Soja

Soja: Produtor brasileiro pode encontrar oportunidades no câmbio

Publicado em 13/03/2017

A semana para o mercado doméstico da soja começa, novamente, com falta de interesse de vendas por parte dos produtores brasileiros. Nem mesmo as dívidas de alguns para o final de março e início de abril têm motivado os sojicultores a voltar ao mercado para novos negócios dados os baixos preços e, principalmente, o limite de recuperação das cotações imposto pelo câmbio.

“O quadro geral seguirá de poucos negócios porque os números atuais ainda estão distantes dos níveis programados pelos produtores ou até mesmo dos valores negociados no ano passado e que estão sendo exercidos agora e desta forma seguiremos com comercialização lenta”, acredita o consultor de mercado da Brandalizze Consulting, Vlamir Brandalizze.

Influência do câmbio

Para Camilo Motter, analista de mercado e economista da Granoeste Corretora de Cereais, porém, o dólar pode estar ganhando um novo patamar, “ainda que, apenas, para compensar as perdas em Chicago” e poderia trazer algumas oportunidades para o produtor brasileiro, mesmo que pontuais.

Nesta segunda-feira (13), a moeda americana subia pouco mais de 0,2% e era negocia a R$ 3,151. Na última sexta, a divisa fechou o dia com baixa de 1,6%, após subir, nas duas sessões anteriores mais de 2% para se aproximar dos R$ 3,20 novamente. E apesar dessa barreira que o câmbio ainda impõe sobre os preços formados no Brasil, para o analista da Granoeste, os ganhos que podem ser registrados pelos produtores brasileiros devem vir mais do próprio câmbio e, apenas eventualmente, da Bolsa de Chicago.

“Além das variáveis econômicas, voltamos a discutir muito as questões políticas, sobretudo no Brasil, além das criminais, mas também nos EUA de Trump. Vejo a possibilidade de um câmbio muito volátil pela frente, mas em alta no geral”, diz Motter.

Boa parte dessas atenções todas – e dessa perspectiva de alta – estão baseadas nas perspectivas cada vez mais consistentes de uma alta na taxa de juros dos Estados Unidos pelo Federal Reserve. E esse já parece ser um consenso entre analistas, consultores e economistas mundo a fora.

O banco central norte-americano, afinal, teria de acelerar esse alta para acomodar as políticas do presidente Donald Trump e equilibrar o cenário norte-americano. “Dada a atual situação da economia dos EUA, que está perto do pleno emprego, uma forte expansão fiscal traz o risco de ter um impacto pró-cíclico”, disse Visco Ignacio, membro do Conselho do BCE e presidente do banco central italiano. em discurso no Ministério das Relações Exteriores da Itália.

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E essa recente valorização, apesar de ainda insuficiente, tem servido como um colchão para as baixas observadas em Chicago diante das novas e maiores projeções de oferta que pesam severamente sobre o mercado futuro norte-americano.

“Os preços da soja e derivados estão em queda nos Estados Unidos e no Brasil, pressionados por expectativas de safra mundial recorde e pelos estoques alongados. Segundo pesquisadores do Cepea, no entanto, a queda nos valores brasileiros tem sido limitada pela valorização do dólar frente ao Real que, além de aumentar a receita de vendedores, torna o produto nacional mais competitivo no mercado internacional”, informou o Cepea nesta segunda.

Enquanto isso, a queda de braço entre compradores e vendedores continua. “Diante de expectativas de safra abundante, compradores brasileiros consultados pelo Cepea estão cautelosos na aquisição de lotes grandes, negociando apenas o volume necessário para suprir a demanda de curto prazo. Produtores, atentos ao movimento de queda, acreditam em reversão da tendência, fundamentados no possível aquecimento da demanda e na valorização do dólar”, completa o Cepea.

Mato Grosso

Na região de Sorriso, em Mato Grosso, os negócios seguem parados, como relata o produtor rural Laércio Pedro Lenz. “O pessoal ainda está segurando muito, com a média variando de R$ 51,00 a R$ 52,00 por saca”, diz, lembrando que nas vendas feitas no ano passado, no mercado futuro, os preços registraram de R$ 65,00 a R$ 75,00, com médias variando entre R$ 68,00 e R$ 69,00.

Assim, o que os sojicultores estão fazendo neste momento é somente o cumprimento desses contratos das vendas feitas antecipadamente e buscando garantir, junto aos bancos, alguns volumes de recursos para pagar os custeios. Para voltar às vendas, alguns produtores esperam que as cotações retornem, ao menos, a algo entre R$ 60,00 e R$ 62,00 por saca.

Sorriso fechou a safra 2016/17 com uma produtividade média de 59 sacas por hectare e consolidando uma boa safra. “Isso ajuda, porém, só a minimizar o problema, já que temos mais grãos para vender. Mas o que complica ainda é o câmbio, já que as compras feitas pra essa safra foram feitas com um câmbio de R$ 3,50 / R$ 3,60”, explica Lenz.

Goiás

Em Goiás, a situação não é diferente. “Temos a comercialização ainda muito lenta e com índices bem menores do que os do ano passado”, relata o consultor técnico da Aprosoja GO e da Faeg (Federação de Agricultura do Estados de Goiás), Cristiano Palavro. “Muitos produtores estão vendendo somente o necessário e com medo de terem perdido a janela ideal”, completa.

No estado, a média de preço é de R$ 60,00 por saca, atualmente, distante do foco dos produtores e, principalmente do intervalo praticado anteriormente, quando as cotações no estado variaram de R$ 70,00 e R$ 80,00 por saca. Assim, há apenas pouco mais de 50% da safra 216/17 já vendida no estado, e a retração deve continuar, portanto.

Há duas linhas de produtores goianos, neste momento, como explica Palavro. “Há aqueles que estão contrariados, focados ainda nos preços praticados no passado e, ao mesmo tempo, aqueles que os preços possam cair ainda mais”, diz. “E temos ainda o dólar sem mostrar uma reação”.

Apesar disso, o assessor relembra da força da demanda, que permanece ainda bastante presente e se posicionando como o mais importante pilar de suporte às cotações. “E muitos consultores afirmam ainda que alguns rallies poderiam ser observados durante a safra americana”, relata Palavro, o que poderia trazer algumas outras oportunidades para o produtor brasileiro.

Paraná

No início da última semana, no Paraná, os preços ameaçaram uma boa recuperação, com altas de R$ 2,00 a até R$ 3,00 por saca, mas as mesmas foram neutralizadas, segundo Camilo Motter. “Parece que, cada vez mais, estão mais dependendentes do câmbio”, diz o analista de mercado e economista da Granoeste Corretora de Cereais. “E a CBOT parece ter limites muito claros em razão da grande safra – e cada vez maior – do Brasil”, complementa.

No sul do estado, o preço FOB mostrava referência de R$ 68,00 por saca e, na indústria, em Ponta Grossa, algo próximo dos R$ 71,50.

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas