Quando um cavalo idoso necessita de especial tratamento?

Em humanos, a idade cronológica não é para todos, um indicador do processo de envelhecimento. Para a American Quarter Horse Association, um cavalo com mais de 16 anos é “maduro”. Nos estudos realizados pela Dra. Sarah Ralston (1988-1989), mais de 70% dos cavalos acima de 20 anos de idade mantém boas condições, mas requerem tratamento especial porque foram desgastados de várias formas. Deste modo, muitos destes cavalos foram extenuados no esporte ou, no caso de éguas e garanhões, muito usados na criação. A idade, sozinha, não pode ser usada como critério para aposentadoria ou tratamento especial. Entretanto, cavalos com mais idade, que tenham 1 ou mais dos problemas mostrados na tabela 1, são candidatos para tratamento especial.

Manejo das Mudanças e Problemas Associados com Envelhecimento em Cavalos

– Artrites
Como em atletas humanos, anos de stress, lesões, e desgaste e rupturas podem terminar em lesões do aparelho locomotor. Artrite é a combinação de degeneração e inflamação dos tecidos associados com uma articulação, com redução da capacidade de flexionamento ou de suporte de peso. Esparavão ou aumentos de volume são exemplos de problemas de artrite facilmente observados em cavalos idosos. Entretanto, um pequeno “endurecimento” que um cavalo idoso mostrar quando sair da baia, não é motivo para alarme ou aposentadoria.

Para tratar os cavalos com artrite mais facilmente, é preciso consultar um ferrador ou veterinário, para identificar qual a melhor maneira de ferrar ou casquear este animal. Mantenha o cavalo estabulado com cama bem fofa, porém não alta. O uso de drogas antiinflamatórias pode ser recomendado pelo veterinário nos casos crônicos. Não deixe o cavalo ficar obeso, pois o excesso de peso pode aumentar o stress sobre as patas.

O confinamento exagerado não é absolutamente necessário para o tratamento médico, é possível encontrar um ponto de equilíbrio, que seja menos desgastante. O ideal é que o cavalo tenha livre acesso ao ambiente externo, de preferência com outro cavalo para companhia.

– Emagrecimento
As causas mais comum da perda de peso em cavalos idosos são a incapacidade para cumprir programas de trabalho, doenças debilitantes e/ou dentição fraca. Entretanto, os cavalos idosos que não sofrem nenhum destes problemas podem ser beneficiados com mudanças na dieta. Ralston et al. (1989) descreve que cavalos com mais de 20 anos tem reduzida a sua capacidade de digerir fibras, proteínas e absorver fósforo, quando comparados com cavalos jovens alimentados com a mesma dieta, mas, muitos dos cavalos idosos são capazes de manter boas condições corpóreas com feno de boa qualidade na dieta e a absorção ruim de nutrientes, pode ser conseqüência de parasitoses crônicas no intestino ou alterações nos processos digestivos.

A dieta dos cavalos com mais de 20 anos deve ter pelo menos 12% de proteína e 0,3% de fósforo com cálcio maior ou igual à quantidade de fósforo, mas menos do que 1% da matéria seca. A digestibilidade do concentrado precisa ser maximizada através de processamento do alimento (extrusão ou peletização). Uma ração ideal consiste de feno de alta qualidade (preferentemente mistura gramínea/alfafa, exceto para os animais com problemas renais ou hepáticos), pellets de alta densidade ou produtos extrusados, produzidos para potros desmamados ou cavalos idosos, além de água e sal mineral à vontade. Farelo de soja é a fonte ideal de proteínas para cavalos idosos.

Cavalos idosos são mais sensíveis a temperaturas extremas, seja frio ou calor. É essencial um abrigo adequado e, para a maior necessidade energética no inverno seja providenciado um aumento da energia da dieta, da forma mais digestiva, utilizando alimentos peletizados ou extrusados. Problemas de constipação ou impactação podem ser reduzidos com livre acesso a água limpa, fresca e não tão fria, no inverno. Para os cavalos que não bebem bem, a mistura de água com o alimento pode ser recomendada com forma de aumentar a ingestão de fluídos. A adição de 1 ou 2 punhados de sal no alimento, pode ser uma forma de estimular o aumento da ingestão de água, mas, somente para os cavalos que tem livre acesso a ela.

– Dentição inadequada/ perda de dentes
Todos os cavalos precisam de cuidados dentários regulares. Os dentes dos cavalos se desgastam continuamente durante toda a vida e, freqüentemente, formam pontas na parte externa dos molares superiores e na parte interna dos molares inferiores. Estas pontas atrapalham a mastigação e permitem o acúmulo de partículas de feno. Os dentes dos cavalos que são alimentados com feno e grãos necessitam de mais atenção do que aqueles dos cavalos que se alimentam exclusivamente de pastagem. Perdas de dentes, especialmente molares ou pré-molares, podem reduzir a capacidade para apreender e triturar o alimento. A dentição inadequada predispõe o cavalo a perda de peso.

Cavalos idosos, principalmente aqueles que perderam molares, precisam Ter seus dentes checados pelo menos duas vezes por ano. Quando a mastigação é dificultada, o uso de sopas de alimentos peletizados pode ser indicado. Dieta completa, peletizada, sem o uso de feno, tem se mostrado apenas com um substituto dos grãos da dieta e não possui o balanço mineral adequado, para ser usado como maior, ou, único constituinte da dieta. O feno não tem se mostrado como bom componente para ser fornecido misturado com água, melhor seria uma pastagem de boa qualidade.

Por outro lado, quando ocorre a perda dos incisivos ou alinhamento inadequado, não é indicado o uso de pastagem. Estes cavalos podem ser alimentados com dietas peletizadas ou feno inteiro ou em cubos, desde que, não precisem arrancar o alimento.

– Tumores de pituitária ou tireóide
Em um estudo com cavalos idosos (Ralston et al., 1989), mais de 70% dos cavalos com mais de 20 anos de idade, tinham pelo menos, sinais subclínicos (alterações no metabolismo de glicose e cortisol) de tumores de pituitária ou tireóide. Éguas, aparentemente, são predispostas para terem tumores de pituitária, enquanto tumores de tireóide, parecem ser mais comuns nos castrados. Os tumores de tireóide são normalmente considerados como benignos, mas, podem aumentar a incidência de obesidade e desenvolvimento.

Éguas velhas com tumor de pituitária, sempre nos estados subclínicos, tem uma redução na vitamina C plasmática, que não é identificada em fêmeas jovens. Isto pode explicar, parcialmente, o aumento da suscetibilidade para doenças virais. Ambos tipos de tumor podem causar relativa intolerância a glicose, com a qual, os cavalos a perder a sensibilidade a insulina. Depois de alta ingestão de glicose ou amido, os níveis plasmáticos de glicose e insulina sobem anormalmente e aumentam a sudorese e micção.

Estudos realizados indicam que dietas peletizadas ou extrusadas, formuladas para serem completas (fração volumoso + fração concentrado), resultam em mais modificações na resposta plasmática de insulina e glicose depois da ingestão e podem ajudar no controle deste problema.

O tratamento é recomenda para tumores de tireóide. Os cavalos podem receber a reposição hormonal, acompanhada de dosagem plasmática. Até o momento o tratamento para tumor de pituitária é apenas experimental em cavalos.

O manejo dos cavalos que apresentam problemas clínicos relativos a estes tumores é relativamente simples: é essencial que sejam mantidos em um rigoroso programa de vacinação; podem receber uma reposição de vitamina C (5 a 10 mg de ácido ascórbico na dieta/dia); se a ingestão de água e micção aumentarem, o fornecimento de água limpa e fresca pode ser recomendado; nos casos crônicos, o acesso à pastagem e grãos devem ser restritos e a composição de uma dieta especial pode ser indicada e, para concluir, a tosquia, no verão e o uso de capas no inverno, podem ajudar na regulação da temperatura e conforto.

– Alterações na função hepática e renal
Falência renal e hepática não são tão comuns nos cavalos como nos cães e gatos, mas, podem ocorrer. As degenerações da habilidade renal e hepática é progressiva e irreversível, mas pode ser reduzida e os sinais clínicos estabilizados com uma dieta adequada.

A redução da função renal pode resultar no aparecimento de cálculos renais, pedras na bexiga, perda de peso, perda do apetite e potencialmente, a morte. Eqüinos são os únicos que podem excretar o excesso de cálcio da dieta pela urina, enquanto que as outras espécies, eliminam pelas fezes. Desta forma, quando a função renal é diminuída, os cálculos renais e de bexiga passam a ocorrer com maior freqüência e a formação de oxalato de cálcio na corrente sangüínea (potencialmente letal) ocorre mais facilmente. Cavalos com falência renal precisam ser tratados com dietas com pouco cálcio (<0,45% de cálcio na matéria sêca). Baseados nos dados de outras espécies, proteína e fósforo precisam ser restringidos para menos de 10% e 0,30%, respectivamente. Feno de gramínea, de boa qualidade e milho ou uma ração peletizada, formulada para eqüinos adultos (10% de proteína), são uma boa opção. Por outro lado, leguminosas (alfafa), que contém altas quantidade de cálcio e farelo de trigo, que possui grande quantidade de fósforo, devem se evitados.

A falência hepática resulta em perda de peso, letargia, icterícia, perda do apetite e intolerância para proteína e gordura na dieta. Nos casos severos, os eqüinos podem mostrar trocas de comportamento e irritabilidade, movimentos cambaleantes ou em círculo e encostar a cabeça na parede ou cerca. Os cavalos afetados necessitam de um aumento no açúcar da dieta, para manter os níveis plasmáticos de glicose e não aceitam dietas com muita proteína ou gordura. Leguminosas não são bem aceitas por terem muita proteína. Uma dieta que contenha bons níveis de amido (grãos) somada a uma boa fonte de fibra (gramínea) pode prevenir disfunções gastrointestinais. Feno de gramínea, alimentos doces com baixa proteína, milho, e milheto são componentes recomendados para formular uma ração. Farelo de trigo e polpa de beterraba são suplementos aceitáveis neste caso. Já que o fígado é responsável pela síntese de vitamina B (principalmente niacina) e vitamina C nos cavalos, uma suplementação diária, via oral com complexo B e ácido ascórbico pode ser indicada.

Resumo
O cavalo não deve ser tratado de maneira diferente somente porque atingiu uma certa idade. Entretanto, vários problemas relacionados com o envelhecimento podem estar presentes e trocas no manejo, alimentação e alguns medicamentos, podem ser necessários para manter os eqüinos mais velhos de maneira confortável. Cavalos idosos que não têm reduzida sua função hepática ou renal, podem ser beneficiados com dietas parecidas com as utilizadas para potros desmamados, mais do que as recomendadas para manutenção de animais adultos. Cálcio e proteína, entretanto, precisam ser reduzidos para cavalos com falência renal.

Os dentes precisam ser checados a cada 6 meses, ou, mais freqüentemente quando o cavalo perdeu um pré-molar ou molar. Nos casos de problemas dentários, sopas podem ser utilizadas a partir de alimentos peletizados. Vacinações e programas sanitários devem ser cuidadosamente mantidos.

Tumores de pituitária e tireóide são muito comuns nos cavalos idosos. Os primeiros sinais são a resistência para sair da sombra no verão, ou seja, intolerância ao calor, aumento na ingestão de água e micção, e caquexia crônica. O uso de algumas drogas pode ajudar, mas, as melhores custam caro e não são indicadas para uso em cavalos.

Alojamento apropriado é indicado, para cavalos idosos, especialmente nas regiões onde o inverno é mais frio. Entretanto, confinar cavalos com problemas de artrite não é recomendado. Baias com livre acesso a piquete podem ser o mais indicado nestes casos.

Tabela 1
Condições que requerem atenção especial nos cavalos idosos

Condição
Sinais Clínicos
Considerações de Manejo
Artrite Claudicação crônica
Deformidades osteo-articulares
Anquilose (dificuldade flexão art.)
Ferrageamento e casqueamento
Forração adequada da baia
Evitar obesidade
Terapia antiinflamatória
Perda de Peso Incapacidade para manter peso
Desgaste irregular dos dentes
Ração inadequada para cavalos idosos
Dentes
Dieta
Ambiente (baia apropriada)
Falência renal ou hepática
Tumores
Mal absorção
Dentição
inadequada
Pontas de dentes nos molares
Perda de dentes
Incapacidade para mastigação
Manutenção dentária regular
Dieta
Tumor Pituitária/tireóide Incapacidade para suportar verão/inverno
Infeções virais recorrentes
Laminite
Aumento ingestão de água e micção
Perda de peso excessiva (pituitária)
Ganho de peso excessivo (tireóide)
Manejo
Dieta
Vacinação
Acesso a água
Falência Renal/Hepática Perda de peso
Letargia
Perda de apetite
Micção freqüente ou dificultada
Dieta
Suplementos
Pêlos brancos ao redor das orelhas, olhos e cabeça Isto não é problema, apenas um sinal da idade 

 


Tabela 2
Manejo nutricional das condições associadas com envelhecimento dos cavalos

Condição
Características da Dieta Recomendada
Alimentos/Suplementos
Perda de peso não relacionada com falência hepática ou renal 12 a 14% proteína
7 a 10% de gordura
Alta digestibilidade
Fácil mastigação
Feno misto gramínea/leguminosa
Alimentos peletizados ou extruzados
Pasto de boa qualidade + 50 ml de óleo vegetal por dia
Farelo de soja
Dentição Inadequada Fácil mastigação “Sopas” de alimentos peletizados ou extruzados
Feno triturado
Tumor Pituitária/Tireóide Redução de amido
Fibra de alta digestibilidade
Suplementação de Vitamina C
Alimentos peletizados ou extrusados
Feno de boa qualidade ou pastejo
5 mg de Vitamina C por dia
Falência Renal Restringir:
   Cálcio
   Proteína
   Fósforo
Feno de gramínea
Milho
Rações formuladas para manutenção de cavalos adultos
Falência Hepática Restringir proteína
Aumentar amido
Aumentar vitaminas complexo B
Aumentar Vitamina C
Feno de gramíneas, milho
Alimentos doces
Suplemento de Complexo B
10 mg de vitamina C por dia

 

Alexandre Augusto de Oliveira Gobesso
Departamento de Nutrição e Produção Animal
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP
Pirassununga – SP

Fonte:

 http://www.endurancebrasil.com.br/port/tecnicas/cavalosidosos.php