Reprodutivo

Reprodução comprometida

Em todo o mundo há relatos que indicam baixa taxa de serviço (animais detectados em cio/animais submetidos à observação) em bovinos inseminados artificialmente, principalmente em decorrência de comprometimentos na detecção do cio. Esse comprometimento é ainda maior em rebanhos Bos indicus, cujo comportamento reprodutivo apresenta particularidades – cio de curta duração com elevado percentual de manifestação durante o período da noite.

Como o Brasil possui cerca de 73 milhões de fêmeas bovinas em reprodução (Anualpec, 2004), com prevalência de aproximadamente 80% de sangue zebu (Bos indicus) criadas, na sua grande maioria, a pasto e em condições extensivas, ocorrem freqüentemente comprometimentos na taxa de detecção de cio e na eficiência dos programas de inseminação artificial. Como reflexo dessas dificuldades, apenas 6 a 7% das vacas em idade reprodutiva são inseminadas artificialmente no Brasil.

Considerando os comprometimentos na detecção de cios, atualmente pesquisadores de todo o mundo vêm desenvolvendo protocolos que sincronizam a ovulação pela aplicação de fármacos e possibilitam o emprego da IA em tempo fixo (IATF), independentemente da manifestação de cio. Tais protocolos permitem inseminar um grande número de animais em dia pré-determinado, sem a necessidade de se implantar programas intensivos de detecção de cio.

Os protocolos de IATF preconizam induzir a emergência de uma nova onda de crescimento folicular sincronizada, controlar a duração do crescimento folicular até o estágio pré-ovulatório, sincronizar a inserção e a retirada da fonte de progesterona exógena (dispositivo) e endógena (prostaglandina F2a) e induzir a ovulação sincronizada em todos os animais simultaneamente.

Além de eliminar a necessidade de detecção de cio para realização da IA, a técnica permite que as inseminações e as prenhezes se concentrem no início da estação de monta e no período pós-parto precoce (50 a 80 dias), diminuindo o período de serviço e aumentando a eficiência reprodutiva dos rebanhos inseminados artificialmente (possibilita a produção de um bezerro/vaca/ano). Ainda, permite que os partos sejam programados para determinada época do ano visando um desmame mais pesado dos bezerros. Quando a IATF é utilizada adequadamente, aproximadamente 50% das fêmeas sincronizadas emprenham com apenas uma inseminação artificial. As fêmeas que não conceberem nessa IA podem ser novamente sincronizadas ou colocadas com touros para repasse. Além disso, as vacas tratadas que não tornaram-se gestantes apresentam maior taxa de cio e de prenhez durante a estação de monta que vacas não tratadas, aumentando a eficiência reprodutiva do rebanho.

Algumas limitações devem ser respeitadas para satisfatória eficiência dessa biotecnologia. Além dos cuidados básicos de qualquer propriedade, como sanidade, controle zootécnico e manejo, os animais devem apresentar satisfatória condição corporal. Também, os horários de aplicação e a quantidade dos fármacos injetados devem ser rigorosamente respeitados, e a qualidade do sêmen utilizado deve ser previamente avaliada.

Inúmeras vantagens são obtidas com a adoção da inseminação artificial em rebanhos bovino, no entanto a baixa taxa de detecção de cio, seja pela ineficiência da detecção do mesmo ou pelo alto grau de anestro apresentado em vacas durante o pós-parto são os principais fatores que comprometem a eficiência e a viabilidade de programas para o emprego dessa biotecnologia. Dessa forma, a inseminação artificial em tempo fixo apresenta-se como uma solução viável para a resolução desses entraves. Há inúmeros protocolos para sincronizar a ovulação com o objetivo de realizar a IATF. A escolha do protocolo mais apropriado depende da avaliação técnica das condições dos animais por um médico veterinário capacitado. Dessa forma, a inseminação artificial em tempo fixo é uma técnica que facilita o manejo e aumenta a eficiência da IA, principalmente nas condições brasileiras de manejo.

Pietro Sampaio Baruselli e Everton Luiz Reis
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=353