Queimadas: é bom repensar

Queimadas para a colheita da cana-de-açúcar , prática generalizada desde a década de 1960, são desperdício de energia e crime ambiental (lei estadual de São Paulo).

A produção de cana de açúcar no país atingiu 311 milhões de toneladas em 1998, um quarto da produção mundial. Metade desta quantidade foi utilizada para a produção de açúcar (17,7 x106 t) e metade para etanol (13,7 106 m3). O Estado de São Paulo é o maior produtor de cana (199 milhões de toneladas, 1998); o centro-sul produz cerca de 90% do total nacional. Em uma área de 4,5 milhões de ha, aproximadamente 400 usinas cultivam cana-de-açúcar no país, 60% no Estado de São Paulo.

O bagaço obtido de uma tonelada de cana – cerca de 260 kg – pode gerar 0,06 MWh de energia elétrica. Assim, o potencial da produção de eletricidade a partir do bagaço de cana em todo o Estado pode ser estimado em 11 TWh/ano.

Estima-se que seria possível gerar em São Paulo cerca de 65 TWh/ano de energia elétrica usando racionalmente a fibra de cana de açúcar em ciclos combinados de potência. Supondo-se um período de safra de seis meses, a capacidade instalada seria cerca de 15 GW. Uma Itaipu nos canaviais de São Paulo!

Tecnologia para transformar bio-massa – bagaço, pontas e palhas de cana – em energia elétrica está disponível. Pesquisas indicam que a cana produz de 40 a 150 toneladas por hectare de palha ou 30 a 40 milhões de toneladas/ano de palha. A quantidade de matéria seca queimada nos canaviais por ano, por unidade de área, é maior que na Amazônia – 0,5 kg / m2 contra 0,03 kg / m2 – , portanto a energia liberada na queima é grande.

Já em 2001, existia no país mais de 300 usinas de açúcar e álcool que produziam a própria energia a partir do bagaço de cana – cerca de 1000 MW com 750 MW nas 115 usinas no Estado de São Paulo -, e algumas até vendiam o excedente. Segundo estudos, na medida em que cana crua passar a ser colhida em larga escala, por força das restrições ambientais que impedirão a prática da queima pré-colheita, a disponibilidade de biomassa aumentará significativamente o que pode fazer com que o potencial de produção de energia elétrica chegue a cerca de 9-12 GW, dependendo da tecnologia usada. Este potencial é avaliado para um nível de produção da ordem de 250 milhões de toneladas de cana por ano, alcançado na safra de 1999/2000, sendo que a moagem anual no país já chegou a 320 milhões de toneladas de cana.

A queima nos canaviais, defendida pelos usineiros, é contestada por técnicos e entidades vinculadas ao meio ambiente em função de seus efeitos danosos à proteção do solo – destrói microrganismos úteis e não reincorpora massa orgânica – e a qualidade do ar. Junto com a fuligem que se vê, sobe para a atmosfera um punhado de gases agressivos à saúde que não se vê. Alguns deles comprovadamente cancerígenos e mutagênicos. Os não tão agressivos atacam as vias respiratórias, agravando ou provocando crises de bronquites, asma e outros desarranjos, principalmente em idosos e crianças.

Estas queimadas produzem gás carbônico, CO2 , o gás que mais contribui para o chamado “efeito estufa”. Em seu estado natural, este efeito é responsável pelo clima que permitiu o desenvolvimento deste tipo de vida neste planeta. Alterado este efeito, a temperatura média aumenta, os ecossistemas, se não forem destruídos, se acomodarão de uma maneira que podem tornar vastas áreas impróprias para a permanência humana e mesmo da flora e fauna.

Para uma análise mais abrangente da queimada há que se considerar a questão do emprego dos trabalhadores da área. Sem queima da cana não há como o trabalhador realizar o corte da cana de maneira apropriada. Corre até o perigo de ser picado ou mordido por alguns animais. Há aumento da produtividade, em média trabalhadores chegam a cortar de 4 a 7 ton./ dia. E faz este serviço em qualquer terreno. Uma máquina de cortar cana não tem bom rendimento em terreno com declividade maior que 30%. O trabalhador é indispensável. Estima-se que haja nesta região do estado de São Paulo, que compreende as cidades de Capivari, Santa Bárbara d’Oeste, Rio das Pedras, Salto, Monte Mor, Elias Fausto, Rafard e Indaiatuba, por volta dez mil cortadores de cana.

Para finalizar, precisa-se gerar energia para o desenvolvimento deste país, não se pode poluir a atmosfera já bastante carregada, e é preciso oferecer empregos no campo, nesta agroindústria sazonal, para manter aí o trabalhador e para ele não se transferir para a cidade a procura de emprego e em lá ficando, esta não poder proporcionar, para acolhê-lo, condições satisfatórias de infra-estrutura, tal como, saneamento básico, disponibilidade de água, habitação, transporte, educação e saúde. Na década de 1960 a população urbana no país, era de 20% e a rural 80%, hoje, esta percentagem, está invertida.

Precisa-se produzir mais açúcar e álcool. Açúcar para aumentar as divisas e o álcool para suprir de combustível renovável os veículos. Um suprimento estável baseado em uma política nacional confiável para encorajar os proprietários de veículos a investir mais neste combustível menos poluidor que os derivados de petróleo.

É uma situação difícil, um grande desafio para os governantes.

Prof. Dr. Carlos A. Ferrari – Coordenador do Centro de Estudos do Meio Ambiente – CEMEA / Centro UNISAL e professor do curso de Engenharia Elétrica.

 

Fonte: http://www.am.unisal.br/publicacoes/artigos-10.asp