Procedimento adequado de pulverização de defensivos agrícolas pode ajudar produtores a preservar dois recursos: a saúde e o bolso

Luiz Baleotti

Além de grades, tratores, subsoladores, enleiradores e bombas, o produtor de cana Pedro Sarti, de Sertãozinho/SP, incluiu uma outra ferramenta ao seu material de trabalho cotidiano em 2008: a calculadora. Mas a máquina só apresenta más notícias. “A gente soma, multiplica, calcula, mas a conta nunca fecha”, diz.

A matemática da cana não está sendo exata em 2008. Os fornecedores independentes recebem no máximo R$ 35 por cada tonelada de cana, que custou R$ 53 para ser produzida. A combinação de queda nos preços de açúcar e álcool e alta nos valores de fertilizantes compõe um quadro negativo para os produtores.

Por excesso de oferta, os preços de açúcar e álcool – principais componentes da equação que calcula a remuneração da tonelada de cana – apresentaram elevada queda nos mercados interno e externo em 2008. Paralelamente, o valor dos fertilizantes cresceu 140%. Ainda houve reajuste de 11% do valor do diesel no primeiro semestre do ano.
Segundo o presidente do Sindag (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola, Laércio Valentin Giampani, com o barril de petróleo na casa de US$ 120, não houve como segurar uma escalada de preços no campo. O produto é a principal matéria-prima para a fabricação dos defensivos agrícolas, fertilizantes e outros itens indispensáveis ao sucesso das lavouras.

Ao contrário do que ocorreu na safra anterior, quando os preços dos defensivos agrícolas deflacionaram em 15%, o cenário atual aponta para aumento de valores, o que ocorreu também com o glifosato. Um dos principais herbicidas usados na cana, o insumo teve valor aumentado em mais de 50%. O litro, que custava US$ 3,50 no ano passado, está sendo vendido a US$ 7,80.

Com a possibilidade de o barril do petróleo alcançar US$ 170 no até o final do ano, outros herbicidas terão custos de produção repassados aos seus preços. Algumas empresas farão o reajuste a partir segundo semestre de 2008. “De maneira geral, os custos aumentaram entre 20% e 25%. Ainda não definimos qual será o percentual exato de repasse ao mercado”, afirma o gerente de marketing de herbicidas da FMC Agricultural Products, Paulo Queiroz.

Para evitar mais perdas em suas rendas, usinas e produtores devem investir em planejamento. Segundo o pesquisador Hamilton Humberto Ramos, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), só existem duas formas de lucrar com o negócio: vendendo mais caro, o que não é possível porque o preço dos produtos agrícolas depende do mercado, ou reduzindo o custo de produção.

A última opção é viável por meio da adoção de tecnologias adequadas, principalmente para aplicação de defensivos agrícolas. Qualquer descuido no manejo de herbicidas representa prejuízos econômicos. “Alguns produtores brigam muito em relação ao preço, mas não têm cuidado na hora de aplicar e acabam jogando produto fora”, comenta o gerente comercial da cooperativa Copercana, de Sertãozinho, Frederico Dalmazo.

A tese é comprovada por estudos do IAC em lavouras de tomate, em que os investimentos em produtos e aplicação somam cerca de 60% dos gastos de produção. O estudo revela, porém, que essas despesas poderiam cair em 30% se o agricultor aplicasse adequadamente os defensivos agrícolas.

Segundo Ramos, a correta tecnologia de aplicação também pode reduzir os custos com a pulverização de herbicidas na cana, sem diminuir a eficácia da operação e a produtividade.

 

Desperdícios

O custo de implantação de uma nova lavoura de cana-de-açúcar se aproxima de R$ 4.000 por hectare. Deste volume, 5% (R$ 200/ha) são investidos em compra e aplicação de herbicidas. Em lavouras já existentes, os defensivos demandam aproximadamente R$ 90 por hectare – os insumos representam em média 8% do investimento em tratos culturais no caso de cana-planta e 20% em cana soca.

Segundo especialistas, é possível reduzir estes custos com metodologias que foquem a correta e direcionada tecnologia de aplicação. O procedimento deve ser planejado para evitar desperdício de produto, necessidade de re-trabalho e perda de produtividade. Os gastos também podem ser diminuídos com de uso adequado da água na etapa de preparação da calda.

Os pontos-chaves que podem contribuir para a redução significativa de custos com aplicação estão relacionados ao gerenciamento da atividade: definição correta do alvo a ser atingido, conhecimento do ambiente em que se vai trabalhar para determinar o momento ideal de aplicação, escolha do equipamento correto para tal tarefa, manutenção dos pulverizadores e treinamento adequado dos operadores.

“Seguindo de forma correta estes itens podemos aumentar a eficiência operacional do trabalho (reduzir volume de calda, aumentar a área tratada por dia, reduzir a catação nas áreas) sem diminuir o potencial produtivo da cultura”, explica o gerente de Cultura da Ihara, Eduardo Figueiredo de Andrade.

Os erros de aplicação representam uma fonte importante de desperdícios, que podem chegar a 70%, segundo pesquisadores e especialistas. Os equívocos causadores de tamanhas perdas ocorrem principalmente no dimensionamento e na manutenção dos equipamentos, muitas vezes sucateados, desregulados e descalibrados.

Estatísticas levantadas por diversos especialistas e compiladas pela RMS Assessoria Agrícola aponta que, em média, 86% dos pulverizadores em barra usados nas diversas culturas agrícolas brasileiras apresentam algum tipo de problema.

O uso de pontas de pulverização desgastadas e danificadas é o erro mais comum: acontece em 63% dos casos. Em segundo lugar no ranking dos equívocos, com 27% de ocorrências, está a falta de válvulas ou manômetros ou uso destes acessórios com gotejamento.

Considerando que as perdas podem chegar a 70% do custo de aplicação, a correção dos erros de aplicação pode reduzir os investimentos do custo total da cultura para 5 % em cana planta a 14% em cana soca. “O uso da tecnologia adequada aumenta a janela de trabalho, otimiza o maquinário e reduz os custos”, garante o coordenador de marketing de cana-de-açúcar da FMC, Marcus Brites.

Outros gastos

Os erros de aplicação também podem provocar perda de produtividade da cultura. Se os produtos forem pulverizados sem cobertura plena da área a ser tratada, o procedimento não atingirá níveis desejados de controle.

“São produtos aplicados que não farão efeito no canavial. Não é só o custo do tratamento que será perdido, mas também haverá menor produtividade pela falta de controle de pragas e doenças”, explica o professor Ulisses Rocha Antuniassi, da Unesp de Botucatu/SP.

Se a aplicação não for feita de maneira eficiente e o problema for percebido a tempo, o escape de plantas daninhas demandará re-entrada na área, o que vai aumentar o custo com uso de mais produtos e mão-de-obra adicional.

Uma correta aplicação reduz custos nesse sentido. O índice de re-trabalho nas usinas varia de 5% a 20% da área cultivada, ou seja, em cada 100 hectares tratados há em média de 5 a 20 ha que necessitam de uma nova aplicação para controlar alguma planta que escapou ao controle.

“Assim, a usina que fizer uma boa aplicação na implantação do canavial, por meio do uso dos produtos adequados, nas doses corretas e com equipamentos em boa manutenção, conseguirá reduzir o índice de re-entrada nas áreas, e consequente os custos”, explica Brites, da FMC.

A etapa de dosagem (para mais ou menos) também pode provocar prejuízo econômico. Se for uma dose inferior à necessidade de área haverá deficiência no desempenho do tratamento fitossanitário, com perda do produto aplicado e prejuízo no sistema produtivo.

Segundo o gerente de cana da Unidade de Proteção de Cultivos da Basf, Redson Vieira, caso o volume seja superior à dose programada, pode haver a intoxicação da cultura e investimento de recursos além do necessário.

Outra etapa fundamental é o preparo de calda. A correta diluição do produto é uma das chaves para a aplicação eficiente. “Durante o preparo da calda é fundamental que o usuário siga as recomendações da empresa ou do engenheiro agrônomo responsável para que se evite o desperdício”, reforça Brites.

 

Menos água, mais economia

Dados preliminares de um estudo do IAC demonstram que a utilização de altos volumes de água na elaboração da calda de agrotóxicos também pode ser sinônimo de prejuízos para a cultura canavieira. O projeto está sendo desenvolvido pelo Instituto em parceria com a Basf e os cincos principais grupos de produtores de cana-de-açúcar de São Paulo.

A pesquisa abrange a avaliação da possibilidade técnica de utilização de menores volumes de água na aplicação do herbicida Plateau em diferentes épocas no ano (início, meio e fim de safra) para usinas da região de Ribeirão Preto.

Segundo Ramos, o principal desperdício está relacionado à utilização de volumes de água desnecessários. Para ele, a substância deve ser encarada como o veículo necessário para se colocar o herbicida, de forma adequada, sobre o alvo que se pretende atingir.

“Quanto maior o volume de água, menor o rendimento operacional dos pulverizadores e maior o custo do seu transporte. Assim, a adequação do volume de água pode reduzir sensivelmente o custo de aplicação”, sustenta.

Segundo cálculos do IAC, em uma área de 15 mil hectares plantados, o uso inadequado da área provoca perda estimada de R$ 22 mil. De acordo Redson Vieira, os resultados preliminares do estudo mostram a possibilidade de redução mínima de 25% no volume de água hoje utilizado.

São procedimentos que podem ajudar produtores e usinas a se entenderem melhor com as máquinas calculadoras. Mas a adoção de uma política de gerenciamento da aplicação de defensivos agrícolas não ajuda a reduzir apenas prejuízos econômicos.

No momento de expansão da agricultura brasileira, sobretudo a canavieira, que sofre com o conceito de competição com alimentos, a adoção de tecnologia de aplicação adequada atende a demanda por sistemas de produção sustentáveis, profissionalizados e com padrões internacionais de qualidade e segurança.

“O procedimento correto significa algo muito maior, pois temos um risco ambiental, uma vez que aplicar produtos em locais não alvos pode gerar contaminação de lençol freático e áreas vizinhas. Temos ainda o risco da autocontaminação do operador no momento do manuseio do produto, preparo da calda de aplicação e também, intoxicação por deriva”, conclui Andrade.

 

Fonte: http://www.editoravalete.com.br/site_alcoolbras/edicoes/ed_117/mc_1.html