Reprodutivo

Quando iniciar?

A dúvida de quando iniciar a reprodução das fêmeas é quase uma constante nos proprietários e técnicos. Esta questão se justifica pelo fato de que uma fêmea que chega ao parto sem as condições ideais é séria candidata a problemas no parto e/ou reprodutivos no futuro. Com a diversidade de esquemas de criação e manejo encontrados no Brasil, não é possível para uma determinada raça, padronizar a idade ideal para iniciar a reprodução das fêmeas. Isto porque, em determinadas situações, a idade será muito inferior a outras. Nas propriedades, onde principalmente o aspecto nutricional não é adequado, a idade para se iniciar a reprodução é maior.

Neste caso, qual o parâmetro a ser adotado? Para muitos se pode definir um peso ideal para iniciar a reprodução das fêmeas de cada raça. Assim, elimina-se em parte a diferença entre os esquemas de criação, e os animais serão cobertos ou inseminados com um determinado peso, considerado ideal para cada raça. É o que fazem a maioria dos produtores de gado de corte do País. Este esquema porém, está sujeito a erros, veja por que razão.

O problema de se cobrir os animais cedo demais reside no fato de que, caso isto ocorra, haverá problemas de parto ou após este evento. Os problemas relacionados à cobertura precoce de uma fêmea se manifestariam durante e após a parição.

O problema então está no peso ao parto. Animais que chegam ao parto num tamanho pequeno ou sem condição corporal adequada podem ter problemas ao parto, maior incidência de distocias, retenção de placenta e outros distúrbios. Além disto, experimentam baixa de escore corporal mais acentuada no pós-parto, o que predispõe ao anestro e demora no retorno à atividade reprodutiva. Um agravante é que estes animais também não têm condições para produção adequada de leite, prejudicando a cria. Como visto, um verdadeiro desastre à criação.

Porém, erra quem acredita que ao padronizar somente o peso como característica para selecionar os animais para iniciar a reprodução, a questão de peso ao parto estará resolvida. Vamos considerar duas propriedades A e B, que possuem plantéis com a mesma constituição genética (raça). Considerando apenas o peso à cobertura, ambas deveriam iniciar a reprodução quando as novilhas atingirem um mesmo peso. Consideremos que para a raça em questão, o peso à cobertura fixado foi de 300 kg. Na fazenda A, que possui bom manejo e boas condições de pastagem, as fêmeas depois de cobertas têm condições de continuar ganhando peso, que nas condições da propriedade é de 0,6 kg/dia, durante toda a gestação. Se considerarmos 290 dias de gestação, as fêmeas da propriedade A vão ganhar 174 kg no período de gestação e vão parir em média com 474 kg (300 + 174). Na propriedade B, que possui animais da mesma raça, as fêmeas são cobertas com o mesmo peso (300kg). Nesta propriedade porém, as pastagens e as condições de manejo não são tão boas, permitindo às fêmeas durante a gestação um ganho médio diário de apenas 0,3kg/dia. Neste rebanho (B) o ganho durante o período gestacional será de apenas 87 kg (290 dias x 0,3kg). Neste caso as novilhas vão parir em média com apenas 387 kg. As fazendas que possuem mesma raça, cobriram os animais com um mesmo peso, terão agora resultados bem diferentes. Enquanto na Fazenda A os animais vão parir com um peso esperado (450 kg), na Fazenda B o peso será bem menor, e as fêmeas estarão sujeitas aos problemas citados acima.

Assim, fica claro que é importante o peso ao parto. O peso para o início da reprodução vai depender da estimativa de ganho de peso das fêmeas durante a gestação, que é variável, dependendo das condições da propriedade.

Avaliação do escore

A avaliação do escore da condição corporal (ECC) embora seja um método subjetivo, é de fácil e rápida aplicação, além de barato, e um excelente auxiliar no manejo nutricional e reprodutivo dos rebanhos. Na vaca de corte, a condição corporal é um indicador da quantidade de reservas de energia armazenada, que poderá ser mobilizada para processos fisiológicos de maior demanda, como por exemplo, a lactação. O escore da condição corporal varia ao longo dos diferentes períodos da vida reprodutiva da fêmea.

Os técnicos e produtores devem avaliar periodicamente a condição corporal de suas vacas e novilhas, para que possam fazer os ajustes necessários na alimentação e nas práticas de manejo. Reservas orgânicas adequadas são necessárias para manter a saúde, a produção e a eficiência reprodutiva. Vacas com menor condicionamento têm tendência a uma produção reduzida e menor vida útil. O escore da condição corporal das vacas é um instrumento essencial de manejo. Seu conceito pode ser assimilado com um pouco de treino e boa capacidade de observação, usando a visão e o tato na avaliação de cada vaca.

Atenção especial deve ser dada às novilhas, que ao parirem se tornarão primíparas (vaca de primeira cria), a categoria mais problemática do sistema de produção. Ocorre que a vaca de primeira cria possui requerimento nutricional superior (Figura 1 – veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF) às fêmeas mais velhas por ainda estar aumentando sua massa corporal. Além disto estão mais sujeitas a estresse e problemas de parto e geralmente levam desvantagem quando existe competição alimentar. Deve-se destinar a esta categoria animal as melhores pastagens e, se necessário, proceder a suplementação a fim de se evitar atraso no estabelecimento da próxima gestação.

Procedimentos

Além dos cuidados nutricionais, algumas práticas de manejo podem auxiliar sobremaneira na eficiência reprodutiva das fêmeas, principalmente as de 1ª cria, são elas:

Estação de monta

O objetivo principal da estação de monta é aumentar a eficiência reprodutiva. O segredo desta condição está na palavra SINCRONISMO. O que a estação de monta pretende é sincronizar o período de maior requerimento nutricional das vacas, que é o período de lactação, com a época do ano de maior disponibilidade de forragens. Os outros objetivos são secundários. Quem trabalha com estação de monta e não consegue performance reprodutiva do plantel superior ao esquema de monta de “ano inteiro”, está atuando de forma não adequada. As principais vantagens da utilização desta forma de manejo são:

Para que se trabalhe em regime de estação, as atividades devem ser concentradas ao máximo possível nas condições da propriedade. Nas condições do Brasil este período varia entre 90 e 150 dias. É muito difícil se conseguir uma boa taxa de gestação com períodos inferiores e em períodos superiores as atividades não estarão tão concentradas e a premissa básica de sincronismo não seria possível para todos os animais, considerando o período de lactação das vacas.

Manejo das crias

A maioria das espécies domésticas apresenta uma fase de anestro fisiológico após o parto. A duração desta fase assim como a intensidade de ocorrência (total ou parcial) durante a lactação é variável entre as espécies. Num grau de intensidade decrescente podemos citar a porca, a vaca, a ovelha e a cabra. É um mecanismo de defesa da própria espécie para não sobrecarregar a mãe com exigências nutricionais de lactação e gestação, simultaneamente, além de permitir a involução adequada do genital.

Além de uma característica de espécie, a duração do anestro lactacional ou pós-parto está intimamente relacionado com o aspecto nutricional e com a freqüência de estímulos provocados pela cria. Quanto maior a relação entre cria e mãe, maior será o bloqueio exercido sobre o retorno à atividade reprodutiva. O esquema de apartação deve ocorrer de forma a não prejudicar o desenvolvimento da cria. Atualmente existem vários protocolos de eficiência comprovada. Cabe ao técnico e ao produtor optar pelo que melhor convém ao sistema de produção em questão.

Presença do touro ou rufião

Independente do sistema de manejo empregado, a presença do macho junto às fêmeas é sempre benéfica à reprodução destas últimas. Mesmo em plantéis que utilizam somente à inseminação artificial, pode-se explorar esta alternativa de manejo, com a presença do rufião.

A presença dos machos é benéfica nos seguintes aspectos:

• Acelera a idade da puberdade nas novilhas;
• Acelera o retorno à atividade reprodutiva pós-parto;
• Induz à manifestação de cios mais longos;
• Provoca sinais de cio mais evidentes;
• Melhora a fertilidade de programas de Inseminação Artificial.

Não se sabe exatamente o mecanismo pelo qual a presença do macho influencia de forma tão marcante a reprodução das fêmeas. Acredita-se porém, que existam “ferormônios” que são substâncias produzidas e exaladas pelos machos percebidas pelas fêmeas, exercendo influência na fisiologia dos órgãos reprodutivos destas.

Considerações finais

A determinação da idade ou peso para se iniciar a reprodução das fêmeas não deve ser padronizada. As condições da propriedade devem ser consideradas, pois muito pode ocorrer no período que vai da concepção ao parto (gestação) e influenciar no peso ao parto, característica esta que pode ser padronizada em uma determinada raça.

A nutrição exerce grande influência em qualquer atividade relacionada à reprodução de bovinos. Os aspectos nutricionais são importantes em todos os períodos da vida das matrizes e reprodutores, porém em ocasiões específicas são mais importantes, influenciando, de forma mais determinante, os índices reprodutivos.

Carlos Antônio de C. Fernandes
Biotran / Unifenas

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=221