Pecuária

Quanto custa?

O Projeto TAB-57 basicamente procurou abordar custo de produção aliados à performance e ocupação de área; classificação e valorização de carcaças.

Mas o que tem de tão diferente.

Nada…

Só que nunca foi feito antes.

O Projeto TAB-57 é fruto de criação coletiva de Dirceu A. Borges, Fernando de Almeida Andrade, Luiz Antonio Josahkian, Carlos Arthur Ortenblad , Paulo H. Julião de Camargo e Rodolpho Assumpção Ortenblad .O objetivo comum foi o de desenhar e executar um projeto abrangente e, em vários aspectos, totalmente inovador na pecuária nacional.

O Projeto TAB-57 é o primeiro projeto de performance, realizado de forma totalmente integrada no Brasil, com rigoroso levantamento de custos de produção por arroba e por área ocupada.

Cruzamento industrial

Para cruzamento industrial foram eleitas duas raças européias, como raças paternas, uma britânica e outra continental, ambas eficientes produtoras de carne: Aberdeen Angus e Blonde D’Aquitaine.

Como raças maternas, duas raças zebuínas: Nelore – por ser a base da pecuária brasileira, e Tabapuã – raça que as fazendas promotoras desejavam avaliar como opção tropical viável ou ideal para cruzamentos.

Foram inseminadas 240 vacas Nelore, da fazenda Bethânia (fazenda colaboradora) e 240 vacas Tabapuã, sendo 120 vacas da Fazenda Água Milagrosa e 120 vacas da Fazenda Córrego da Santa Cecília (fazendas promotoras). Todas as 480 vacas foram inseminadas dos mesmos 6 touros Abeerdeen Angus e dos mesmos 6 touros Blonde D’ Aquitaine , os touros escolhidos não tinham parentesco e todos apresentavam DEP positivo.

Absoluta isonomia

Uma das maiores preocupações do Projeto TAB-57 é isonomia. Por termos testado raças e não indivíduos, pela responsabilidade que as fazendas promotoras têm com o grupo que se formou para a realização deste projeto, e, principalmente, para a preservação do conceito de idoneidade que as fazendas promotoras desfrutam, todos os cuidados possíveis foram tomados na concepção, execução e aferição do projeto.

Auditoria e transparência

Foi facultado formalmente às entidades que dão apoio técnico ao Projeto TAB-57 (ABCZ, Nova Índia Genética e FAZU – Faculdade de Agronomia e Zootecnia de Uberaba) o direito de realizarem auditorias em todas as etapas do projeto: desde acompanhamento de pesagens até medição de piquetes onde se encontrem os animais testados; desde checagem dos levantamentos de custos até verificação de igualdade de condições de meio e manejo dos quatro tratamentos.

Custos de produção

Este é um dos aspectos principais do Projeto TAB-57, e que certamente o distingue dos demais testes de desempenho existentes. Utilizando um dos mais seguros, completos, e sofisticados programas de “apropriação de custos”, todos os custos de cada cruzamento foram criteriosa e minuciosamente aferidos, tabulados e calculados, com precisão de centésimos de centavos de dólar.

Afinal, quando você vê resultados de provas de ganho de peso, onde um animal ou um lote ganhou X kg por dia, não é comum que a seguinte pergunta venha à sua cabeça: “OK, mas quanto custou?” Os resultados de testes de desempenho quase nunca mencionam. E custo de produção é uma informação vital, pois para que adianta alta produtividade e performance, se obtidos a custos proibitivos?

Os custos de produção do Projeto TAB-57 foram levantados, com auditoria externa, desde o início da inseminação artificial, em 01/11/2000, até o abate e avaliação de carcaça dos machos F1,realizada em 05/06/2003 pelo professor Pedro Eduardo de Felício (FEA/Unicamp), e equipe.

Para nós, o importante não é propriamente o ganho de peso, e sim, a produção de kg/hectare/ano. O importante não é propriamente a taxa de conversão de alimento em carne, mas sim, quanto custou cada quilo de carne produzido. A performance, o desempenho e a produtividade são importantes – mas como instrumentos de redução de custos. Pois uma fazenda é uma empresa como outra qualquer. Se não produzir a custos compatíveis com o mercado, vai à falência.

Se lucro é o objetivo, um criterioso levantamento de custos é o caminho.

Esta é uma lacuna que o Projeto TAB-57 preencheu da concepção ao abate, e de forma detalhada, abrir os custos de produção por unidade produzida (quilo ou arroba), e por área ocupada (hectare).

Do total de nascimentos foram escolhidos 52 animais na média, sendo 13 de cada cruzamento Tabapua x Angus, Tabapua x Blonde , Nelore x Angus e Nelore x Blonde para dar continuidade ao Projeto.

Naturalmente, como estes 52 machos são oriundos de três fazendas diferentes, com custos de produção diferentes; Relações de UA/ha diferentes; Pesos também diferentes, e com participação percentual de cada fazenda no lote total também diferente, tornou-se imprescindível fazer composição de dados deste lote de 52 machos, via média modal. O resultado é o que é apresentado na tabela 2, e é com estes índices que passaremos a trabalhar, pois retratam com exatidão, o perfil dos 52 animais.

Prova de Ganho de Peso: período de 15/09/2002 a 15/05/2003. Foram feitas uma pesagem inicial e duas pesagens intermediárias, em 15/09/2002, 15/12/2002 e 15/03/2003 – e mais pesagem extra em 15/05/2003 – já como PGP. Todos os machos F1 dos quatro cruzamentos ficaram na Água Milagrosa, sendo recriados juntos e em idênticas condições de meio e manejo. O Projeto TAB-57 não teve alimentação complementar, e sim e apenas capim, água e sal protéico e energético, por entender que estas são as condições que prevalecem no Brasil.

Devido ao rendimento superior no abate, os machos F1 do Projeto TAB 57 apresentaram peso médio ponderado de 17,59 @, com idades variando entre 19 e 20 meses, e é com estes índices que apresentaremos as considerações finais do projeto.

Tempo médio para produzir um macho F1 de 17,59 @ (desde o início da gestação): 31 meses e 4 dias.

Área média para produzir um macho F1 de 17,59 @: 0,478 hectares.

Para produzir um macho F1 de 17,59 @, ocupando 0,478 hectares de pastagens – o CUSTO DIRETO por animal foi de: US$ 113,833 ou R$ 330,12 com dólar cotado a R$ 2,90 (média modal de custo por animal considerando idades).

Para chegarmos a um CUSTO TOTAL ( = Direto + indireto ou “overhead”), acrescentaremos 20% – que é um percentual acima da média para fazenda de pecuária de corte, onde os custos indiretos são de pequena monta. Assim, o garrote F1 de 17,59@ passaria a custar R$ 396,14.

Se considerarmos os dados acima, concluiremos que é factível produzir-se arroba de boi a um custo total de R$ 22,51 (R$ 396,14 ¸17,59). Nesta mesma época (início de junho de 2003), o valor de venda à vista da arroba estava cotado a R$ 50,00.

Qualquer generalização é perigosa, pois, embora os números acima sejam rigorosamente verdadeiros, há ressalvas e considerações que devem ser levadas em conta:

a) Os animais em questão, embora tratados apenas a capim, água e sal mineralizado, são fruto de genética superior – e, assim, mais eficientes em ganho de peso (maior taxa de conversão de alimento em carne).

b) Além disso, são fruto de cruzamentos de touros taurinos (com DEP positivo) com matrizes zebuínas, obtendo-se o máximo em heterose.

c) Todas as 3 fazendas onde nasceram e se criaram estes animais são de boa qualidade de solo, topografia plana e de água abundante. Estes fatores foram muito importantes para amenizar os efeitos de fortes estiagens verificadas em 2001 e 2002

d) Além disso, todas encontram-se no estado de São Paulo, que, pela proximidade dos centros de produção de insumos, bem como de consumo – contribui para baratear custos de produção.

e) O meio a que estes animais – e suas mães – foram submetidos, nas duas fazendas promotoras, como na colaboradora, desde o início – foi o de abundância, jamais de carência, mesmo na seca.

f) O sistema de manejo utilizado nas três fazendas – é de primeira qualidade, propiciando aos animais a liberação de todo seu potencial.

g) Tanto em “creep feeding” (em uma fazenda promotora e na colaboradora), quanto em fertilização de pastagens (na outra fazenda promotora), foram utilizados produtos de primeira qualidade, e com dosagens e fórmulas corretas. O mesmo deve ser dito em relação a sal mineralizado (protéico ou energético), vermífugos, vacinas e medicações em geral.

h) A sinergia entre rotação de piquetes e adubação de pastagens é uma realidade, como se a soma de 1 + 1 desse 3.

i) Considere-se como vital uma boa gestão financeira, inclusive a básica: fluxo de caixa. Juros bancários acima da rentabilidade do setor oneram, e, por vezes, inviabilizam a atividade.

j) Há um outro fator de suma importância: decisão estratégica de compra de insumos. Normalmente compramos fertilizantes, herbicidas e outros insumos nos meses de junho e julho, quando ninguém os está comprando. Os descontos obtidos sempre compensam – e muito – o custo financeiro de carregar o estoque por até 12 meses.

Na realidade, o projeto foi um trabalho de “grupo”, capitaneado pelo Carlos Arthur Ortenblad, que conduziu o Projeto de maneira impecável. Ele diz que sua contribuição foi a de conseguir reunir “talentos”, estes sim, merecedores de todos os elogios.

O cerne do Projeto TAB 57 não é a comparação entre raças e seus cruza-mentos, embora tal não seja isento de valor. Mas sim, a normatização da pecuária de corte, como atividade empresarialmente racional, inclusive abrindo espaço para uma inevitável e salutar discussão: a valoração de carcaças – não apenas por peso, mas, principalmente, por qualidade.

Com todas as considerações acima, o Projeto mostrou que é possível produzir-se novilhos criados apenas a pasto (adubado), com lotação de 2,28 UA/ha ao longo de todo o projeto, pesando 17,59 @, a maioria classificando-se dentro da “cota Hilton” e custando para produzir apenas R$ 22,51 por arroba.

Rodolph o A. Ortenblad
Fazenda Córrego da Santa Cecília

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=174