Saúde com dietas ricas em gordura

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Os inuítes são membros da nação indígena esquimó que habitam as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groelândia. O antropólogo Vilhjalmur Stefansson resolveu conviver com este povo no Ártico canadense e relatou que de seis a nove meses ao ano eles não comiam nada além de carne de caribu; depois, passavam meses comendo apenas salmão, e um mês comendo ovos na primavera. Stefansson percebeu que a gordura era o alimento predileto e o mais precioso aos inuítes, mas não viu, entre eles, nem obesidade nem doenças.

O médico e professor de bioquímica George V. Mann, por sua vez, estudou o povo massai na África, e constatou que os guerreiros bebiam de três a cinco litros de leite por dia, geralmente divididos em duas refeições. Quando a quantidade de leite diminuía, na estação seca, eles o misturavam com sangue de vaca. A gordura era fonte de mais de 60% das calorias ingeridas, e toda ela era de origem animal, o que significa que era, em grande parte, saturada. Apesar disso, a pressão sanguínea e o peso dos massais eram cerca de 50% mais baixos que os dos norte-americanos – e, mais importante, os índices não aumentavam com a idade.

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Imagem: Povo massai, na África.

De acordo com os conselhos que ouvimos há décadas, em vez de produtos de origem animal deveríamos comer vegetais – a dieta mais saudável seria quase vegetariana. A American Heart Association (AHA) e o US Department of Agriculture (USDA) recomendam que as calorias necessárias para nossa vida diária sejam obtidas principalmente de frutas, hortaliças e cereais integrais, e que o consumo de qualquer tipo de gordura animal deve ser minimizado.

O que devemos pensar, então, dos inuítes e dos massais, que pareciam bastante saudáveis com uma dieta de alto teor de gordura e quase nada de vegetais? Stefansson e Mann, que os observaram, eram pesquisadores bastante respeitados, cujos estudos obedeciam aos padrões da boa ciência e eram publicados em periódicos de boa reputação.

Na realidade, muitas populações humanas saudáveis sobreviveram essencialmente à base de alimentos de origem animal, tanto no passado quanto hoje.

Sir Robert McCarrison, diretor de pesquisas em nutrição do governo inglês no Serviço Médico da Índia e, talvez, o nutricionista mais influente da primeira metade do século XX, escreveu que estava profundamente impressionado pela saúde e pelo vigor de certas raças. Os siques e os hunzas, em especial, não sofriam de nenhuma das principais doenças dos países ocidentais, como câncer, úlceras pépticas, apendicite e cárie dentária. Esses indianos do norte eram em geral longevos e tinham um bom físico. Comiam um pouco de carne, mas sobretudo uma abundância de leite e laticínios, como manteiga e queijo.

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Os anais de antropologia e história estão repletos de relatos sobre pessoas que inventam estratégias de caça para conseguir capturar animais durante a estação em que estão mais gordos e, depois, comer as partes mais gordas desses animais.

Agora que tendemos a comer apenas as carnes magras – e a tirar delas até a pouca gordura que resta – essas histórias nos parecem exóticas e inacreditáveis; é difícil compatibilizá-las com nossa concepção de dieta saudável. Como populações inteiras poderiam ter uma dieta alimentar tão pouco saudável segundo os padrões modernos, tão dependente dos alimentos que culpamos por todos os nossos males, e não sofrer das doenças que hoje representam tamanho fardo para nós? Parece quase impossível que os especialistas em nutrição tenham deixado passar em branco informações tão importantes sobre a dieta e as cardiopatias. No entanto, a literatura científica que respalda nossas recomendações dietéticas atuais não faz nenhuma tentativa de levar em conta esses dados e entendê-los.

Apesar disso, temos de partir do pressuposto de que esse paradoxo tem alguma explicação que, de algum modo, passou despercebida. Afinal, nossos conhecimentos modernos são rigorosamente baseados na ciência e são endossados e promovidos pelas instituições privadas e públicas mais prestigiadas e influentes do mundo, não é mesmo? É claro que as “provas” científicas acumuladas ao longo de mais de 50 anos não poderiam estar erradas – ou poderiam?

Fonte: Adaptado do livro “Gordura sem medo”, de Nina Teicholz

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