Produtivo

Sangria

A seringueira no início de sua exploração comercial como produtora de látex, tinha a sangria (extração do látex) realizada através do corte amazônico, conhecido como espinha de peixe e que até hoje continua em uso nos seringais nativos. Este método consta do corte da casca em forma de riscos descontínuos sucessivos a uma distância aproximada de 2,0 cm ficando uma faixa intacta entre as duas incisões (CONCEIÇÃO, 1979).

O corte amazônico persistiu no início da extração do látex nos seringais do Sudoeste Asiático. Com o crescimento da demanda de borracha natural, houve a necessidade de se desenvolver métodos menos danosos aos plantios e mais produtivos. Em 1889RIDLEI através de observações no Singapura Botanic Garden descobriu o método contínuo de incisão, no qual o corte é procedido regularmente pela remoção de uma fina camada de casca através de corte declivoso, princípio este usado até os tempos atuais. Esta descoberta proporcionou a redução dos ferimentos na planta dando condições à regeneração dos tecidos da casca (ABRAHAM, 1980).

Posteriormente em trabalhos realizados pelo RRIM, IRCA, RRIC e alguns outros conduzidos em menor intensidade em outros países, desenvolveram-se sistemas alternativos, visando a racionalização da mão de obra, maximização da produção, prolongamento da vida útil da planta.
VASOS LATICÍFEROS

Na seringueira o sistema laticífero é formado por vasos que se encontram em todas as partes da planta, exceto no lenho. Nas partes vegetativas, os vasos laticíferos se restringem quase que inteiramente à região secundária do floema do tronco, ramos e raízes (DICKENSON, 1969citatio n BUTTERY e BOATMAN, 1976).

A extração de látex é fundamentada na incisão do tronco da seringueira visando a secção dos vasos laticíferos da casca possibilitando ao fluxo do látex para o exterior. Os vasos laticíferos estão arranjados em anéis regulares, quase paralelos ao câmbio, formando círculos concêntricos em relação ao eixo do tronco e inclinados da direita para a esquerda, a partir do alto da planta, notadamente em plantas adultas. O número de anéis dos vasos laticíferos é uma característica clonal e varia com a idade da planta, podendo ser em número de um ou dois em plântulas jovens ou até mais de cinqüenta em determinadas plantas adultas.

Em planta de “pé franco” o número de anéis é maior na parte basal em virtude do formato cônico do tronco. Em plantas enxertadas o número de anéis não varia significativamente a diferentes alturas.

Com base nos clones estudados, GOMEZ et alii (1972) assinalou que 20 a 55% dos anéis de vasos laticíferos estavam a 1 mm do câmbio, 10 35% a 2 mm e 10 a 30% a 3 mm. Em árvores com idade inferior a cinco anos, os anéis estão concentrados nos primeiros 4 – 5 mm, sendo que 40% estão até a 2 mm do câmbio. Acima de cinco anos há uma concentração de anéis próximos ao câmbio e a 8 mm deste, pode-se também nos mais observar a presença de anéis. Por volta do vigésimo na, cerca de 75% dos vasos estão distribuídos a 5 mm do câmbio. Em plantas com idade avançada – em torno de 32 anos – a densidade dos vasos laticíferos é elevada até os 3 mm do câmbio; nos primeiros 2 mm é ainda maior (GOMEZ,1980).

A sangria da seringueira reduz o desenvolvimento da árvore. Após o primeiro ano de sangria, a redução média da taxa de crescimento do tronco, de cultivares produtivas, mostrou-se da ordem de 29%, com variações entre os cultivares. Isto sugere que a regeneração do látex consome reservas de carboidratos que poderiam, de outra forma ser utilizadas no crescimento.

O rendimento econômico da sangria depende da abundancia do escorrimento do látex e pelo seu teor de borracha seca (DRC – Dry RubberContent). Estes dois elementos estão diretamente na dependência de fatores de ordem anatômica, física e fisiológica, que descreveremos a seguir:
PROFUNDIDADE DO CORTE – A região de interesse econômico da planta de Hevea é o tronco onde é realizada a sangria, logo, a exploração do látex
está diretamente relacionada com a estrutura anatômica da casca.

A profundidade da incisão tem estreita relação com a produção, pois o maior escoamento do látex está relacionado com os cortes mais profundos até a distância 1 – 1,5 mm do câmbio. Por outro lado, incisão superior a este limite resulta em lesões das camadas regenerativas do câmbio, provocando o surgimento de nodosidades que dependendo da extensão e quantidade tornam a casca irregular, dificultando ou impossibilitando a sangria no ciclo seguinte.

DECLIVIDADE DO CORTE – A orientação dos vasos laticíferos do interior da casca obedece a um ângulo em torno de 2,1º a 7,1º da esquerda para cima à direita (GOMEZ, 1980). Visando melhor seccionamento dos vasos laticíferos, a sangria deve ser feita a uma declividade em torno de 33º do alto à esquerda para baixo à direita. Diferenças de produção em relação declividades entre 25º e 45º são aceitáveis. Todavia, maior declividade de corte implica em maior consumo de casca e menor declividade conduz à perda de látex por escorrimento no painel quando a casca não é muito espessa. Em planta de “pé franco”, devido a maior espessura da casca, a declividade pode ser menor reduzida (ABRAHAM, 1980).
CONSUMO DE CASCA – A maior quantidade de látex produzida não está relacionada com a maior retirada de casca numa sangria e sim à remoção de fragmentos em torno de 1,5 mm de espessura, no comprimento, profundidade e inclinação de corte adequados. Adotando-se o convencional sistema de sangria (S/2 d/2 100 %), teremos um consumo de casca em torno de 2,0 a 2,5 cm por mês e 30 cm para cada ano de sangria. No sistema S/2 d/3 o consumo mensal fica em torno de 1,5 a 2,0 cm por mês. O controle do consumo de casca deve ser considerado como primordial para a manutenção da vida útil de um seringal e deve acontecer através de marcação mensal de uma linha paralela a linha de corte e com distância entre 1,5 a 2,0 cm (S/2 d/3) ou 2,0 a 2,5 cm (S/2 d/2). A cada último dia de sangria por mês é feita a verificação do consumo de casca e faz-se nova marcação para as sangrias do mês seguinte.
RESPOSTA À SANGRIA – A seringueira tem a característica de produzir maior quantidade de látex quando se reaviva logo depois uma incisão já aberta, do que quando se faz uma nova incisão. Este fenômeno denominado “resposta à ferimento ou resposta à sangria”, foi observado logo no início das explorações econômicas da seringueira, porém sua causa não é muito conhecida. Atribui-se a participação de hormônios, produzidos após a incisão da casca sobre os vasos laticíferos da zona incisada. Em função deste fenômeno é que se verifica uma reduzida produção de látex nas primeiras sangrias efetuadas. De uma maneira geral a “resposta à sangria” se traduz pela aclimatação da zona de casca próxima ao corte, à renovação e restauração de seu látex.
REGIME HÍDRICO E HORA DA SANGRIA – O fluxo de látex varia tanto em volume como em concentração, de acordo com a hora do dia e a estação do ano. As mudanças diurnas parecem ser devidas a alterações na taxa transpiratória, sendo que efeitos sazonais podem ser atribuídos à variação na precipitação e a demanda fisiológica das épocas de queda das folhas e rebrotamento. Experimentos demonstraram que a sangria realizada às 7:00, 9:00 e 11:00 apresentaram diferenças consideráveis de produção de látex. A queda real na produção parece mostrar-se dependente da taxa de transpiração e do suprimento de água. As condições ecológicas que são favoráveis à entrada de água (abundância de água no solo) e que restringem a saída pela transpiração (tempo nublado e temperatura menos elevada) são propícias a uma hidratação dos tecidos e consequentemente uma boa produção de látex. Durante a noite a transpiração é fraca e as perdas de água reduzidas, assim, na prática, num seringal explorado racionalmente a sangria deve ocorrer às primeiras horas do dia (a partir de 4:00), desde que haja luminosidade suficiente para execução perfeita da prática.
ESTADO DE NUTRIÇÃO E FITOSSANITÁRIO – Um seringal para ter uma produção constante e econômica necessita ter uma reposição no solo dos nutrientes extraídos pelas plantas e assim dar condições a estas continuarem produzindo sempre com o mesmo desempenho. As plantas deverão também apresentar um bom estado fitossanitário a fim de que a produção não seja afetada.
TAREFA DE SANGRIA

É a denominação dada a uma quantidade plantas que um seringueiro realiza a sangria em uma jornada de trabalho. O tamanho de uma tarefa varia em função do sistema de sangria adotado, relevo do terreno, habilidade do seringueiro, densidade da área explorada, e, principalmente, da finalidade da produção, se é látex ou cernambi tigela. . No sistema convencional S/2 d/2 100%, o tamanho da varia entre 350 e 500 plantas, sendo comum a média de 450 plantas. Tarefas com maior número de árvores conduzem à sangria tardia em algumas plantas e coleta antecipada em outras, resultando na redução de produção.

Fonte: http://pt.scribd.com/doc/14730767/34/PRAGAS-DA-SERINGUEIRA

REFERÊNCIAS
BRASIL. Superintendência da Borracha. Anais: Encontro Nacional sobre Explotação e Organização de
Seringais de Cultivo. Brasília, SUDHEVEA, 1986. 97 p.
CEPLAC/ EMBRAPA. Sistema de Produção de Seringueira Para a Região Sul da Bahia. Ilhéus – Bahia, 1983.
48 p.
FUNDAÇÃO CARGILL. Simpósio Sobre a Cultura da Seringueira no Estado de São Paulo, I. Piracicaba,
1986. 334 p.
MORAES, Jonildo G.L. et DUARTE, Jodelse D. Cultura da Seringueira. COOPEMARC.
Valença – Bahia, 1987.102 p