Produção de cana-de-açúcar em SPDP

Oswaldo Siroshi Tanimoto
Engenheiro agrônomo e Produtor rural – E-mail: ostanimoto@yahoo.com.br

Histórico 

No sistema de produção da cana de açúcar em São Paulo, desde o final da década de 1970, é preconizado por ocasião da renovação dos canaviais o cultivo de culturas de espécies leguminosas, com os objetivos de gerar receitas e proporcionar os benefícios da rotação de culturas, que são fornecimento de nitrogênio, melhorar as características físicas e biológicas do solo e reduzir a população de patógenos, nematóides e outras pragas. Com a implantação da colheita de cana crua mecanizada no Brasil há menos de duas décadas, e por se tratar de uma técnica relativamente nova na maioria das regiões canavieiras, os produtores ainda não estão totalmente adaptados à nova realidade. No estado de São Paulo as empresas do setor sucro alcooleiro paulista, em função da legislação (Decreto nº 41.719/97 e nº 42.056/97), que estabelecia um prazo para eliminação do uso de fogo e depois o Decreto 45.869 de 22/06/2001 que prorrogou a data limite, a colheita de cana crua mecanizada, mesmo assim cresceu na ordem de mais de 12,5% ao ano. Devido à proibição da queima dos canaviais o plantio direto na palha da cultura de sucessão/rotação, nessas condições surgiu nesta época como uma expressiva e inovadora iniciativa, enfrentando riscos, e estudando os erros e acertos de vários produtores de soja e cana de açúcar como Paulo Rodrigues da Fazenda Santa Izabel – Guariba, Luiz Fernando da PROTEMA – Morro Agudo, Paulo Donegá – Dumont e Oswaldo S. Tanimoto de Aramina, em seguida os órgãos oficiais como IAC, hoje Apta, da Estação Experimental de Ribeirão Preto, através do pesquisador Eng° Agr° Denizart Bolonhezi, grande colaborador e incentivador desta tecnologia e que hoje cada vez mais vem pesquisando, aperfeiçoando este sistema juntamente com as áreas de produção de de cana de açúcar das diversas empresas produtoras no Estado de São Paulo, como: Usina Guairá – Guaíra, Usina Cerradinho – Catanduva, Usina São Martinho – Pradópolis, Coplana – Guariba e divulgando, através de dias de campo, a UNESP – Jaboticabal e outros, também vem comprovando e aperfeiçoando a esta nova tecnologia que hoje já atinge em torno de 15.000 hectares só na Região Norte de São Paulo e vem auxiliando os produtores no manejo e na renovação dos canaviais com o uso de rotação de culturas, reduzindo os custos de produção na ordem de 30% nas duas culturas, evitando assim todos os problemas ocasionados pela monocultura da cana de açúcar, dando lucro, proteção ambiental, sustentabilidade da agricultura, recuperando a fertilidade do solo e segurança na produção de alimentos e energia.

 

O Sistema Plantio Direto de cana-de-açúcar em sucessão/rotação com leguminosas

O Sistema de Plantio Direto de Cana de Açúcar na Palha de leguminosas (soja, amendoim e crotalárias) em sucessão/rotação, prática essa que representa cerca de 200 mil hectares de cultivo, ou seja mais de 50% das áreas destinadas para renovação na região Centro Sul, dessa forma:

1. Se viabiliza o plantio mecanizado da cana-de-açúcar no SPDP, sem grandes mobilizações de solo, dispensa a operação de cultivo de quebra lombo com o preparo reduzido (proposto pela Monsanto).

2. Essa adoção de SPDP de leguminosas favorece também a reciclagem de nutrientes, que proporcionam aumentos na produção de 22 à 47%, o que representa um acréscimo de até 5 ton./ha de açúcar (MASCARENHAS & TANAKA, 2000).

3. Natureza: melhoria ambiental

Solo

a) Reduzindo o uso da mecanização na lavoura evitando a compactação (melhoria das condições físicas do solo).

b) O uso controlado de agroquímicos, (dispensa o uso de herbicidas de pré e pós emergência, nas culturas de sucessão/rotação)

c) A manutenção da cobertura do solo, evitando assim a erosão, compactação, etc.

d) Há uma diminuição e estabilização da temperatura do solo (principalmente em solos arenosos),

e) Aumento da Matéria Orgânica do solo.

f) Controle de Pragas e Doenças: – Como redução na população de nematóides e infestação de Diatreaea Saccharalias.

Água

a) Reduzir poluição dos rios, nascentes, represas e lagos.

b) Contribuindo para escassez da água recarregando os arquíferos subterrâneos e a manutenção das vazões dos rios ao longo do ano.

Atmosfera

a) Diminuição de CO2, N2O e CH4 para atmosfera

b) Contribuindo assim com efeito estufa e poluição do ar.

Plantas recomendadas para uso na adubação verde ou cobertura do solo no plantio direto de cana-de-açúcar

A escolha dependerá basicamente dos objetivos, da praticidade de semeadura e manejo da fitomassa, do ciclo e da disponibilidade e custo das sementes. Dentre os principais objetivos, destaca-se a utilização de espécies leguminosas (família Fabaceae), pois fornecem nitrogênio (N) através da fixação simbiôtica com bactérias do gênero Bradyrhizobium. Em relação às leguminosas comerciais mais cultivadas (soja e amendoim), as quantidades fixadas pelos adubos verdes além de serem maiores, não são exportadas pelos grãos (61 % no caso da soja), podendo variar de 135 a 313 kg/ha (Lab-Lab, mucunas, feijão de porco, guandu, crotalárias, etc.) até 400 kg/ha de nitrogênio (leucena).

Vantagens da cultura de Soja:

  • Excelente rotação de cultura,
  • As áreas já são sistematizadas e extensas,
  • Inicia-se com muita palhada (15 t/ha),
  • Permite o plantio sem interrupção, por falta de umidade no solo,
  • Obtenção de melhor estande das lavouras,
  • Melhor fluxo de caixa (no convencional, colhe a cana e já começa a gastar para destruição da soqueira),
  • Melhor aproveitamento da frota de tratores, possibilitando plantar área maior (3 à 4 vezes mais),
  • Maior vida útil das máquinas (trabalho sem poeira),
  • Tratores com menor potência (100 à 120 c.v.),
  • Menor custo operacional e maior rendimento da frota,
  • Redução no custo de produção: *11% no custo operacional

*71% no consumo de diesel

*62% na mão-de-obra

*44% na frota de máquinas

  • Redução no Custo de Formação do Canavial: com este sistema, além de deixar de existir o efeito prejudicial da monocultura na região, economiza-se as operações de preparo do solo no plantio da cana. Além disso, se as condições forem boas (clima, produção e preço), o lucro obtido com a cultura de sucessão (soja, amendoim, etc.) paga todas as operações de plantio (M.O. e equipamentos) da cultura de cana-de-açúcar (Tabela 1).
Tabela 1. Comparativos de custos de produção de 1 hectare –  Cultura: Soja após Cana-de-Açúcar Data:15/06/2008
 

 

 

  • Fornecimento de Adubo residual: As leguminosas (Crotalária juncea, Mucunas, Lab-Lab e Soja), a cultura de cana, se beneficia muito da adubação que não foi totalmente absorvida durante o ciclo da cultura anterior. Além do fósforo, potássio, cálcio e magnésio que ficou no solo, após a colheita dos grãos as leguminosas deixam no solo, para a cultura de cana-de-açúcar (Tabela 2):
Tabela 2. Fornecimento de adubo residual para a cultura da cana-de-açúcar.
 

Fonte: Glória et al, 1980 – Albuquerque et al, 1980

 

  • Manejo dessas leguminosas: A possibilidade de semear em linha é um critério importante na escolha da espécie a ser utilizada no plantio direto, pois não é desejável a utilização de grades para incorporar as sementes distribuídas a lanço. No uso de crotalárias em renovação de cana, a grade ainda é o método mais utilizado, resultando em elevado custo (R$ 250,00/ha) e impossibilitando a manutenção da palhada da cana crua. O uso de correntão com distorcedor pode ser uma alternativa viável para incorporar as sementes de crotalárias em reforma de cana crua, quando não há disponibilidade de semeadora, ou se utiliza ¨coquetéis¨ de espécies, que seria o ideal. A facilidade de manejo da fitomassa é outro aspecto a ser considerado no plantio direto. Com relação aos métodos mecânicos, é preferível a utilização de equipamentos (rolo-faca) que triturem o mínimo possível a fitomassa, contribuindo para diminuir a decomposição dos resíduos. Para o manejo da Crotalária juncea o ideal seria entrar quebrando, simultaneamente à semeadura ou plantio (cana-de-açúcar). Por outro lado, para utilização de espécies com hábitos de crescimento rasteiro e baixo, o conhecimento sobre a suscetibilidade ao glifosato é uma informação importante. As mucunas de maneira geral são fáceis para dessecação, porém deve-se ter atenção com o feijão de porco (Canavalia ensiformis), pois apresenta relativa tolerância a este herbicida. Finalmente convém salientar, que o plantio direto somente é uma solução sustentável de produção agrícola se estiver associado com esquemas de rotação de culturas, os quais devem contemplar uso das plantas de cobertura.

Benefícios

Para o Agricultor:

  • Aumento na produção das duas culturas
  • Redução nos custos de produção das duas culturas
  • Diversificação da atividade produtiva
  • Produtores mais capitalizados
  • Maior estabilidade econômica para o agricultor

Para a Sociedade em Geral:

  • O setor está diminuindo o emprego (está acabando com a bandeira social), devido o uso das colhedoras de cana crua. Esse sistema promove o desenvolvimento e a sustentabilidade do setor rural, produzindo mais alimentos, gerando mais renda na cadeia produtiva do agronegócio, evitando, assim, o êxodo rural.
  • Maior geração de empregos:

a) Diretos: na propriedade

b) Indiretos: no comércio, na indústria e serviços

  • Proteção ao meio ambiente: água limpa (eliminando assoreamento de rios e represas, reduzindo riscos de enchentes), eliminação de queimadas, alteração na composição da fauna e flora, o que garante equilíbrio ecológico.

 

Referências Bibliográficas

BOLONHEZI, D. Adubação verdee rotação de culturas no contexto do plantio direto. Revista Agrimotor, nº 23. – Agrário

MASCARENHAS, H.A.A. & TANAKA, R.T. Soja e Adubos verdes,uma boa opção na renovação do canavial. O Agronômico, n° 52 (1), p. 19, 2000.

DERPSCH, R. A Expansão Mundial do Plantio Direto. Revista Plantio Direto, n.59, v.6, p. 321-40, 2000.

OLIVEIRA, C.M. Coros Rizófagos no Brasil central:Situação atual e perspectivas. ANAIS – 8º Encontro de Plantio Direto no Cerrado – Tangará da Serra –MT, p.122 a 126, 2005.

GASSEN, D. N. O manejo de pragas no sistema plantio direto.In: Gomes, E. P.; kochhann, R. A.; Borges, G. O. Plantio direto no Brasil. Passo Fundo: Editora Aldeia Norte, 1993b.p. 129-139.

Fonte: http://www.plantiodireto.com.br/?body=cont_int&id=892