Soja

Soja: O avanço da Ferrugem Asiática preocupa

O expressivo crescimento da produção de soja no Brasil nas ultimas décadas provocou mudanças históricas do país . Foi a soja que, ajudada inicialmente pelo trigo, a principal responsável pela eclosão da agricultura comercial no Brasil. A reboque da soja desenvolveu-se no país a mecanização das lavouras, melhorias (embora ainda precários) nos sistemas de transportes, expansão da fronteira agrícola e incremento do comércio internacional. A soja contribuiu ainda com a interiorização da população brasileira e impulsionou a agroindústria nacional, patrocinando a expansão da avicultura e da suinocultura.

O surgimento recente nas lavouras de soja no Brasil da doença conhecida por ferrugem asiática (causada pelo fungo Phakpsora pachyrhizi) tornou-se o principal problema fitossanitário desta cultura e  já foi constatada também nas lavouras nos Estados unidos. A doença é originária do continente asiático e foi constatada pela primeira vez no continente americano na safra 2000/01, no Paraguai. Poucas semanas após, a doença já estava ocorrendo em plantas de soja do Sul do Brasil. Como o vento é o principal meio de disseminação da doença, supõe-se que esporos do fungo tenham atravessado o oceano Atlântico, vindo de países do sul da África, onde a doença vem causando severas perdas desde 1998.

No Brasil, já na primeira safra após a constatação da doença (2001/2002), a ferrugem asiática mostrou sua agressividade, infestando cerca de 60% da área de soja do Brasil, resultando em perdas de aproximadamente 570 mil toneladas ou cerca de 125 milhões de dólares.

Em 2002/2003, a doença disseminou-se praticamente por todas as regiões produtoras de soja do Brasil e atingiu com mais intensidade lavouras situadas numa extensa área geográfica das regiões Centro-Norte e Nordeste do Brasil. A estimativa da área de soja com presença da ferrugem no país foi de 90% e o total de perda de grãos foi estimado em 3.3 milhões de toneladas, que equivaleu a 737 milhões de dólares.

Na safra 2003/04 (a safra atual, 2004/05, ainda não tem todos os dados disponíveis), a área abrangida pela doença e os prejuízos cresceram ainda mais. As perdas foram de 4.5 milhões de toneladas, correspondendo ao valor monetário de 1.2 bilhões de dólares.

As perdas são atribuídas a diversos fatores, como o desconhecimento pelo agricultor da agressividade e rápida evolução da ferrugem em condições favoráveis de clima , falta de monitoramento contínuo  nas lavouras, identificação tardia da doença e, em alguns locais, falta de fungicidas para suprir a demanda a partir da identificação da doença, levando a aplicações tardias.

Para impedir a contaminação das plantações, engenheiros agrônomos e pesquisadores sugerem um monitoramento mais intensivo, com intervalos menores entre as vistorias, principalmente na fase de formação dos grãos.

A doença pode instalar-se durante todo o ciclo da soja, portanto, as lavouras devem ser monitoradas até a colheita. Os primeiros sintomas são pontuações escuras na face superior das folhas. Para confirmar se estes pontos correspondem às massas de esporos do fungo causador da doença, deve-se examinar a face inferior da folha com uma lupa. Essas massas, chamadas de urédias, são de coloração marrom e ficam salientes. Se houver luz lateral elas fazem sombra. Confirmada a presença, a aplicação do fungicida deve ocorrer o mais rápido possível.

Na safra atual verificou-se que o melhor conhecimento da doença por parte dos produtores e as tecnologias desenvolvidas para monitorar e controlar a doença,  ajudou a manter a situação sob controle.

TAMBÉM NOS EUA

Os americanos sabiam que era inevitável, mas tinham esperança de que a doença demorasse um pouco mais para chegar em suas lavouras de soja. Esta esperança caiu por terra em novembro passado com a confirmação, pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), de que foi encontrada a ferrugem da soja em folhas de uma lavoura associada à fazenda experimental da Louisiana State University, próximo de Baton Rouge. É a primeira vez que a ferrugem da soja é detectada em solo americano, fora dos laboratórios. Como quase toda a safra já havia sido colhida, o impacto da doença não foi tão significativo. Na safra americana em curso é que poderá ser verificado a agressividade e as perdas causadas pela ferrugem.

Para piorar a perspectivas dos EUA, há duas espécies de fungos que causam a ferrugem: o tipo Asiático (Phakopsora pachyrhizi) e o tipo Novo Mundo (Phakpsora meibomiae). E foi justamente a espécie Asiática, mais agressiva e mais prejudicial às plantas, que atacou em Louisiania. A ferrugem da soja se espalha, basicamente, através de esporos capazes de viajar longas distâncias com os ventos. Os técnicos americanos acreditam que a chegada do fungo ao país esteja relacionada à temporada de intensa atividade de furacões. A suspeita é de que os esporos tenham vindo da América do Sul. O monitoramento foi reforçado em toda a região americana próxima do Golfo do México, por onde passaram recentemente furacões.

As autoridades americanas não esperam quaisquer restrições dos importadores à soja americana por causa da descoberta da ferrugem, pois com exceção dos EUA, todos os outros países produtores já convivem com a doença.

O CASO DA FERRUGEM DA SOJA E ALGUMAS EPIDEMIAS FAMOSAS

Se não fossem as facilidades oferecidas pelo nível tecnológico mundial, tanto em termos de insumos como comunicação e transportes, o surgimento da ferrugem da soja no Brasil poderia ter levado o país a um colapso financeiro significativo, pois se não fosse a pronta intervenção nas lavouras com fungicidas de última geração, possibilitado pelas facilidades de importação dos mesmos, pois os estoques das empresas produtoras no Brasil se esgotaram com a safra ainda em curso, a produção de soja poderia ter sido reduzida em cerca de 80%, causando impacto fortíssimo na economia brasileira que tem na soja seu principal produto de exportação do agronegócio.

Este fato fez relembrar o caso de uma doença ocorrida nas plantações de batata da Irlanda em 1846, quando o nível tecnológico era muito diferente do que temos hoje, causando a morte e emigração de milhares de irlandeses.

Contam-nos os historiadores que, aproximadamente dois séculos após sua introdução, a batata tornou-se a base da alimentação dos habitantes do norte da Europa Ocidental. Ela desalojou os cereais desta posição em virtude de sua alta produtividade, fácil adaptação e alto valor nutritivo. Quanto mais rural a área, mais a batata pesava na dieta; quanto mais pobre a região, mais batata se comia. Não raro o cardápio nestas casas simples consistia de sopa de batata no café da manhã, batata cozida no almoço e batata assada no jantar. Por mais inacreditável que possa parecer nos dias que correm, a ração diária de um trabalhador irlandês no início do século XIX consistia quase que exclusivamente de 4 a 8 kg de batatas frescas! Este tipo de alimentação, apesar de enfadonho, dava às pessoas quantidades adequadas de proteínas, carboidratos e vitaminas. Além disso, poucos problemas fitossanitários ocorriam na lavoura e a produção era estável de ano para ano, fato de grande importância naqueles árduos tempos.

Por volta de junho de 1845, porém, uma nova e destrutiva doença (hoje conhecida por requeima, causada pelo fungo Phytophthora infestans) foi vista na Bélgica. Duas ou três semanas após, os mesmos sintomas foram encontrados em Flandres e na vizinha Holanda. A França veio em seguida. A doença era tão destrutiva que todos os jornais da época se ocuparam do assunto. O público e os governos estavam tão alarmados com as conseqüências que poderiam advir de tão terrível mal que médicos brigavam com químicos, que por sua vez brigavam com botânicos, todos querendo ter a primazia e a exclusividade de lutar contra o novo inimigo. Nesta época longínqua, os fitopatologistas (estudiosos de doenças de plantas), não haviam ainda sido inventados. E nada ilustra melhor a preocupação reinante naquele tempo que a convocação, em 20 de agosto de 1845, da Société Royale et Centrale d’ Agriculture de Paris, em plenas férias de verão!

Neste mesmo mês, a doença foi identificada no sul da Inglaterra. E, a 6 de setembro, uma nota publicada no Dublin Evening Post indicava que a doença da batata já havia chegado à Irlanda. Estatísticas da época indicam que a queda de produção, em 1845, naquele país, chegou a 25%, nada desprezível, mais ainda longe da catástrofe que se avizinhava.

O final de 1845 e os primeiros meses de 1846 foram gastos pela comunidade científica da época numa polêmica que só terminaria quinze anos depois; seria aquele fungo, invariavelmente associado às plantas atacadas, a causa ou a conseqüência da doença? E como sempre acontece com as polêmicas, mesmo nos nossos dias, o aspecto científico dos argumentos foi sendo paulatinamente substituído por desavenças pessoais, inveja, bairrismo e convicção religiosa.

Enquanto isso, na Irlanda de 1846, alheio à discussão, o fungo foi visto sobre as plantas de batata dois meses inteiros, mais cedo que no ano procedente. Encontrando as plantas mais jovens, tendo mais tempo para se multiplicar e ajudado por um clima favorável, a doença destruiu perto de 80% da produção!

As conseqüências são ainda hoje inimagináveis: dois milhões de mortos e um milhão de emigrantes. A população da Irlanda, que era de 8,3 milhões em 1846, passou para 5,2 milhões, 30 anos depois, como pode ser observado no gráfico.

Fontes:
Correio Agrícola. Bayercropscience. n. 2. 2004.
Manual de Fitopatologia. Ed. Ceres, 1995.


Evolução das populações da Irlanda e da Inglaterra no período de 1821 a 1881 (Gregory, 1983)


Lavoura de soja totalmente destruída pela ferrugem asiática em Mato Grosso

Colunista: Prof.Dr. Geraldo Papa
Área: Agro Negócios

Fonte: http://www.ilhasolteira.com.br/colunas/index.php?acao=verartigo&idartigo=1126860480