Pecuária

Produção de leite e bezerro comercial com vacas F1 holandês-zebu

Introdução

Embora ainda em patamares tecnológicos que preocupam, a produção brasileira de leite posiciona-se como uma das mais importantes, pelo volume produzido, ocupando a sexta colocação no ranking mundial com cerca de 21 bilhões de litros anualmente. A atividade tem grande importância também no contexto econômico e social para o país, não só pelos valores nutricionais, mas, também nos aspectos de geração de emprego e renda. Os sistemas de produção de leite são diversificados nas diversas regiões brasileiras tanto no que se refere ao nível de tecnologia empregada, quanto nos aspectos gerenciais. A questão gerencial é tão importante para a sustentabilidade do negócio quanto os aspectos tecnológicos, considerando-se a nova ordem econômica. Segundo Vilela (2003), o rebanho brasileiro é, composto por 6% de vacas de raças especializadas, que produzem em média, 4.500 kg de leite/lactação, 74% de vacas mestiças com produção média de 1.100 kg/lactação e 20% de vacas sem qualquer especialização, com produção média de 600 kg/lactação.

Em Minas Gerais, estado com maior tradição na produção de leite, estima-se que 25% do rebanho seja de vacas de leite, que possuem as mesmas qualificações do rebanho nacional, particularmente no que se refere à composição racial. Independente das características do rebanho, a pecuária leiteira tem, no Estado, importância econômico-social relevante. O leite é produzido comercialmente em todos os municípios mineiros, sendo a maior parte da produção feita a partir de vacas mestiças. Assim, sistemas mais competitivos de produção de leite, baseados em animais mestiços sob condições de pastagens, têm sido avaliados como alternativas adequadas para as regiões com limitações.

Reorganização do rebanho leiteiro

Com o objetivo de estabelecer sistemas mais eficientes de produção e privilegiar a rentabilidade, principal norte de qualquer negócio, a EPAMIG vem implementando, desde 1997, nas suas Fazendas Experimentais, o programa Organização e Gestão da Pecuária Bovina. O esquema representativo da organização do rebanho da EPAMIG pode ser visto na Figura 1.

Figura 1 – Cadeia Produtiva do Leite (simplificada) e organização e composição estrutural básica do rebanho

Os rebanhos foram organizados por atividades específicas. O rebanho Núcleo, constituído de animais zebuínos, é responsável pela produção de fêmeas para a reposição do próprio plantel e para serem comercializadas para o rebanho Multiplicador. No rebanho Núcleo são desenvolvidos trabalhos de melhoramento genético e seleção.

A função do rebanho Multiplicador, constituído de fêmeas zebuínas, oriundas do rebanho Núcleo, é produzir fêmeas meio-sangue (F1), através da utilização de sêmen de touros provados da raça holandesa, para abastecer os rebanhos comerciais produtores de leite. O cruzamento de touros Zebus com vacas holandesas (cruzamento recíproco), também para produzir fêmeas F1, vem sendo praticado. A especialização em produção de novilhas, uma estratégia já adotada em outros locais, inclusive em rebanhos constituídos de gado especializado, é percebida como uma importante ferramenta de gerenciamento.

O rebanho Comercial, cuja função primordial é produzir leite, é constituído de fêmeas F1, oriundas do rebanho Multiplicador, cobertas ou inseminadas com sêmen de touros terminadores zebuínos, para a produção de bezerros e bezerras terminais, que são destinados a comercialização. O programa Organização e Gestão da Pecuária Bovina não propõe tirar leite de filhas de touros de corte. Boi de corte em vaca de leite, longe de ser uma aventura, é uma estratégia de gerenciamento, capaz de proporcionar aumento da renda da propriedade. Em algumas regiões estes rebanhos poderão produzir animais destinados a reposição de outros planteis leiteiros, podendo ser ¾ Holandês-Zebu ou ¾ Zebu-Holandês. “A comercialização dos bezerros e das bezerras à desmama, abre espaço para ampliar o plantel de vacas e, conseqüentemente, o crescimento tanto na produção de leite quanto na produção de bezerros”. A estratégia da reposição contínua com fêmeas F1 produzidas em rebanhos especializados em novilhas, possibilita a constituição de rebanhos leiteiros homogêneos, compostos de vacas de um único tipo genético, procedimento que facilita o gerenciamento que é traduzido em benefícios produtivos e econômicos.

Trabalhos de pesquisa demonstram maior eficiência do genótipo F1, quando comparado com suas descendentes, independentemente se filhas de touros zebuínos ou touros da raça holandesa, muito embora se saiba que animais com maior fração de sangue da raça holandesa têm maior potencial produtivo (volume de leite). Para esses animais expressarem seu potencial, é necessário oferecer condições adequadas. Por outro lado, sob a ótica da eficiência (não é apenas produtividade), como têm demonstrado resultados de pesquisa, a melhor fêmea de reposição de uma vaca F1, é outra F1. Esse entendimento e a oferta de novilhas produzidas em rebanhos, fazendas multiplicadoras ou retiros especializados, propicia, ao produtor de leite, independência e flexibilidade quanto a raça do touro a ser utilizado para cobrir as vacas leiteiras. O norte precisa ser sempre a lucratividade.

Produção de animais F1 – A fase de cria

O cruzamento entre duas raças, gera um produto com 50% de composição genética de origem paterna e 50% de composição genética de origem materna que são denominados animais F1. Quando se utilizam duas raças originadas de sub-espécies diferentes (bos taurus taurus x bos taurus indicus) obtem-se um produto (F1) com máxima heterose. Este tipo de cruzamento já é bastante difundido. Na pecuária de corte é utilizado em cruzamento chamado de industrial ou terminal e na pecuária de leite é uma tecnologia emergente praticada por um número cada vez maior de produtores, na busca de animais mais adaptados a exploração leiteira em regime de pastagens.

A produção de fêmeas F1 para a exploração leiteira normalmente é feita a partir de matrizes zebuínas acasaladas com touros holandeses. As raças zebuínas mais utilizadas são Gir, Guzerá e Indubrasil, visto que esses animais apresentam características leiteiras e são mais dóceis. Matrizes azebuadas, ou seja, aquelas com características raciais não definidas, mas com 100% de sangue zebu também são utilizadas. Para filhas provenientes de matrizes da raça Nelore, há uma rejeição do mercado, temendo um comportamento mais bravio e menor produção de leite. Mas pesquisas estão sendo realizadas na EPAMIG com este genótipo para que no futuro seja possível caracterizar a produção e o comportamento deste animal. Outra linha de pesquisa que está sendo desenvolvida é a produção de uma fêmea oriunda do cruzamento de vacas nelore com touros gir. Esta fêmea, é 100% zebuína, será utilizada no cruzamento com touro holandês para produção de animais F1. Esta estratégia visa aumentar a disponibilidade de matrizes F1 para a produção de leite. A produção desses animais deve ser feita utilizando-se inseminação artificial, com touros da raça holandesa provados para produção de leite. A monta natural pode ser utilizada, mas tem o inconveniente de não utilizar touro provado, bem como sofrer os efeitos do clima tropical sobre eficiência deste touro. Outra alternativa é a produção a partir de vacas da raça holandesa cruzadas com touros de raças zebuínas provados para leite.

Biotecnologias como transferências de embriões (TE) e fertilização “in vitro” são alternativas potenciais, mas são processos que têm ainda custo de produção elevado. Entretanto se a TE e a fertilização “in vitro” ficarem competitivas serão ótimos caminhos para aumentar a oferta de animais F1.

A fase do nascimento à desmama, denominada de cria, para os animais F1, é feita normalmente a pasto, onde as crias são mantidas com as mães, amamentando-se “ad libitum”. Esta prática é suficiente para proporcionar bom desempenho destes até a desmama. Na tabela 1 são mostrados os pesos de fêmeas F1 desmamadas e submetidas ao manejo acima descrito:

TABELA 1 – Peso após a desmama de fêmeas F1 oriundas de diferentes cruzamentos

Fase de recria – crescimento

A idade à puberdade é uma característica que depende diretamente da nutrição. De acordo com WILTBANK et al. (1966) e WILTBANK (1973), um nível nutricional adequado ao potencial de desenvolvimento do animal pode contribuir para diminuir a idade ao primeiro estro. Este conceito pode ser aplicado a todos os grupos genéticos de bovinos, embora eles respondam de forma diferente à suplementação alimentar. O tamanho do animal, no qual a puberdade é alcançada, é determinado geneticamente, mas a subnutrição aumenta a idade à puberdade (JOUBERT, 1963).

A ocorrência de ganho compensatório, após períodos de restrição alimentar, é um fato comprovado, mas efeitos negativos da restrição alimentar são observados em animais em desenvolvimento (antes da puberdade) e em animais no terço final da gestação. O desenvolvimento limitado, durante a fase de recria até o primeiro parto geralmente, conduz a transtornos de performance produtiva e reprodutiva. O tecido responsável pela secreção do leite desenvolve-se em duas fases: antes da puberdade e durante o terço final da gestação. Durante esses dois estágios, tanto os crescimentos excessivos, quanto o restrito produz efeito negativo sobre potencial de produção de leite. Se por um lado o crescimento exacerbado antes da puberdade pode reduzir a taxa de fertilidade, por outro lado, o baixo desenvolvimento pode retardar a puberdade e, conseqüentemente, o primeiro parto; podendo também provocar dificuldades na parição e uma performance deficiente na primeira lactação. Após a puberdade, a taxa de crescimento deve ter um ritmo que permita às novilhas atingirem ao primeiro parto 85 % do peso adulto, pois, de acordo com dados de WATTIAUX (1996), quanto mais próximo do peso adulto a novilha atingir ao parto, maior será a produção de leite durante a primeira lactação, menor o risco de complicações ao parto e menor o período de serviço.

O caminho para obter bom desenvolvimento da desmama até a primeira cobrição seria a utilização da cria em regime de pasto e com suplementação estratégica durante esta fase, mas sempre observando o custo. Além disso, a utilização de suplementos que limitam o seu próprio consumo, mesmo deixando à vontade, através de inibidores tais como uréia e sal, e que possa atender deficiências que ocorrem nesta fase, principalmente durante o período da seca. Na tabela 2 estão resultados de fêmeas F1 criadas em regime de pastagens e com suplementação na época da seca.

TABELA – 2. Desempenho de fêmeas¹ F1 suplementadas com proteinado² durante a época da seca

Este genótipo apresenta bom desenvolvimento na época de maior disponibilidade de pastagens, ou seja, na época do verão, quando mantidas somente a pasto ou quando submetida à suplementação. Na tabela 3 estão descritos os dados de desempenho durante o verão.

TABELA 3 – Desempenho de fêmeas¹ F1 a pasto suplementadas com proteinado² durante verão

Esta característica de poder ser criada a pasto sem ou com suplementações com concentrados fornecidos de forma estratégica, poupando o uso de volumoso no cocho, faz com que se tenha uma recria menos onerosa, condição esta, de difícil obtenção em sistemas com fêmeas mais especializadas para produção de leite. Na tabela 4 são mostrados dados de diversas combinações de recria.

Tabela 4 – Desempenho de novilhas F1HZ recriadas em regime de pasto e submetidas a diferentes esquemas de suplementação

Idade e peso à primeira cobrição e taxa de gestação de novilhas F1HxZ.

A partir da puberdade o animal torna-se apto a iniciar a vida reprodutiva. Entretanto, para alcançar elevadas taxas de gestação, as novilhas precisam estar ciclando com regularidade antes da estação de cobrição. Na raça holandesa, a entrada da novilha em reprodução é, geralmente, posterior è puberdade, que, nesta raça, ocorre muito precocemente e a novilha precisa alcançar maior peso. Diferentemente, as novilhas zebus, devido à tardia manifestação do cio da puberdade, são cobertas em algum cio próximo ao da puberdade, quando já exibem idade e peso adequados para iniciarem a reprodução. Idade e peso são, portanto, elementos importantes na definição do melhor momento para a novilha iniciar a atividade reprodutiva. Fêmeas F1 holandês-zebu, devido aos benefícios da heterose, podem alcançar esse status mais cedo e proporcionarem, para a pecuária leiteira, benefícios econômicos.

Carvalho (2005), analisando a performance de novilhas F1, pertencentes a Fazenda Experimental de Felixlândia – Epamig, encontrou que a idade e o peso médio destas à primeira cobrição foram de 22,24 e 24,70 meses e de 360,7 e 376,7 kg para grupos que conceberam na estação seca e chuvosa, respectivamente. A taxa de gestação na estação de monta realizada na época da seca foi 89,4% e a realizada no verão de 93,7 %.

Performance de vacas F1HxZ

O desempenho reprodutivo tem reflexos econômicos significativos sobre a pecuária leiteira. Acréscimos na eficiência reprodutiva podem ser traduzidos por aumento de produção e produtividade. Nesta direção, a produção por intervalo entre partos é mais importante do que a produção total de leite por lactação. Por outro lado, períodos curtos de lactação implicam em menor quantidade de leite produzido e, períodos longos estão, geralmente, associados a uma menor eficiência reprodutiva. O equilíbrio parece estar mesmo, em 305 dias de lactação, situação que permite uma cria por ano, e 60 dias de recuperação/repouso, especialmente da glândula mamária, necessários para o ciclo produtivo subseqüente. A eficiência da produção e reprodução é dependente de fatores de meio e do genótipo do animal. As condições de meio, prevalecentes na faixa tropical, não favorecem a expressão do potencial das raças especializadas e os zebuínos mais adaptados a esse meio não têm o mesmo potencial produtivo. O produto do cruzamento de bovinos de raças especializadas com zebuínos tem sido o caminho utilizado para produção econômica de leite em ambiente tropical. Madalena (1992) informa que no Brasil, o rebanho mestiço é responsável por grande parte da produção leiteira, devido à melhor adaptação desses animais ao meio prevalecente, entretanto, a composição genética do rebanho contempla variados graus de sangue. Madalena (1992) também apontou significativas vantagens de natureza produtiva, reprodutiva e econômica de vacas meio sangue(F1) europeu/zebu. Na tabela 5 são mostrados os dados referentes ao desempenho produtivo e reprodutivo de vacas mestiças em diferentes ordens de parto.

Tabela 5 – Performance produtiva e reprodutiva de vacas F1 Holandês-Zebu

Em geral, as vacas primíparas são menos eficientes do que as multíparas. Não raramente, é permitido as novilhas entrarem em reprodução muito precocemente, antes mesmo de atingirem o completo desenvolvimento. Conciliar desenvolvimento corporal com elevados níveis de produção é um desafio difícil de ser cumprido pela vaca primípara, ainda mais, se somadas as adversidades de meio, características de muitas fazendas leiteiras. Também no genótipo F1HxZ as vacas primíparas mostraram-se menos eficientes em termos de produção de leite e de retorno à atividade reprodutiva do que as vacas multíparas. A maior eficiência registrada em partos subseqüentes ao primeiro é indicativo do potencial das vacas F1HxZ. A eficiência observada ao primeiro parto e/ou à primeira lactação não deve ser o único elemento de decisão, quanto à permanência da vaca no plantel de produção.

É notório que a maioria dos produtores de leite, que trabalham com gado mestiço, tem preferência por vacas Holandês x Gir. A raça Gir vem, há anos, passando por um processo de seleção para produção de leite, tendo a vertente leiteira dessa raça já conquistado status de raça leiteira. Somam-se a esse fato, história e tradição e a preferência fica bem compreensível. Por outro lado, o efetivo de fêmeas da raça gir é de pequena monta, insuficiente para produzir em grande escala animais F1 com a composição Holandês x Gir. O observado crescimento da demanda por vacas F1 HxZ está obrigando a busca de alternativas e, neste contexto, zebuínos de outras raças precisam ser avaliados. Bovinos da raça guzerá, também com pequena representatividade numérica, mas, da mesma forma, submetida a um trabalho de melhoramento genético para leite, surge, sem reduzir o grau de importância das demais, como a primeira opção. Até o gado azebuado comum (mix de zebu), ainda muito utilizado em várias regiões do Estado, entra no grupo de zebuínos que precisa ser avaliado para a produção de fêmeas F1HxZ. Nas tabelas 6,7 e 8 são apresentados os dados referentes ao desempenho reprodutivo e produtivo de fêmeas F1 de diferentes bases maternas em três ordens de parto.

Tabela 6 – Performance produtiva e reprodutiva de vacas F1, ao primeiro parto e à primeira lactação


Tabela 7 – Performance produtiva e reprodutiva de vacas F1, ao segundo parto e à segunda lactação

Tabela 8 – Performance produtiva e reprodutiva de vacas F1, ao terceiro parto e à terceira lactação

Ordenha

Propriedades com produção abaixo de 200 litros diários e rebanho composto por vacas mestiças, realidade do nosso estado, utilizam na grande maioria das vezes o sistema de ordenha manual. A opção por este sistema está relacionado à capacidade de investimento, produção de leite e tipo de animal, uma vez que, sem comprovação científica, associa-se ordenha mecânica à vacas especializadas e de alta produção.

A ordenha utilizada no sistema de produção da Fazenda de Experimental de Felixlândia, que é composto por 100% de vacas mestiças, é mecânica, tipo passagem ou fila indiana, canalizada, com arraçoamento na sala e presença do bezerro no momento da ordenha. A adaptação ao sistema de ordenha chega próximo aos 100% e de forma eficiente, visto que obtivemos valores de 8,72 vacas por unidade de teteira por hora, valor este próximo ao utilizado para dimensionar salas de ordenhas em sistemas de alta produção, onde não se utiliza bezerro ao pé e arraçoamento, que é de 10 vacas por unidade de teteira por hora. Na tabela 9 são mostrados maiores detalhes sobre o comportamento das vacas mestiças submetidas a este tipo de ordenha.

Tabela 9 – Itens de avaliação da adaptação ao sistema de ordenha

Qualidade do leite

O mercado comprador de leite está cada dia mais exigente. Isto é devido à pressão do mercado consumidor que, cada vez mais, demanda produtos de alta qualidade. Produto de alta qualidade depende principalmente da qualidade matéria prima e, assim, as indústrias de laticínios estão exigindo que o produtor forneça este leite. Também sem comprovação científica, classifica como leite de boa qualidade somente aquele produzido em sistemas especializados, com vacas de alta produção, sem presença do bezerro, sem arraçoamento na sala de ordenha e ordenhas mecânica de última geração. Esta é uma situação que não se aplica a grande maioria dos produtores do país, o que não que dizer que não se produz leite de boa qualidade. Basta que sejam tomadas medidas necessárias de controle e higiene. Na tabela 10 são mostrados dados da qualidade do leite do sistema de produção da Fazenda Experimental de Felixlândia – Epamig, durante o ano de 2004, que utiliza vacas mestiças F1, com a presença do bezerro e arroçoamenrto na sala de ordenha e utiliza ordenha mecânica sem nenhum grau de sofisticação.

Tabela 10 – Indicadores de qualidade do leite (UFC – contagem bacteriana, CCS – contagem de células somáticas, EST – extrato seco total, Prot – proteína, Gord – gordura, Res–Ant – resíduo de antibiótico, Res-Inib – resíduo de inibidores) do sistema de produção da Fazenda Experimental de Felixlândia – Epamig no ano de 2004

Observa-se que no mês de março e junho de 2004 ocorreram aumentos expressivos na quantidade de UFC, o que foi prontamente detectado. No mês de março por uma contaminação da tubulação de leite e no mês de julho por problema no sistema de resfriamento do tanque.

A presença do bezerro na sala de ordenha

Brandão (2004), trabalhando com vacas mestiças holandês x zebu, na Fazenda Experimental de Patos de Minas – Epamig, observou que a ausência do bezerro na sala de ordenha determinou um retorno mais rápido à atividade ovariana luteal cíclica nos 120 dias iniciais do parto (P<0,05) mas, não influenciou (P>0,05) o período de serviço e a taxa de concepção total. Observou, também, que a ausência do bezerro, na sala de ordenha, reduziu a duração da lactação (P<0,05), embora não interferisse na produção de leite (P<0,05). O grupo I ( sem a presença do bezerro) apresentou maior incidência de mastite (P<0,05) em relação aos demais. Os bezerros com acesso às mães após o término da ordenha apresentaram um maior ganho de peso, traduzido por maior peso ao desmame. Parte dos dados referentes a esta pesquisa é mostrada na tabela 9.


Tabela 11 – Duração da lactação, produção de leite e incidência de mastite, em vacas F1HZ ordenhadas na presença ou ausência dos bezerros

Freqüência de ordenhas diárias

A partir de rebanhos leiteiros constituídos de gado especializado, a prática de duas ou mais ordenhas alcançou rebanhos mestiços, inclusive muitos com baixa produção. Pode-se afirmar que a produção de leite tem relação direta com a freqüência das ordenhas. A tabela 10 mostra os efeitos de uma e de duas ordenhas sobre a duração da lactação, produção de leite e saúde do úbere em vacas F1HZ.

Tabela 12 – Duração da lactação(dias), produção de leite (kg), produção diária de leite (kg), e incidência de mastite em vacas F1HZ, submetidas a uma ou duas ordenhas diárias

Vacas F1HZ ordenhadas duas vezes ao dia produziram, durante a lactação, 32,5% a mais de leite do que aquelas ordenhadas uma única vez (700 kg/leite a mais/lactação)..Cabe ressaltar que as vacas F1HZ mostraram também capacidade para retomar a produção de leite, em qualquer estádio de lactação. Ao passar de uma para duas ordenhas, as vacas responderam prontamente com aumento da produção.


Produção de Bezerros Terminais

Alguns produtores aumentam a receita da fazenda leiteira, vendendo animais. Outros, entretanto, não produzem animais com a qualidade demandada pelo mercado e, deixam de aproveitar uma ótima oportunidade de incremento de renda. Em sendo assim, é oportuno e, perfeitamente possível, aproveitar melhor o potencial das vacas de leite, relativo a produção de bezerros destinados a venda. O acasalamento das vacas leiteiras com touros terminadores de raças zebuínas resulta na produção destes. A opção por determinada raça de touro é ditada pelo mercado onde o sistema está inserido, inclusive para o uso de touro holandês apenas para a produção de animais 3/4 HZ, se esta for uma opção rentável para o produtor na sua região. Entretanto a decisão de produzir bezerros para venda não implica, em princípio, na necessidade de abandonar por completo a produção de novilhas de reposição. A extensão do processo fica evidentemente condicionada ao mercado. Em muitas circunstancias, pode fazer melhor negócio o produtor que adquirir fêmeas de reposição de fazendas especializadas em produzi-lás. Fica a certeza de que produzir bezerros terminais via vacas mestiças, propicia vantagens econômicas. Na tabela 12 são mostrados dados sobre desempenho de bezerros terminais.

Tabela 13 – Desempenho de bezerros e bezerras terminais, filhos de vacas F1HZ e de touros Nelore ou Guzerá ou Gir, durante a fase de cria

Os bezerros e bezerras terminais receberam como alimento, o leite produzido por um teto (sucção direta no teto), até 80-90 dias de idade e após este período apenas o leite residual, ao final da ordenha, que após este período prosseguiu sendo realizada com a presença do bezerro, para o apojo. O único alimento volumoso ofertado aos bezerros, até a desmama foi a pastagem durante o verão e ou silagem durante a época da seca.

O bezerro terminal tem alcançado expressivo valor de venda. Condicionado ao lucro proporcionado por litro de leite vendido, a receita obtida com a comercialização de um bezerro terminal é expressiva. Na tabela 13 são mostrados valores de comercialização.

Tabela 14 – Dados sobre a comercialização de bezerros (as) terminais produzidos por vacas F1 H x Z, acasalados com touros zebuínos de corte ou leite.

Desempenho econômico.

O caminho da pecuária de mercado passa, obrigatoriamente, por sistemas de produção que privilegiem pastagens de boa qualidade e animais que se mostrem economicamente viáveis nesse regime de criação. Sistemas de produção sustentados em animais com maior capacidade de adaptação ao ambiente tropical, mais simples e adequados à realidade vigente, têm condições de apresentar resultados econômicos mais competitivos do que outros de maior dimensão, apoiados em modelos e estratégias que custam caro. A flexibilidade é uma das principais características do gado mestiço. Sua adequação tanto à produção de leite, quanto à produção de animais de corte, permite ao produtor ajustar-se com facilidade às mudanças do mercado e explica, em parte, ser esse o sistema mais praticado no País ( Gloria e Bergmann, 2003, citado por Moraes, 2004).

Moraes (2004) analisou os dados de produção e custo do ano de 2003, da Fazenda Experimental de Felixlândia, pertencente à EPAMIG. Neste ano o sistema de produção tinha as seguintes características: rebanho composto por 220 vacas F1HZ, 81% delas na primeira ou segunda lactação; intervalo entre primeiro e o segundo partos de 14,3 meses e entre o segundo e terceiro de 12,1 meses; duração da lactação das vacas primíparas de 286 dias, as de segundo parto, de 268, e as de terceiro, de 312; taxa de mortalidade de 7,57% para bezerros até um ano de idade; produção média para as vacas de primeira lactação 1.990,16 kg de leite/ lactação, as de segunda, 2.512,15 kg e as de terceira 3.001,00 kg. Na tabela 15 são mostrados os itens que foram considerados para a avaliação econômica.


Tabela 15 – Itens utilizados para avaliação econômica do sistema de produção da Fazenda Experimental de Felixlândia – Epamig no ano de 2003

Na tabela 16 são mostrados os resultados da avaliação econômica obtida no sistema de produção de leite com vacas mestiças F1HZ da Fazenda Experimental de Felixlândia.

Tabela 16 – Síntese econômica do sistema de produção de leite com vacas F1 HZ da Fazenda Experimental de Felixlândia no ano de 2003

O sistema de cria do rebanho é a pasto durante a estação chuvosa. Na época seca, vacas em lactação, vacas 30 dias pré-parto e as crias que estão amamentando são suplementadas com volumoso, que pode ser silagem de milho, cana de açúcar e ou a mistura de cana e silagem. Alimentação concentrada é fornecida de acordo com a produção individual, independente da época do ano. Esta diferença no manejo nutricional reflete no desempenho econômico do sistema. Nas tabelas 16 e 17 são mostrados os dados de lucratividade em função da época do ano.

Tabela 16 – Resumo econômico do sistema de produção F1 na estação chuvosa – Ano 2003


Tabela 17 – Resumo econômico do sistema de produção F1 na estação seca – Ano 2003

Para Moraes (2004), a venda de bezerros (as) com aptidão para produção de carne representa parte significativa da receita da atividade, sendo-lhe atribuída grande parcela de contribuição pelo expressivo resultado econômico positivo obtido pelo sistema; e com relação aos custos que compõem os custos operacionais totais, os custos com alimentação representaram em torno de 50% dos mesmos, e os custos fixos corresponderam a cerca de 10% do custo operacional total da atividade, significando baixa necessidade de investimentos em equipamentos e benfeitorias.Na tabela 18 são mostrados dados referente ao desempenho técnico, detalhamento de itens de despesa e margem bruta do sistema de produção da Fazenda Experimental de Felixlândia no ano de 2004.


TABELA 18 – Desempenho técnico do sistema de produção de leite da Fazenda Experimental de Felixlândia, ano de 2004.


Considerações Finais

Minas Gerais tem amplas condições para promover a necessária e urgente adequação da pecuária bovina, sustentada neste modelo. As limitações do meio dificultam à expressão dos potenciais produtivo e econômico de animais de raças especializadas sendo, portanto, necessário recorrer a outras alternativas. A vaca F1, capaz de produzir leite a preços mais competitivos, em ambiente de muitas limitações, pode também, se coberta com touro terminador, produzir, bezerros de qualidade e contribuir para a pecuária leiteira tornar-se mais rentável.

O projeto plataforma tecnológica do leite, coordenado por Vilela (2002), e em publicação de Bressan et al. (2002), mostra que os principais desafios no segmento produção são sistemas competitivos nos aspectos de rentabilidade e lucratividade, que tenham sustentabilidade nos aspectos ambiental, econômico e social e que todos tenham acesso a tecnologia. Considerando estas necessidades, o sistema de produção leite em referência pode contribuir para superar estes desafios.

Nessa direção, o editorial da Revista Balde Branco de Junho de 2004, intitulado de “desempenho de fazendas leiteiras”, é pertinente ao colocar….”.A falta de padrões ou indicadores que possibilitem uma visão de conjunto e que permitam uma avaliação da atividade, independentemente do modelo de produção adotado em cada fazenda, dificulta a mudança de conceitos estabelecidos pela tradição e contribui para que a atividade leiteira seja considerada como um dos poucos negócios ruins dentro do agronegócio brasileiro, apesar de se ter hoje resultados muito bons em fazendas que usam estruturas de rebanho compatíveis com objetivo de lucro; vacas que, independentemente da produção individual, garantem volume de venda para cobrir custos e melhorar lucros, e indicadores de uso eficiente do solo, mão-de-obra e outros fatores produtivos…..”


Literatura consultada

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Autor : José Reinaldo Mendes Ruas – Reginaldo Amaral – Alberto Marcatti Neto – Jose Joaquim Ferreira
Fonte: http://pt.engormix.com/MA-pecuaria-leite/administracao/artigos/vacas-f1-holandeszebu-producao-leite-t124/124-p0.htm