Pecuária

Produzir leite não é tarefa fácil, a começar pela alimentação da vaca

Apesar de nunca  ter sido um produtor de leite sinto-me à vontade para tocar neste assunto, já que a Ciência da Produção Leiteira me ocupa desde os tempos de acadêmico de Agronomia, há mais de quarenta anos. Naquela época uma vaca de 30 litros era algo excepcional e não se dispunha de tabelas precisas de alimentação e de composição de alimentos e muitos dos insumos hoje disponíveis ainda nem existiam. Uma dieta balanceada para vaca em lactação era algo restrito à pesquisa  e a algum produtor privilegiado que dispunha de alguma “fórmula” graças a bons contatos.

Hoje em dia, vacas produzindo até mais de 40 litros/dia no pico da lactação é coisa comum e apesar  de todos os avanços na nutrição animal, da disponibilidade de tabelas de alimentação (NRC), de resultados de laboratórios de análises, de programas de computador para cálculo de rações, etc., a prática da alimentação segue sendo algo muito empírico, baseada no “olhometro”.

Ora, manejar “a olho” a alimentação, o fator mais importante do custo de produção de leite (no mínimo, responsável por 50% desse custo), não é o melhor caminho para evitar o desperdício, baixar custos e garantir o necessário lucro e sustentabilidade da atividade leiteira.

Quando certas empresas de insumos dietéticos, na melhor das intenções, oferecem graciosamente formulações de dietas, detalhando os teores dos vários nutrientes (% de proteína, % NDT, minerais, vitaminas, aditivos, etc.) e sugerem a quantidade aproximada de concentrados a oferecer para as diferentes fases da lactação e categorias de animais (incluindo obviamente os seus produtos), a receita, na maioria dos casos, ainda é incompleta. Quer dizer, não adianta dispor de uma “ração” formulada por computador, com ingredientes analisados em laboratório, se na prática não se souber quanto a vaca está comendo de alimento volumoso e a qualidade bromatológica deste (teor de energia, proteína, fibra, etc. na matéria seca).

A informação sobre a quantidade de alimento que o animal está comendo é o primeiro passo para balancear uma dieta, e isso não é tão simples assim, especialmente com animais em pastejo. Com o fornecimento do volumoso no cocho a coisa fica mais fácil, pois o mesmo pode ser pesado com uma balança, porém também é preciso calcular o que efetivamente é consumido, pela diferença de peso entre o que é oferecido aos animais e as respectivas sobras.  E para isto também é necessário conhecer o teor dematéria seca (MS) dos componentes da dieta  oferecida e das sobras, pois há grande variação no teor de água dos diferentes alimentos. Em comparação, o arraçoamento de  suínos e aves é bem mais simples pois os alimentos são basicamente milho em grão e farelo de soja, e as diferentes formulações são geralmente oferecidas à vontade.

Não existe ainda uma receita definitiva de como medir o consumo de MS do animal no pasto e os métodos adotados nas pesquisas são muito complexos para a prática. Na Nova Zelândia já existe em uso uma técnica muito prática, porém sofisticada, onde o sujeito percorre a pastagem de quadriciclo e através de um dispositivo com GPS é estimada na hora a quantidade de pasto que está disponível, o que a cada troca de piquete permite ajustar a taxa de lotação (animais por hectare). É uma sofisticação em condições onde é oferecida  pastagem de ótima qualidade, sem suplementação no cocho. Para o nosso produtor (dirijo-me, aqui, especialmente aos produtores de leite da Região Sul do Brasil) isto ainda está um muito distante, razão pela qual temos que estar com os pés no chão e encarar a nossa realidade, que é muito diferente.

Uma possibilidade de se estimar o consumo a pasto seria um cálculo por diferença, partindo-se do potencial teórico de consumo da vaca (Tabela do NRC de 1989, ou a equação do NRC de 2001, em anexo). Por exemplo, usando o modo mais simples, pela tabela, o potencial de consumo de uma vaca de 500 kg, produzindo 25 kg de leite com 3,4% de gordura seria estimado da seguinte maneira. Primeiro, corrige-se a produção de leite para 4% de gordura (LCG 4%), aplicando-se a fórmula indicada, o que no caso dessa vaca dá: 0,4 x  25 kg/dia + 15 x  0,85 kg de gordura  (de 3,4% x 25 kg) = 10 + 12,75 = 22,75 kg de LCG (4%). Isto significa que 25 kg de leite com 3,4% de gordura se equivalem a 22,75 kg de leite com 4% de gordura.

Em seguida, com este valor de 22,75 vai-se à Tabela, no cruzamento da coluna de 500 kg de peso vivo com o espaço entre as linhas 20 e 25 kg LCG, onde, por interpolação, vê-se que o potencial de consumo de MS dessa vaca se situa entre 3,2% e 3,5% do seu peso, aproximadamente uns 17 kg de MS.

Assim, se a vaca em questão recebesse no cocho 7 kg de MS de concentrado,   (duas refeições de 4 kg de concentrado in natura) e 5 kg de MS de silagem de milho (uns 15 kg de silagem in natura), no pasto ela ainda teria a capacidade de consumir mais 5 kg de MS (equivalente a uns 25 kg de pasto fresco), fechando o total de 17 kg de MS. Entretanto, se essa vaca não dispor desta oferta de alimento, ela   não alcançará a produção de 25 kg, ou até poderá chegar perto, porém perderá peso de modo a comprometer a sua saúde.

O leite produzido com oferta abundante de pastagem mista de aveia preta e azevém certamente resultaria num custo menor que o da dieta acima. Todavia, também é preciso considerar que o pastejo não é uma tarefa fácil para a vaca.


Quanto pasto a vaca colhe numa bocada?

Em primeiro lugar, para uma vaca conseguir pastar, digamos,  11 kg MS, como no exemplo do Quadro 1, a oferta de pasto deve ser, no mínimo, tres vezes maior, ou seja de uns 33 kg de MS,  mais ou menos uns 150 kg de pasto verde. Isto significa que a vaca procura selecionar as melhores partes do pasto e esta oportunidade lhe deve ser concedida, embora isto implique num certo desperdício de pasto, além daquele rejeitado por contaminação com dejetos  e  por pisoteio.

O pastejo demanda tempo e um considerável esforço da vaca. No exemplo do quadro vê-se que a vaca precisaria de mais de nove horas para colher 11 kg de MS de pasto, realizando mais de 22.000 bocadas! Em cada bocada a vaca colhe em média, apenas, meio grama de MS de pasto, e isto é um valor muito próximo da realidade.

A gente precisa mesmo de uma grande dose de imaginação para procurar entender o esforço diário de uma vaca no pasto, pois dificilmente uma vaca realiza mais de 8 horas de pastejo. Há quem diga que as vacas são bichos “sindicalizados” e que o “Sindicato das Vacas” não permite mais de 8 horas de pastejo, pois num turno de 24 horas, além do pastejo, 8 horas devem ser dedicadas para a ruminação e 8 horas para o descanso da vaca.

Além do esforço de pastejo, a vaca gasta energia caminhando do piquete à sala de ordenha e vice-versa, no mínimo duas vezes ao dia, e muitas vezes este percurso  é num corredor com um piso pouco apropriado para uma vaca de mais de 500 kg, sustentando um ubre cheio, e geralmente sendo forçada a acelerar o passo. Além disso, tem as caminhadas durante os períodos de pastejo em piquetes nem sempre planos e as e idas e vindas a pontos de  água e de sombra, as vezes também distantes.  Em suma, esta energia perdida deixa de ser transformada em leite, o que é um custo que também precisa ser considerado (Quadro 2).

Portanto, percebe-se que também para a vaca não existe “almoço de graça”, nada cai do céu e tudo tem o seu custo.

Este pequeno exercício mostra mais uma vez como é fundamental o tal de gerenciamento, pois foram necessários dados básicos, sem os quais não se consegue  estimar o que a vaca deve comer para garantir uma determinada produção de leite. Além do controle da produção de leite, precisa-se conhecer o teor de gordura do leite, o peso da vaca (e condição corporal) e os pesos das quantidades de alimento oferecidas no cocho e de suas eventuais sobras. Fundamental também é o conhecimento dos  teores de MS dos diferentes alimentos, que é uma determinação que sempre é feita quando se encaminha uma amostra de alimento para análise num laboratório.

O monitoramento do consumo, ajustando a dieta para as diferentes categorias de animais do plantel, deveria ser feito periodicamente, toda a vez que houvesse uma mudança na alimentação de cada animal, ou de lotes de animais (vaca seca, pré-parto, início da lactação, pico da lactação, meio e fim da lactação, novilhas, bezerras, etc.)

Então, se o produtor puder apresentar estas informações para um técnico competente fica mais fácil para este calcular uma dieta mais balanceada, que é mais eficiente, evita o desperdício e otimiza os ganhos.

Portanto, a alimentação racional do gado leiteiro exige estes cuidados e uma certa dedicação e paciência no levantamento das informações que se fazem necessárias, mas também não é nenhum “bicho de sete cabeças”. Para a tranquilidade do produtor, posso adiantar que  é possível até uma estimativa “caseira” do teor de MS dos alimentos, como através da “técnica do forno de microondas” (Souza, et al., 2002).

SOUZA, G.B.de; NOGUEIRA, A.R.A; RASSINI, J.B. Determinação de matéria seca e umidade em solos e plantas com forno de microondas doméstico. São Carlos: Embrapa Pecuária Sudeste, 2002. (Embrapa Pecuária Sudeste, Circular Técnica, 33)

Fonte: http://www.agrolink.com.br/saudeanimal/artigo/produzir-leite-nao-e-tarefa-facil–a-comecar-pela-alimentacao-da-vaca_119776.html