Trigo

Produção de trigo recorde no Cerrado

A área cultivada de trigo no Cerrado de Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Bahia e Mato Grosso aumentou, este ano, 25% em relação à safra passada. Um dos motivos dessa expansão foi que os produtores conseguiram, na época do plantio, firmar contratos com os moinhos para comercializar a saca de trigo por R$ 42, valor bem acima dos R$ 32,40 estipulados pelo Ministério da Agricultura como o preço mínimo  para o trigo da Região Centro-Oeste.

O trigo irrigado, nesta safra, ocupa em torno de 60 mil hectares de Cerrado do Brasil central, o que vai possibilitar uma produção recorde na região. Em 2008, as condições climáticas durante o ciclo da cultura favoreceram a qualidade dos grãos e a produtividade das lavouras. Agora, a atenção dos triticultores está totalmente voltada para a colheita do grão. Os trabalhos tiveram início no final de agosto e se estendem até o final deste mês.

Para todo o Brasil, é esperada nesta safra de 2008 e 2009 uma colheita recorde de trigo, cerca de 5,4 milhões de toneladas, 42,2% a mais que o produzido na última safra, quando 3,8 milhões de toneladas foram colhidos nas lavouras de todo o País. A maior parte da produção, 90%, se localiza na Região Sul, principalmente no Paraná, estado que responde por quase metade de toda a área plantada no Brasil.

De acordo com dados da COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO (CONAB), a área de plantio brasileira apresentou um aumento de 31,4% e o rendimento nacional deve ser de 2,27% toneladas por hectare. No Centro-Oeste, a produção está estimada em 170,6 mil toneladas para a safra de 2008/2009. Porém, mesmo com a evolução, essa produção corresponde a somente 6% do total, com área cultivada de 66 mil hectares.

Insuficiente

Mesmo com o forte aumento na produção nacional e grandes expectativas de colheita, a alta nessa safra ainda não será suficiente para suprir a demanda pelo trigo, que se mantém em aproximadamente dez milhões de toneladas por ano, o que transforma o Brasil no segundo maior importador do grão no mundo. Com isso, a retomada da comercialização com a Argentina, maior provedor de trigo para o mercado brasileiro, e a perspectiva da elevação da safra resultaram em uma forte pressão sobre a comercialização das sacas de trigo. Já no começo da colheita dessa safra, as cotações registram valores abaixo do preço mínimo estipulado pelo governo. Desde maio desse ano, o preço acumula queda de 27%.

Segundo o CONAB, as perspectivas de preços não são favoráveis aos produtores para o período 2008/2009, mas os consumidores terão preços mais acessíveis dos derivados desse produto alimentar básico. No Centro-Oeste, os triticultores que conseguiram, na época do plantio, firmar contratos com os moinhos para comercializar a saca de trigo por R$ 42, não enfrentam problemas. Por outro lado, produtores que não fecharam contrato sentem dificuldades.

As cultivares BRS 264 e BRS 254 são lançamentos no sistema de cultivo irrigado e apostas dos triticultores do Cerrado. Já no cultivo de sequeiro, as variedades Aliança, BRS 18 e BRS 201 são as mais utilizadas nas plantações do Centro-Oeste. Porém, segundo especialistas, esses tipos de variedade têm características mais rústicas e, portanto, mais vulneráveis. Dentre as vantagens da produção de trigo no Cerrado, a alta luminosidade é um fator importante.

Levando em consideração que a cultura de trigo é originada do Mediterrâneo, a boa produção desse tipo de grão precisa ser em locais com dias bastante ensolarados. O clima seco também favorece para a qualidade do produto, já que é possível controlar a utilização da água, além das doenças que podem ser melhor manejadas e controladas. Outro destaque no cultivo da região é a grande concentração de glúten encontrado nas cultivares colhidas.

Produtividade está acima da média

Ronaldo Triacca planta todos os tipos de grãos em 600 hectares de terra, localizada na BR-251. Além de soja, milho, feijão e sorgo, a Fazenda Triacca produz neste ano, 40 hectares de trigo. Todos que apostaram no trigo alcançaram produtividade acima da média nacional. A situação da Fazenda Triacca não é diferente. Até esta semana, 50% da área já foram colhidas e a produtividade média está em 110 sacas por hectare ou 6.612 kg/ha. Mas o resultado não pode ser comparado com o ano passado porque não foi plantado trigo e sim feijão. “Plantamos trigo desde 1990, mas não todos os anos, pois temos outras culturas para plantar no inverno”, revelou Triacca.

As variedades cultivadas nesta safra foram o BR 264 e o BR 254, ambas da Embrapa, altamente produtivas e de ótima qualidade para farinha. Quanto ao sistema de produção, Triacca utiliza o pivô central como equipamento de irrigação. “É necessário que se tenha um equipamento de irrigação bem dimensionado e calibrado, para que não haja desperdício de água”, aponta.

Além disso, no cultivo, são realizadas pulverizações com fungicidas preventivamente para controle de doenças, e é utilizada a técnica plantio direto, que além de reduzir a demanda de água pela planta, tem uma série de benefícios para o meio ambiente como por exemplo a redução de emissão de CO². “Vejo a cultura do trigo como ótima opção para descontaminação do solo, como rotação de cultura, principalmente por

ser uma gramínea. Se nós produtores do Cerrado avaliarmos todas as variantes, iremos aumentar gradativamente nossas áreas de trigo nos próximos anos”, orienta.

Cultivares

O produtor Neri Colpo, da Fazenda São Miguel, em Cabeceira (GO), está colhendo, em média, 107 sacos por hectare da BRS 254. Silvio Ribas, da Fazenda Sossego, triticultor do município de São João da Aliança (GO), conseguiu bater recorde nacional de produtividade de trigo com a marca de 126,8 sacos por hectare da nova cultivar BRS 264, com um ciclo total da cultura de 113 dias. A elevada produtividade obtida pelos produtores dos municípios goianos e do Distrito Federal, muito acima da média de cinco toneladas por hectare da região, também serve de incentivo para que outros triticultores passem a plantar as novas cultivares.

A BRS 254, proveniente do cruzamento da Embrapa 22 com a cultivar Anahuac, possui alta força de glúten e alta estabilidade, características que os moinhos exigem para a panificação, e um potencial de produtividade de seis toneladas por hectare. A BRS 264, do cruzamento das cultivares Buckbuck, Chiroca e Tui, é um material com potencial de produtividade de sete toneladas por hectare, boa qualidade industrial e precoce. O ciclo da emergência à maturação da BRS 264 chega a ser 15 dias menor comparado com outras variedades.

Solução para o déficit hídrico da região

Com o objetivo de aproximar as técnicas do plantio sob irrigação e os baixos custos de produção que o cultivo sequeiro permite, os pesquisadores da Embrapa Walter Quadros Ribeiro Jr. e Ana Christina Sagebin Albuquerque desenvolveram uma pesquisa que analisa e busca soluções para a produção do grão em locais secos, incrementando materiais e cultivares com tolerância a ambientes com déficit hídrico.

“A pesquisa contribui para o desenvolvimento de tecnologias que irão permitir a utilização sustentável em áreas como o Cerrado para a produção de trigo”, afirma Ana Christina Albuquerque. De acordo com a pesquisa, o plantio de trigo realizado pelo cultivo em sequeiro, que também corresponde a época da safrinha, plantado no final do período chuvoso (final de fevereiro) praticamente desapareceu, devido, entre outros motivos, à ocorrência de veranicos e falta de chuvas no período de enchimento de grãos, o que dificulta a competição com outras culturas como feijão, milho e sorgo.

Assim o trigo safrinha tornou-se um cultivo de risco. A produtividade nesse tipo de sistema corresponde somente a duas toneladas do restante obtido no Cerrado. Para os pesquisadores, a obtenção de cultivares tolerantes à seca e calor diminuiria

estes riscos, motivando o produtor a investir mais no seu cultivo.

O estudo envolveu aproximadamente 210 tipos de genes. Os que obtiveram os melhores resultados foram fenotipados em plantio de inverno, onde a temperatura é mais amena e se busca isolar o fator seca. Nesta fenotipagem, em que se utilizou vários níveis de irrigação, foram identificados três tipos de genes em que mantiveram produtividade de duas a três toneladas por hectare nos ambientes sob estresse hídrico, enquanto que os genes sensíveis à seca reduziram sua produção para cerca de 500 kg. Alguns estudos na Embrapa, ainda em andamento, têm permitido identificar possíveis mecanismos de tolerância ao estresse hídrico em trigo como, profundidade das raízes, cerosidade e controle de perda de água nas folhas.

 

Fonte: http://www.noticiasdocampo.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=5134