Reprodutivo

Produção de híbridos na piscicultura

Tecnologias como a indução  hormonal e reprodução artificial, tornam a produção de peixes-híbridos uma prática relativamente simples.

A produção de híbridos na piscicultura, embora em voga atualmente entre piscicultores de norte a sul do Brasil, teve os primeiros registros em 1828 na Inglaterra. Naquela época os cruzamentos de salmão do Atlântico Salmo salar com truta marrom Salmo trutta e carpa comum Cyprinus carpio com kinguio Carassius auratus  eram realizados, de forma experimental, por Charles Darwin e Andrew Knight para comprovar que espécies evolutivamente próximas podiam se reproduzir e gerar descendentes tal como acontece entre cavalos e asnos. Mais tarde este conceito foi aplicado a mamíferos e aves de importância comercial visando à produção de indivíduos com melhor desempenho zootécnico.

Normalmente realizam-se três tipos de hibridização: a hibridização intraespecífica, isto é, entre indivíduos da mesma espécie, mas de variedades diferentes, comum na piscicultura ornamental para a obtenção de variedades com novas cores, formatos de cauda como no caso de kinguios, platys e ciclídeos; a hibridização interespecífica, entre espécies diferentes, mas do mesmo gênero, como é o caso do cruzamento entre o surubim cachara Pseudoplatystoma fasciatum e o surubim pintado P.corruscans; e a hibridização intergenérica, entre espécies de gêneros diferentes, como entre surubins do gênero Pseudoplatystoma e o jundiá amazônico Leiarius marmoratus e entre os peixes redondos como o tambaqui Colossoma macropomum e o pacu Piaractus mesopotamicus.

As justificativas para se produzir um híbrido na piscicultura, são as seguintes: diminuir o tempo de engorda (ganho de peso mais rápido), obter populações monossexo sem a utilização de hormônios, obterem indivíduos mais dóceis e aptos ao manuseio comum na piscicultura, aumentar a resistência à patógenos e a certas condições ambientais, como salinidade, temperaturas altas ou baixas, baixos teores de oxigênio dissolvido, etc…

Estas características são alcançadas graças à heterose ou vigor híbrido, ou seja, quando os descendentes provenientes destes cruzamentos apresentam desempenho maior que a média dos progenitores. Desta forma quanto maior for a divergência genética entre os progenitores, a heterose será mais expressiva.

Tecnologias como a indução hormonal e reprodução artificial, tornam a produção de peixes híbridos uma prática relativamente simples, embora entre algumas espécies possa ocorrer alta mortalidade embrionária e larval e/ou deformidade das larvas, observadas entre alguns salmonídeos e entre ciprinídeos, razão pela qual se recorre a técnicas como a triploidia para aumentar a viabilidade na produção de híbridos. Ainda que pareça uma prática totalmente artificial, a hibridização pode ocorrer espontaneamente na natureza, como ocorre entre alguns salmonídeos, ciclídeos e peixes marinhos.
A produção de tilápias 100% machos pode ser alcançada sem a utilização de hormônios com o cruzamento entre a fêmea da tilápia do Nilo Oreochromis niloticus e o macho da tilápia de Zanzibar O. hornorum. Os machos de tilápias, híbridos ou não, crescem mais e a uma velocidade maior que as fêmeas, pois seu metabolismo é voltado mais ao crescimento e não a maturação e crescimento das gônadas. A utilização de hormônios, embora não apresente resíduos no filé do peixe na idade do abate, afeta o meio ambiente e não garante 100% de reversão sexual do lote. A hibridização, limitada à disponibilidade de exemplares puros das duas espécies, mostra-se como uma alternativa à utilização de hormônios, inclusive para obtenção de certificação de produtos “verdes”.

Os híbridos atualmente produzidos a partir de espécies nativas portam consigo algumas questões não respondidas tanto por produtores, quanto por pesquisadores. Será que realmente são mais produtivos que seus progenitores, ou o manejo utilizado atualmente que não é adequado para as especificidades de certas espécies, não permitindo assim a expressão de seu potencial zootécnico? Estes híbridos, se férteis ou não, ao escaparem para a natureza podem interferir na reprodução e na preservação do banco genético da população selvagem?

Estas questões, o quanto antes elucidadas, permitirão a utilização e o desenvolvimento de tecnologias mais adequadas, proporcionando maior sustentabilidade sócio-econômica e ambiental à piscicultura nacional.

Autor: João Batista Kochenborger Fernandes – Professor e Zootecnista do Centro de Aquicultura da UNESP

* Coautor: Luiz Gustavo Giannecchini

Fonte: http://www.diadecampo.com.br/zpublisher/materias/Materia.asp?id=21564&secao=Colunas%20Assinadas