Pecuária

Silagem de milheto: uma opção alimentar para ruminantes

O milheto é uma cultura originária da África, domesticada há cerca de 4000 anos. Caracteriza-se por ser uma gramínea anual de verão, de ciclo curto e se destaca como forrageira por sua habilidade em desenvolver-se em estações chuvosas curtas, com baixas precipitações pluviométricas e pelo crescimento rápido, boa capacidade de rebrote e boa qualidade como forragem.

A grande tolerância desta cultura à seca deve-se ao seu sistema radicular agressivo, que pode alcançar 3,60 metros de profundidade e à sua eficiência na transformação de água em matéria seca, pois necessita de cerca 300 a 400 gramas de água para produzir 1 grama de matéria seca. É capaz de vegetar em regiões com precipitações pluviométricas inferiores a 400 mm anuais, tendo em vista que é cultivado na Índia, onde a pluviosidade é de apenas 130 a 180 mm por ano.

O ciclo vegetativo é curto, variando de 60 a 90 dias para variedades precoces e 100 a 150 dias para as tardias, com uma temperatura ótima de crescimento de 28 a 30º C, não suportando temperaturas inferiores a 10 ºC. É uma cultura influenciada pelo fotoperíodo, de modo que, quanto mais tardiamente for realizado o plantio, menos dias a planta levará da germinação ao florescimento, que ocorre, geralmente, por volta de 10 a 12 semanas após o plantio. Em função de características de rusticidade e adaptação a plantios de fim de verão ou princípio de outono, o milheto é considerado como uma cultura de grande potencial para produção de silagem em regiões com problemas de veranico ou seca ou em plantios de sucessão ou safrinha, podendo substituir o milho e o sorgo nessas ocasiões.

Quando cultivada em período de safrinha, o milheto produz, em média, de 6 a 10 toneladas de matéria seca por hectare (t MS/ha), no entanto, a cultura tem potencial para produzir até 20 t MS/ha quando cultivada no início da estação chuvosa. Conforme observado no gráfico 1, as cultivares CMS – 1, BN – 2 e BRS – 1501 apresentaram produções satisfatórias para o período de safrinha. As produções em t MS/ha das cultivares colhidas aos 82 dias após o plantio foram, 7,5 (CMS-1), 7,0 (BN-2) e 6,0 (BRS-1501) t MS/ha, sem levar em consideração a rebrota, cuja produção foi de aproximadamente 1,0 t MS/ha.

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No Brasil, a silagem do milheto ainda é pouco estudada, mas alguns trabalhos já demonstraram que é possível produzir forragem em quantidade e qualidade satisfatórias quando a cultura é cultivada e manejada adequadamente (Almeida et al., 1993; Amaral, 2003; Guimarães Jr, 2006). Assim como a silagem produzida a partir de capins, o maior limitante para produção de silagem de milheto é o teor de matéria seca no material a ser ensilado. O momento adequado de colheita do milheto para confecção de silagem se dá quando seus grãos encontram-se em estádio pastoso-farináceo, no entanto, nesse momento, a planta encontra-se com teor de matéria seca baixo, entre 20 e 23 %. Apesar disso, é possível ainda produzir silagens com bom padrão fermentativo.

Silagens com teor médio de 23,5 % de matéria seca (Tabela 1) foram classificadas, após 56 dias de fermentação, como de boa qualidade, de acordo com os teores de pH, MS, ácidos orgânicos (acético e butírico), nitrogênio amoniacal em relação ao nitrogênio total (N-NH3/NT) e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS). Entretanto, a incorporação de substâncias que absorvem umidade dentro do silo, como polpa cítrica, milho desintegrado com palha e sabugo, fubá de milho ou sorgo, favorecem o processo fermentativo. A incorporação de 3 a 7 % desses aditivos é suficiente para elevar o teor de matéria seca da silagem para 25 % de MS, porém a utilização ou não dessa estratégia deverá sempre ser avaliada com base no custo. Outra opção é a pré-murcha da forragem a ser ensilada. Essa prática é eficiente, mas em função do expressivo aumento na mão-de-obra tem se mostrado mais viável para produções de silagem em baixa escala.

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Durante a transformação da forragem verde em silagem, os carboidratos solúveis presentes na planta ensilada são utilizados por bactérias para produção de ácidos graxos de cadeia curta, responsáveis pela conservação do alimento dentro do silo. Apesar da baixa concentração de carboidratos solúveis na planta do milheto (5 %) uma porção significativa da fração hemicelulose pode ser utilizada durante o processo fermentativo, o que favorece a sua conservação.

A composição química da silagem de milheto é variável, sendo de grande significância a época de corte da planta a ser ensilada e a cultivar avaliada. Silagens confeccionadas com a planta colhida aos 100 dias após o plantio apresentaram, na matéria seca, teores de proteína bruta por volta de 11% e digestibilidade in vitro da matéria seca de 54 %. Os teores de FDN variaram de 60 a 70 % e FDA de 30 a 40 %. A silagem é bem consumida por ruminantes, não apresentando fatores antinutricionais que prejudiquem o desempenho animal. Estrategicamente, a silagem de milheto tem sido utilizada como alternativa a silagens de milho e sorgo, no período de safrinha, com bons ganhos em produtividade. Apesar do conteúdo energético ser inferior a essas silagens, o elevado qualidade e teor protéico da silagem de milheto tem sido um diferencial. As produtividades da cultura no período de safrinha e o bom valor nutritivo da sua silagem fazem com que o milheto possa ser indicado como uma interessante opção de volumoso para ruminantes produtores de leite, carne e lã.

Roberto Guimarães Júnior
Médico Veterinário, D.Sc., Embrapa Cerrados, Rodovia BR 020, km 18, 73310-970, Planaltina/DF. guimaraes@cpac.embrapa.br.

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Referências bibliográficas:

ALMEIDA, E.X.; TCACENCO, F.A.; STUCKER, H.; GROSS, C.D. Avaliação de cultivares de sorgo, milho, milheto e teosinto para o vale do Itajaí. Agrop. Catarinense, v.6, n.3, p.25 – 29, 1993.

AMARAL, P. N. C. Silagem e rolão de milheto em diferentes idades de corte. 2003. 78p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia)- Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG.
GUIMARÃES JR, R. Potencial forrageiro, perfil de fermentação e qualidade das silagens de três genótipos de milheto [pennisetum glaucum (l). R. Br.]. 2003. 44p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
GUIMARÃES JR, R. Avaliação nutricional de silagens de milheto [Pennisetum glaucum (l). R. Br.]. 2006. 90p. Tese (Doutorado em Ciência Animal) – Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=819