Raças

Raça Bovina Mirandesa

Fernando Jorge Ruivo de Sousa1
José Fragoso de Almeida2
1 Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa; 2 Escola Superior Agrária de Castelo Branco
Associação de Criadores de Bovinos da Raça Mirandesa
Posto Zootécnico de Malhadas, 5210-150 MALHADAS

Entre as raças bovinas portuguesas, a Mirandesa foi, no início do século passado, aquela que teve uma maior área de expansão, desde a região considerada como o solar (planalto Mirandês) até ao norte do Alentejo, estendo-se a algumas regiões do litoral centro (Ministério Negócios Estrangeiros, 1932). O efectivo nacional, na altura, era de 244 mil animais (27% do efectivo nacional), número que contrasta bastante com o efectivo actual de 5313 (ACBRM, com. pess.). Antigamente, a função principal dos animais desta raça era a tracção animal, tal como a maior parte das raças autóctones portuguesas. A sua utilização estava ligada desde sistemas de minifúndio (principalmente no norte do país) até explorações de dimensão média (Beira interior e norte do Alentejo). Neste último caso, a natureza dos solos parece ter sido um elemento importante para a sua escolha, ajustando-se ao trabalho em solos de textura arenosa a franco-arenosa. Para além deste factor, segundo outros autores, a expansão da raça esteve condicionada a ecossistemas cuja vegetação natural potencial é caracterizada por formações de Quercus pirenaica, bosques mistos de Q. pirenaica e Fraxinus angustifolia, Q. suber e nas áreas de clima mais continental de Q. rotundifolia e em que as pastagens naturais se caracterizam por formações de Agrostis castellana, Trifolium dubium e T. strictum (Aguiar, com. pess.) o que está de acordo com o tipo de solos atrás mencionado.
O Livro Genealógico foi criado em 1913; o registo zootécnico dos animais, o funcionamento do Livro e o melhoramento da raça eram, desde então, assegurados pelo Posto Zootécnico de Malhadas. Em 1989 criou-se a Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa que assumiu, a partir de 1993, todas as responsabilidades de gestão do Livro Genealógico e do Melhoramento da raça. Em 1994, foi atribuída a Denominação de Origem Protegida (DOP) à “carne Mirandesa” produzida nos concelhos de Bragança, Vinhais, Macedo de Cavaleiros, Vimioso, Mirando do Douro e Mogadouro.
Actualmente os sistemas de produção estão vocacionados para a produção de carne de qualidade a partir de animais abatidos entre os 7 e os 10 meses de idade. Na região norte coexistem dois sistemas principais de produção: “tradicional” em explorações de pequena dimensão (menos de 10 vacas) e extensivo nas restantes explorações. Nas explorações “tradicionais” desenvolvem-se sistemas policulturais vocacionados essencialmente para o autoconsumo, sendo a venda de produtos agrícolas restrita aos excedentes; os bovinos, embora constituindo ainda a força de tracção e produção de estrume, são o elemento fundamental para a economia destes sistemas através da valorização dos vitelos produzidos. Nos sistemas extensivos a produção de animais para abate é o objectivo principal de produção; embora sendo maioritariamente explorações do tipo familiar, podem caracterizar-se pela tendência crescente para uma gestão do tipo empresarial. Em ambos os sistemas, as vacas são estabuladas, pelo menos durante o período de inverno; os vitelos permanecem sempre encerrados. O problema principal que se coloca nestes tipos de explorações, principalmente nas tradicionais e que advém da reduzida dimensão dos efectivos, é a dificuldade de realização de selecção e recria, principalmente de fêmeas reprodutoras.
Nas explorações do sul do país, o sistema de produção extensifica-se ainda mais pois os animais são mantidos em pastoreio ao longo de todo ano, sem serem recolhidos em estábulo.
Quanto aos vitelos, embora sejam suplementados desde o nascimento, são mantidos com as mães em pastoreio até aos 6 meses de idade, altura em que são desmamados e recolhidos em estábulo. Estas explorações do sul, devido à dimensão dos seus efectivos, ao carácter  essencialmente empresarial e à grande procura de fêmeas reprodutoras que se verifica, apresentam uma tendência para a especialização na produção de fêmeas para recria; os machos, constituindo quase um “sub-produto” da exploração, destinam-se ao abate em nichos de mercado locais.
Nos últimos anos, após uma fase de aparente recuperação do efectivo nacional, verificouse uma fraca evolução com tendência para a diminuição do número de animais, apesar dos incentivos, prémios e apoios à comercialização. Esta tendência é extraordinariamente marcada no que respeita ao número de exploração: nos 6 concelhos considerados como o solar da raça,  existiam em 1996, 1466 produtores, número que contrasta com os 905 produtores registados em  2002, a nível nacional (ACBRM, com. pess.). A par desta evolução, o tamanho médio dos efectivos aumentou significativamente: entre 1999 e 2002 o nº médio de vacas/exploração passou de 4 para 5.3, nos concelhos do “solar” e de 6,9 para 41,9, no resto do país.
A fraca resposta da produção a todos os incentivos, constitui um obstáculo à manutenção da raça, ao seu melhoramento e ao desenvolvimento das capacidades de comercialização, essenciais para a viabilização económica dos sistemas de exploração da raça bovina Mirandesa.
Em relação ao programa de melhoramento, o principal obstáculo é a capacidade financeira das explorações de pequena dimensão, que se vêm obrigadas a abater os vitelos, independentemente do seu valor genético. Para tentar fazer face a este problema, nos últimos anos a ACBRM, tem vindo a adquirir os animais de melhor valor genético, procedendo à sua recria e posterior venda em leilão. Porém, as dificuldades económicas da associação limitam este procedimento para aquém do que seria necessária em termos do melhoramento da raça.
Relativamente à comercialização, o efectivo existente nos 6 concelhos da DOP não é suficiente para fazer face à procura. Acrescente-se ainda, que a estrutura mínima e actual que garante o funcionamento da fileira produção-abate-comercialização, está a laborar abaixo do seu potencial, não sendo assim possível melhorar a sua rentabilização com o número actual de abates.
Por outro lado, nas regiões fora da DOP, o sistema de comercialização de vitelos para carne apresenta riscos elevados, constituindo uma dificuldade em manter a rentabilidade destas explorações, um obstáculo ao seu desenvolvimento e ao aumento do número de explorações e do efectivo.
Assim, a manutenção das explorações e do efectivo de bovinos de raça Mirandesa é, no momento, uma questão prioritária. A solução deste problema poderá passar pelas seguintes soluções:

a) Incentivos à instalação de novas explorações; incentivos à reconversão de explorações tendo em vista o aumento dos efectivos;
b) Criação de um programa de recria para fêmeas, em paralelo ao programa de selecção e melhoramento, de modo a evitar o abate de animais de alto valor genético;
c) Criação de um sistema para abate-comercialização de vitelos nas regiões fora dos 6 concelhos da DOP.

Fonte: http://docentes.esa.ipcb.pt/bovinos.autoctones/fragoso.pdf