Laranja

Preservar, para não faltar

Ao se engajar num projeto de adequação ambiental, a Fazenda São Pasquale, de Iperó, SP, dá um exemplo com reflexos, inclusive sobre a qualidade e os preços dos cítricos produzidos

A Bayer CropScience tem entre seus objetivos a conscientização do produtor e sua família para o uso de práticas agrícolas adequadas, principalmente com relação à saúde do trabalhador rural e à proteção do meio ambiente (www.bayercropscience.com.br). De acordo com uma citação do professor da Esalq, Ricardo Ribeiro Rodrigues, “o aumento da preocupação social com o destino dos fragmentos florestais remanescentes é crescente, de modo que atividades de produção sem um planejamento ambiental adequado e que tenham como conseqüência à degradação ambiental, estão fadadas a sanções cada vez mais restritivas, não só no aspecto legal mas também na própria consolidação do mercado consumidor, que está cada vez mais exigente. O paradigma da produção de alimentos com sustentabilidade econômica, social e ambiental é o grande desafio da atualidade”, recorda o professor. Em função do contínuo processo de substituição da cobertura florestal natural do Estado por áreas agrícolas, esforços estão sendo realizados em diferentes níveis para proteger o que ainda resta de florestas remanescentes e estabelecer uma política adequada de recuperação do muito que já foi perdido. A preservação ou mesmo restauração de áreas ciliares é de grande importância uma vez que as matas ciliares são estratégicas como possíveis corredores ecológicos, já que se recuperadas as matas ao longo de todos os cursos d’água, muito provavelmente a grande maioria dos fragmentos florestais estarão interligados. O primeiro projeto prático, intitulado “Projeto Águas – SP” dentro do conceito de agricultura sustentável, foi desenvolvido através de uma parceria entre a Bayer CropScience e a Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, em Piracicaba. O “Projeto Águas” tem como objetivo principal colaborar na orientação aos agricultores quanto a preservação dos corpos d’água existentes em suas propriedades. Essa orientação visa recuperar áreas degradadas, através do plantio de espécies nativas e frutíferas, e também conservar as áreas de preservação permanente, conforme consta da legislação brasileira, contribuindo assim para uma Agricultura Sustentável. Buscou-se uma fazenda de um cliente citricultor no estado de São Paulo (Fazenda São Pasquale, localizada no município de Iperó), na qual foi realizada como projeto-piloto a adequação ambiental de uma área em que a água (nascente) estava em fase de desaparecimento e em conseqüência disso comprometendo os demais reservatórios desta propriedade agrícola. A Bayer CropScience também já implementou um segundo projeto prático no Rio Grande do Sul, buscando a recuperação via reflorestamento da mata ciliar nas margens e encostas do Rio Pardinho, em propriedade agrícola localizada no município de Santa Cruz do Sul, onde, após o levantamento florestal visando a identificação das espécies de plantas presentes no entorno, foi realizada uma limpeza em decorrência do acúmulo de entulhos depositados na encosta do rio e o plantio de 1.500 mudas de espécies nativas. A implantação deste projeto está proporcionando um maior nível de proteção nesta faixa da encosta do Rio Pardinho e espera-se com isto que os demais produtores da região possam se sentir motivados a adotá-lo e assim ajudar na recuperação da bacia hidrográfica deste rio. Um terceiro projeto prático foi implementado em 2005 na Fazenda França, localizada no município de Itaberaí,GO, em parceria com a UFG – Universidade Federal de Goiás. Este projeto foi intitulado “Projeto Águas – GO”. Foram plantadas aproximadamente 19.000 mudas de espécies nativas, em áreas de preservação permanente, próximas a nascentes de demais corpos d’águas desta propriedade agrícola.

Desenrolar do projeto pioneiro

A Fazenda São Pasquale foi indicada pela Bayer CropScience Ltda para sediar a primeira etapa do Projeto Águas-SP, que consistiu na recuperação e adequação ambiental de uma área-piloto. Na primeira etapa desta adequação ambiental, assim como deve ocorrer em todos projetos desta natureza, realizou-se o levantamento florestal, ou seja, foi feita a identificação das espécies de plantas presentes no local, foram determinadas as distâncias mínimas entre as margens da lagoa e o início do cultivo e definiu-se a solução mais adequada para a recuperação da área em questão. O planejamento adequado permite que ocorra a perpetuação da floresta, isto é, que após o manejo inicial, ela seja auto-suficiente no seu desenvolvimento, processo no qual algumas plantas mais velhas vão morrendo e outras novas vão nascendo, numa substituição natural ao longo do tempo. Para tanto, a fazenda no município de Iperó, SP, foi percorrida pela equipe técnica do projeto em 2001, delimitando e avaliando os fragmentos florestais remanescentes, as áreas de preservação permanente e as de interesse ambiental (corredores ecológicos, áreas de baixa aptidão agrícola, etc.) inseri- dos nos 650 ha da propriedade. Com base neste trabalho foi selecionada a área para implantação do projeto e definidas as metodologias de restauração. Os objetivos eram: descrever as ações de restauração propostas e realizadas; diagnosticar o estado atual da área onde foi implantado o projeto de restauração na Fazenda São Pasquale, avaliando-se as diferentes metodologias usadas; definir as medidas de manutenção; e definir as ações complementares de restauração. Para selecionar a área-piloto optou-se por priorizar uma APP – Área de Preservação Permanente, próxima à sede da Fazenda São Pasquale, de nascente, de fácil acesso para visitantes e de forte caráter didático, pois apresenta duas situações ambientais. Todas as etapas realizadas foram registradas em vídeo. Foram retiradas algumas plantas cítricas, que se encontravam em local inadequado e em desacordo com o Código Florestal, que exige que se respeitem determinadas distâncias mínimas ao redor de qualquer fonte d’água, seja natural ou artificial. Os corpos d’água que usualmente existem numa propriedade rural são nascentes, córregos, rios, lagos, represas e açudes. Para preservar esses mananciais, é necessária a adoção de práticas adequadas de conservação do solo e manejo da área cultivada e, não menos importante, de conservação da vegetação do entorno desses mananciais. Geralmente, essa vegetação é uma floresta que está distribuída na forma de pestanas ao longo de um curso d’água, sendo comumente conhecida como floresta ciliar ou, nas áreas de cerrado, como floresta de galeria. No entanto, no lugar das árvores que compõem uma floresta, muitas vezes pode-se encontrar um campo úmido, que é uma vegetação nativa composta por ervas e arbustos. A vegetação nativa presente no entorno dos corpos d’água funciona como reguladora do fluxo de água, dos sedimentos e nutrientes entre os terrenos mais altos da bacia hidrográfica e o ecossistema aquático, desempenhando o papel de filtro entre as partes utilizadas pelo homem para a agricultura e a rede de drenagem. Nas áreas florestais, as copas das árvores interceptam e absorvem a radiação solar, contribuindo para a estabilidade térmica dos cursos d’água. Devido à sua importância na manutenção dos cursos d’água, e o seu papel como habitat para a fauna silvestre, é necessária e obrigatória por lei a conservação ou a revegetação dos campos e florestas nas margens dos cursos d’água. Em março de 2002 iniciou-se a restauração dos 2,2 ha de áreas com pomar e áreas abandonadas na cabeceira de uma nascente da Fazenda, sendo: 1,0 ha de pomar em APP e 1,2 ha de APP abandonada com capim. Foram introduzidas 3.000 mudas durante os meses de março e abril de 2002 e 1.000 mudas em outubro de 2002. Entre 2004 e 2005 foram plantadas mais 3.700 mudas, perfazendo um total de 7.700 mudas de diversas espécies nativas regionais.

Manejo da área-piloto

• Áreas abandonadas

Nas áreas abandonadas realizou-se uma gradagem leve para indução da regeneração natural e também já preparando o solo para o plantio integral de mudas em linhas de 3 x 2 m. Após um mês e meio a regeneração natural foi considerada insatisfatória, provavelmente devido ao uso prolongado de herbicidas, inviabilizando o banco de sementes do solo. Então foi feita a sulcagem do solo e o plantio de mudas nativas. O plantio foi feito manualmente, por funcionários da própria fazenda e supervisionado pela equipe do LERF – Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal, da Esalq.

• Áreas de cultivo de laranja

Nas áreas de pomar em APP foi concluída a primeira etapa, de plantio de mudas nas linhas, entre os pés de laranja, em espaçamento de 7 x 2 m, para substituição gradual do pomar pela floresta nativa. Alguns pés de laranja que estavam doentes foram arrancados. O preparo das áreas de pomar foi baseado em cultivo mínimo e consistiu de abertura de covas com enxadão, no espaçamento de 2 metros, alinhadas com as linhas do pomar e deslocados cerca de 0,5 m destas, para propiciar maior incidência luminosa sobre as mudas nativas. A segunda etapa de restauração das áreas com pés de laranja consiste no adensamento do plantio inicial, realizando-se o plantio de espécies nativas nas entrelinhas do pomar. Após 2 anos do primeiro plantio faz-se indução da regeneração natural e, caso a regeneração natural não seja significativa, mudas do grupo de preenchimento serão plantadas no meio do carreador, propiciando sombreamento mais rápido da área.

Avaliação das atividades

No momento do plantio, as mudas apresentavam portes médios de 40 cm, tendo sido plantadas na estação chuvosa ou irrigadas a cada dois dias durante 1,5 mês. O pegamento das mudas foi excelente, verificando- se mortalidade inferior a 3% nos dois primeiros meses. Foi realizada uma capina manual de coroamento no plantio, com raio de 70 cm ao redor de cada muda. Após 2 meses, o porte das mudas já estava em torno de 80 cm, verificando- se também uma intensa produção de folhas e ramos. O crescimento das mudas continuou rápido e, em geral, resistindo bem à seca, quando a mortalidade não passou de 5%. Em dezembro de 2004 o plantio se encontrava já bem desenvolvido, com árvores atingindo até 6,0 metros de altura e média em torno de 3,0 m. Em algumas áreas as árvores já sombreiam quase totalmente o solo e frutificam, principalmente nos locais onde foram realizados os plantios integrais. A maior parte das falhas ficou nas porções mais baixas do relevo, que ficam encharcadas durante uma parte do ano, e também nos taludes ao redor da represa, que apresenta um solo decapiado por ação antrópica, com exposição dos mais profundos, de baixa fertilidade e compactados. Em alguns pontos da área de plantio integral, a falta de manutenção da área, com controle de competidores (gramíneas agressivas), definiu uma mato-competição muito excessiva, prejudicando o desenvolvimento da muda e ainda aumentando a porcentagem de mortalidade dessas mudas. É interessante notar que a vegetação remanescente na área também se desenvolveu bastante, representando uma fonte de propágulos para a área em restauração e também como ponto de atração da fauna. A produção de frutos pelas mudas plantadas já está contribuindo para o desencadeamento do processo sucessional, atraindo a fauna que trás no regorjito e nas fezes sementes de espécies coletadas em fragmentos da região, que vão germinar, produzir plântulas e indivíduos jovens, substituindo as mudas plantadas, no momento de sua senescência daqui 10 ou 15 anos, e garantindo assim a perpetuação futura dessas áreas restauradas. Esse processo precisa ser ampliado para todos os trechos restaurados, através de plantio de poleiros naturais, colocação de artificiais (bambu ou outro) e manutenção adequada da área e à produção de plântulas de suas próprias sementes. O sucesso das intervenções na área é reflexo dos critérios observados na seleção de espécies, dos cuidados no plantio, da qualidade das mudas, da fertilidade do solo e, principalmente, do envolvimento do pessoal da fazenda, que pegou o projeto para si como uma forma de atuar sobre a produção local de água e conservação das espécies nativas na fazenda.

Condução complementar das áreas em processo de restauração

Na maior parte da área, que corresponde aos locais onde se fez o plantio integral de mudas em espaçamento 3 x 2 m, foi definida uma efetiva manutenção periódica da área (bimensal ou até mais freqüente no verão), com coroamento das mudas (60-80 cm de diâmetro) e controle de competidores nas entrelinhas, principalmente as gramíneas invasoras (colonião, braquiária etc.), associados com a condução da regeneração natural, que são os indivíduos nativos que vem aparecendo naturalmente no local e que devem ser alvo também do coroamento e limpeza, independente do número de regenerantes e da espécie. Tanto o controle de competidores como o coroamento das mudas pode ser feito de forma manual ou com herbicida. Essas áreas receberam um plantio de adensamento de espécies nativas, prevalecendo espécies de preenchimento, que são espécies iniciais da sucessão que apresentam rápido crescimento e boa cobertura, no número aproximado de 20 espécies, com alguns indivíduos de espécies de diversidade, que são espécies dos vários grupos ecológicos, mas sem aquelas características. Esse adensamento se fez necessário nos trechos onde, por falta de manutenção inicial das mudas (controle de competidores) e/ou por problemas de afloramento de subsolo nos cortes aterros (solo compactado de baixa fertilidade), houve algumas mortalidades de mudas. A escolha das espécies para o plantio de adensamento deveu-se às questões de adaptabilidade dessas espécies às características do local ou preparo adequado do solo, no momento do plantio. Nas áreas de pomar em APP, onde mudas foram plantadas sob os pés de laranja, realizou-se a complementação do plantio inicial, plantando espécies de preenchimento e de diversidade nas entrelinhas do pomar, que somadas às já plantadas anteriormente totalizou aproximadamente 80 espécies, que é o número mínimo recomendado para projetos de restauração no estado de São Paulo, conforme definido na Resolução 47 da Secretaria de Meio Ambiente, como previsto no projeto original. Realizou-se o sulcamento da entrelinha do pomar com trator, um sulco em cada entrelinha, onde foram introduzidas as mudas de nativas, no espaçamento de 2 m umas das outras. Nesse ato fez-se uma adubação de plantio dessas mudas, usando 100g/muda de N-P-K, na composição de 4-14-8 ou próxima. Apesar das mudas de nativas estarem muito bem desenvolvidas nessa área, o plantio de adensamento se fez necessário pelo fato da densidade inicial de plantio ter sido baixa, em função de terem sido preservados os pés de laranja do local, por determinação do proprietário e não ter sido permitido o plantio de nativas nas entre linhas do pomar, que impediriam no início a manutenção desse pomar. Este adensamento também contribuirá para a perpetuação futura da área. Nas áreas mais úmidas, onde o solo fica temporariamente encharcado, e que apresentam mato-competição excessiva, realizou se o plantio de mudas em morrotes, com espaçamento de 3 x 2 m, com abertura manual de covas e adubação conforme descrita acima. Novamente a escolha das espécies para o plantio de adensamento nessas áreas deveu-se às questões de adaptabilidade dessas espécies às características locais de encharcamento do solo. Todas as mudas plantadas por último e também aquelas já plantadas inicialmente, além das regenerantes naturalmente na área, devem ser coroadas com herbicida ou de forma manual com regularidade bimensal ou até menor no verão e também adubadas regularmente, com adubação de cobertura, na proporção de três adubações anual, usando adubos de composição N-P-K de 5-20-5 ou próxima. Recomenda-se também roçar as entrelinhas a cada três meses, de forma manual ou mecanizada, até que o sombreamento da área controle o vigor das gramíneas invasoras, o que pode demorar até 2 anos, se a área for devidamente conduzida ou mais. Outra ação que acelera o desenvolvimento da regeneração natural é a adubação das plântulas. Dessa forma, fica claro que a regeneração deve ser tratada como se fosse uma muda plantada, mas com custo bem inferior, já que não foi necessário produzir a muda e realizar o plantio.

Resultados práticos

As mudas de espécies nativas e frutíferas se encontram em pleno desenvolvimento vegetativo, comprovando que as espécies selecionadas com bastante critério são apropriadas para a recuperação do local. As práticas agrícolas que estavam sendo realizadas de forma inadequada foram substituídas e bosques estão se formando para a recuperação das águas naqueles locais. A biodiversidade do local também já vem apresentando enormes ganhos, visto que várias espécies de aves já estão freqüentando o local. Foram disponibilizados cerca de 10 mil “Manuais de Orientação” e 1,5 mil fitas de vídeo com imagens e informações sobre o desenvolvimento do projeto prático de SP. A divulgação através da Bayer CropScience em todo país, tem trazido ótimos resultados. Após a veiculação sobre os projetos em revistas e na mídia, em geral, agricultores de diversas regiões do Brasil entraram em contato com a empresa, buscando informações complementares para iniciar a implantação de projetos similares em suas respectivas propriedades rurais.

Última atualização ( Qua, 05 de maio de 2010 10:08 )

Fonte: http://www.agrofit.com.br/portal/citros/56-citros/139-preservar-para-nao-faltar