cobertura, como aveia e nabo forrageiro, diz Costa. “O ideal é manter o solo sempre coberto e periodicamente fazer as correções necessárias. Dessa forma, os investimentos são contínuos, mas relativamente baixos”, avalia. Como em algumas regiões o plantio dos cereais de inverno ocorre apenas nos meses de junho e julho, a Embrapa lançou variedades de duplo-propósito, ou seja, grãos que podem ser utilizados tanto para pastagem quanto para a indústria de alimentos. “As sementes podem ser plantadas já no final de abril, época em que há carência de forragem para alimentar os animais”, explica João Batista Marques. O não aproveitamento do terreno nos meses de inverno ainda acaba refletindo no rendimento das culturas de verão, que necessitam dos nutrientes e da palhada deixados pelas gramíneas para a viabilização do sistema de plantio direto.

O que diz a pesquisa? – Estudos sugerem o plantio dessas variedades entre abril e maio, dois pastejos no período entre junho e agosto e colheita nos meses de novembro e dezembro. Avaliações realizadas com o trigo de duplo-propósito mostraram potencial de rendimento em torno de 3 mil quilos por hectare em lavouras gaúchas. “Além disso, o cereal é uma excelente pastagem, porque produz bastante matéria seca e é rico em proteína”, analisa Marques. Após o pastoreio, as cultivares exigem uma adubação complementar de cobertura de 40 quilos de nitrogênio por hectare.

O momento ideal para o pastejo é a fase de perfilhamento/alongamento do caule (seis a oito semanas após a semeadura), quando as plantas apresentam estatura aproximada de 30 cm.

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Recomendações de adubação nitrogenada

No Paraná, quando o cereal de inverno for plantado depois de uma leguminosa, como a soja, é recomendável utilizar entre 10 e 30 kg/ha de N na semeadura. Em cobertura, usar 30 kg/ha em materiais de porte alto. Para plantas de porte baixo, aplicar 60 kg/ha de N em cobertura.

Quando o plantio proceder à lavoura de milho, o indicado é usar entre 25 e 40 kg/ha de N na base. Em cobertura, usar 30 kg/ha para plantas de porte alto e 90 kg/ha para materiais de porte baixo. Nas áreas de cevada cervejeira, em que os grãos não podem apresentar alto teor de proteína, o recomendável é fazer apenas adubação de base. A indicação é de aplicação entre 10 e 30 kg/ha de N para o plantio posterior às leguminosas e entre 30 e 40 kg/ha para cultivo depois de gramíneas

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Para áreas no Mato Grosso do Sul, quando o trigo for semeado em local cultivado com soja por mais de três anos, é recomendável aplicar entre 5 e 15 kg/ha de N na base. A aplicação em cobertura pode ser dispensada quando o rendimento esperado for inferior a 1,8 mil kg/ha. Em áreas de plantio direto, quando o trigo for cultivado após milho, aplicar entre 5 a 15 kg/ha de N na base e 30 kg/ha de N em cobertura.

Fonte: Comissões Sul-Brasileira e Centro-Sul Brasileira de Pesquisa de Trigo

Adubação nitrogenada para trigo ou triticale (RS/SC)

Teor de matéria Cultura anterior orgânica no solo Soja Milho —-%— kg N/ha (semeadura + cobertura) <2,5 60 80 2,6 – 5,0 40 60 >5,0 20 20

Adubação nitrogenada para trigo (PR)

Cultura anterior Semeadura Cobertura N (kg/ha) Soja 10-30 30-60 Milho 25-50 30-90

Fonte: http://www.edcentaurus.com.br/materias/granja.php?id=92