Produção de feno com capim elefante

O feno, como está escrito na Bíblia, é um alimento ideal para os momentos de seca e, como tal, deveria fazer parte da rotina de fabricação ou armazenamento de toda fazenda no mundo tropical.

O principal problema para o alcance de índices elevados ou mesmo sa­tisfatórios na produção animal diz respeito à disponibilidade de forragens como também o seu armazenamento para utilização nos períodos críticos do ano, em especial para os rebanhos bovinos, ovinos e caprinos, mais acentuadamente na região Nordeste do Brasil, tendo em vista a existência de uma estacio­nali­da­de na produção de alimentos para os animais, caracterizada pelo chamado “pe­río­do das águas” e “período da seca”. Em quase todas as regiões do mundo a produção de forrageiras está sujeita a uma estacionalidade que, sem a prática da conservação de forragens, o êxito na atividade pecuária em muitos países estaria comprometido.

A conservação de forrageiras através da fenação é pouco praticada por produtores do Nordeste do Brasil onde a grande maioria dos pequenos criadores da região maneja seus rebanhos em pastos nativos e/ou cultivados, contando às vezes apenas com uma capineira como recurso forrageiro suplementar. Estas capineiras são geralmente mal manejadas, sendo o corte realizado quando apresenta avançado estágio de desenvolvimento, com elevada produção de forragem, mas com valor nutritivo muito ­baixo, pois contém altos teores de fibra, lignina e celulose, o que implica em forragem de baixa digestibilidade, além de conter baixos níveis de proteína e grande proporção de colmos em relação às folhas.

A fenação apresenta-se como alternativa para melhorar o manejo das capi­neiras, contribuindo para a obtenção de uma maior produtividade de matéria se­ca por unidade de área aliada ao alto valor nutritivo da planta, desde que sejam seguidas as recomendações técnicas, diminuindo os efeitos negativos causados pela estacionalidade na produção de forragens.

A fenação é uma prática rural muito antiga em todo o mundo, usada para con­servar as forragens. É o processo de de­sidratação que transforma a forragem verde em feno. Feno por sua vez é o alimento volumoso obtido pela ceifa e desidratação da planta forrageira, reduzindo seu teor de umidade de 65 a 80% pa­ra 10 a 20% através de processos na­turais e/ou artificiais que visam conservar ao máximo o valor nutritivo da planta.

O capim elefante (Pennisetum pur­pureum Schum) é uma gramínea pe­rene, cespitosa, originária da África. For­rageira das mais importantes e mais difundida em todas as regiões tropicais e subtropicais do mundo, sendo encontrada desde o nível do mar até 2.000 m de altitude. É rústica, de fácil multiplicação, apresenta relativa resistência à se­ca, frio, fogo, pragas e doenças. Exigente em fertilidade vegeta bem desde solos bem drenados ou até um pouco úmidos. Trata-se de uma gramínea que proporciona bons rendimentos de ­matéria seca por ha/ano, com alto valor nutritivo e boa palata­bilidade. Pode ser utilizada como pastagem, capineira ou para elaboração de silagem e feno.

Época para fenar

No Nordeste do Brasil a fenação pode ser realizada praticamente todo o ano, com exceção daqueles dias chuvosos no período de trovoadas e de inverno. Nestes períodos as chuvas que ocorrem não chegam a impedir a elaboração do feno, tendo, entretanto, que serem aproveitados os dias de céu aberto e quentes que ocorram, sendo imprescindível acompanhar com muita atenção às previsões meteorológicas divulgadas pelos meios de comunicação.

Vantagens da produção de feno

A produção de feno apresenta diversas vantagens como:

conserva durante meses e até anos, alimento para o rebanho;

economiza a utilização de concentrados;

aumenta a produção de forragem por área, uma vez que permite nova re­brota depois da colheita, desde que sejam cortadas na época da chuva ou realize irrigações; permite a utilização da capineira no momento em que a planta apresenta um bom rendimento de matéria seca aliado a alto valor nutritivo;

manutenção do peso animal na entressafra;

carne de melhor qualidade;

menor utilização de rações industrializadas; – aumento da lotação animal por área.

Produzindo o feno

Corte da planta – O momento ideal para o corte é aquele em que a planta apresenta elevada produção de matéria seca por unidade de área, aliada aos altos valores nutritivos. Assim, a fase de pré-floração ou mesmo no início desta, é indicada para proceder ao corte do capim. Pode-se também se basear na altura da planta em torno de 1,5 a 1,8 m. O corte poderá ser manual, empregando-se tesoura, facão, alfanje ou com o auxílio de máquinas. A altura do corte deve ser em torno de 15 a 20 cm do solo, nas primeiras horas da manhã, mesmo que a forrageira esteja com orvalho, pois ao final do dia ela estará mais seca que aquela cortada no meio da manhã, já com o orvalho evaporado.

Recomenda-se também que seja colhida apenas a quantidade suficiente para o processamento do dia, de acordo com a capacidade operacional da propriedade.

Trituração – A trituração deverá ser iniciada logo após o corte, para que se acelere a perda de umidade. Esta operação é importante para que ocorra uma desidratação uniforme, sendo recomendada máquinas de boa capacidade e eficiência, que triturem o material em pedaços de 2 a 3 cm.

Secagem – A secagem do material é uma das etapas mais importantes no processo de fenação, pois dela dependerá, em grande parte, a qualidade do produto final. Deve ser rápida e criteriosa, para que sejam mantidos todos os princípios nutritivos do material original.

A forragem triturada deve ser colocada sobre lona plástica ou área cimentada, com área suficiente para espalhar o material em camada de até 10 cm, para permitir uma desidratação uniforme e facilitar o revolvimento.

O revolvimento, ou viragem, deverá ser realizado de 4 a 5 vezes por dia, prin­cipalmente nas primeiras horas após a trituração para expor uniformemente o material aos raios solares. Recomenda-se que o produtor disponha de uma lona plástica para a proteção da forragem por ocasião do orvalho e chuvas. A secagem também poderá ser realizada em galpões cobertos e arejados. Nesse caso o ponto de feno é alcançado com maior tempo de exposição e consequentemente maior número de viragens.

O ponto de feno – No processo de fenação, a obtenção do ponto de feno é outra etapa também muito importante, pois é a que determina se a forragem está em condições de ser armazenada. O ponto de feno é alcançado quando a umidade da forragem atingir de 10 a 20% sendo que o período de desidratação para obtenção desse ponto depende das condições de temperatura, vento, umidade relativa do ar, presença de nuvens, número de viradas, entre outras.

O ponto de feno poderá ser reconhecido de várias maneiras, a saber:
* Pelo tato, considerando a expe­riência do produtor na atividade, em observar a textura do material;
* Através de aparelhos medidores de umidade;

* Através de teste: coloca-se uma porção da forragem triturada dentro de um litro de vidro transparente, juntamente com um pouco de sal finamente moído. Após agitar mais ou menos 100 vezes, vira-se o litro de boca para baixo e observa-se a situação do sal: se os cristais se aglutinarem, o material está com mais de 25 % de umidade, portanto, não está no ponto. Se os cristais se manti­ve­rem soltos, o teor de umidade estará dentro dos limites recomendados.

Trabalho realizado pela EBDA / UFBA (2002) utilizando capim elefante, roxo, tritu­rado, exposto à secagem exclusiva ao sol em lona plástica, no mês de outubro, na região do Recôncavo baiano, o ponto de feno foi alcançado em 21 horas de exposição, isto é, em aproximadamente 2,5 dias. Fenos produzidos pela EM­PARN, com o material exposto ao sol em secadores cimentados, e utilizando-se 4 viradas por dia no mês de maio-junho na Região do Seridó no Rio Grande do Norte, foram obtidos com 2,5 a 3,0 dias de exposição.

O armazenamento do feno

Armazenamento a granel – Neste caso, o feno é levado a galpões para este fim, procedendo-se certa compactação para proporcionar uma maior densidade. Essa operação deve ser realizada em camadas de aproximadamente 30 cm de espessura, desse modo consegue-se guardar em 1 metro cúbico de 50 a 80 kg de feno caso o material seja bem pi­so­teado.

Em sacos – Nessa modalidade de armazenamento, o feno é colocado em sacos de polietileno ou ráfia, procedendo-se também certa compactação que poderá ser feita com os pés, para se obter maior densidade, a qual deverá ser de aproximadamente 90 a 100 kg/m3. Os sacos poderão ser armazenados em galpões arejados, ventilados, livres de umidade, ou a campo sobre estrado, coberto com lona plástica ou palhas, etc. O material ensacado ocupa menor espaço, tem melhor conservação, facilita o transporte e fornecimento, como também possibilita o controle da disponibilidade do feno.

Esse tipo de armazenamento deve ser feito aproveitando-se as construções já existentes ou construir galpões rústicos e estrados no campo, levando-se em consideração as facilidades encontradas na propriedade (disponibilidade de materiais e mão-de-obra) e o tempo que o feno deverá permanecer armazenado. O feno deve ser armazenado com teores de umidade recomendados, para evitar grandes perdas. É aconselhável realizar inspeções periódicas aos locais em que o feno esteja armazenado.

Período de armazenamento – Obedecendo-se as práticas recomendadas quanto à produção e armazenamento, o material fenado deverá permanecer em boas condições de utilização por vários meses, podendo apresentar pequenas perdas de seu valor nutritivo. Segundo trabalho de pesquisa realizado pela EBDA e UFBA, fenos de capim elefante, roxo, triturado, armazenados em sacos de polietileno por um período de 360 dias em galpão arejado, na região do Recôn­cavo da Bahia, apesar das alterações ocorridas na matéria seca e proteína, o material após o armazenamento apresentou características de um bom feno, isto é, coloração esverdeada, cheiro agradável, maciez e ausência de mofo.

Aditivos – Fenos armazenados com alta umidade provocam perdas da matéria seca e desenvolvimento de bacté­rias, fungos e leveduras. Estes fungos são pre­judiciais à saúde dos animais e das pessoas que manuseiam estes fenos. Vá­rios produtos podem ser aplicados em fenos armazenados com alta umidade co­mo, por exemplo, a ureia que, além de controlar o crescimento de microrganismos ,melhora o teor de proteína e diges­tibilidade, podendo ser usada na proporção de 3 a 5 % do material a ser tratado.

Qualidades de um bom feno

A qualidade de um bom feno está li­­gada diretamente ao seu valor nutritivo, onde inúmeros fatores exercem influência como:

fertilidade do solo,
idade da planta,
técnica de fenação,
duração da desidratação,
desidratação uniforme das partes trituradas (colmo e folha),
condições climáticas no momento da fenação,
umidade do material por ocasião do armazenamento,
forma de armazenamento.

Assim, um bom feno deve possuir co­loração esverdeada, cheiro agradável, ser macio, livre de impurezas e elementos tóxicos, ser bem aceito pelos animais, bons teores de proteína, sais minerais e ter boa digestibilidade.

Fornecimento aos animais

O feno é um alimento volumoso, de fácil transporte e distribuição, podendo até mesmo ser fornecido aos animais no próprio campo e deverá ser colocado em cochos, nunca no chão, evitando que os animais pisem e defequem sobre ele, pois neste caso as perdas de material poderão atingir níveis elevados. A quantidade de feno a ser fornecida dependerá do arraçoamento proposto para cada ca­tegoria animal, sempre visando cobrir as necessidades nutritivas dos mesmos. Para efeito de adaptação recomenda-se iniciar o fornecimento com pequenas quan­tidades e ir aumentando grada­ti­vamente. Feno de qualidade inferior às vezes refugado pelos animais poderá ter a aceitabilidade aumentada com a adição de melaço, cana ou até mesmo sal.

Considerações finais

Existem diversas tecnologias coerentes com a realidade do homem do campo, com a finalidade de minimizar os efeitos provocados pela estaciona­li­dade na produção de forragens para os rebanhos, principalmente na Região Nordeste do Brasil. Desta forma, a produção de feno de capim elefante como reserva estratégica de forragem é uma alternativa que deve ser praticada, diante das diversas vantagens apresentadas, contribuindo para convivência dos produtores rurais com as estiagens prolongadas e fixação do homem no campo.

Jorge de Almeida – Engº Agrº M.Sc. Emp. Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA); Jorge de Almeida Filho – Acadêmico do curso de Ciências Biológicas da UFRB. 12/05/2010Revista O Berr0 Nº133 – Jorge de Almeida

fonte:  http://www.accoba.com.br/ap_info_dc.asp?idInfo=1647