Manejo

Plantas daninhas

Autor(es): Raffaella Rossetto ; Antonio Dias Santiago

As plantas daninhas habitam espontaneamente áreas de cultivo sem produção de alimentos ou fibras. Seu alto grau de interferência no desenvolvimento das plantas vizinhas e a concorrência por recursos naturais (água, luz e nutrientes do solo) fazem das plantas daninhas a grande vilã das lavouras.

Os ambientes ideais para o desenvolvimento das principais culturas agrícolas são também propícios para as plantas daninhas, que se adaptam facilmente aos ambientes que apresentam estresse hídrico, alta umidade, temperatura e fertilidade desfavoráveis, elevada salinidade e excessiva acidez ou alcalinidade.

A alta resistência às adversidades externas é o principal fator para a propagação dessas plantas, que causam: redução da produção agrícola; manifestação de alergia e intoxicação do homem e de animais; infestação de áreas não agrícolas; infestação de canais de irrigação e danos a implementos agrícolas.

Controle

As plantas daninhas podem ser eliminadas por três grandes grupos de controle: mecânico, químico e cultural. Estes controles apresentam vantagens e limitações e demandam o uso simultâneo de, no mínimo, duas práticas complementares.

Controle mecânico

Pode ser realizado manualmente, com a utilização de tração animal, ou através de tratores para o preparo do solo. Essa prática requer muito cuidado na escolha do implemento a ser utilizado, o qual deverá ser adequado ao tipo de cultivo e às plantas daninhas que deverão ser retiradas. A enxada é uma boa opção para o controle de plantas daninhas após o plantio da cultura, sendo utilizada, principalmente, em pequenas áreas. Durante o uso da ferramenta, deve-se ficar atento à profundidade da capina, que deve ser superfícial para não atingir as raízes das plantas.

Controle químico

O controle químico é realizado com o uso de herbicidas (Figura 1) que, aplicados em doses corretas, matam ou retardam o crescimento das plantas daninhas. As vantagens do controle químico são a economia de mão-de-obra e a rapidez da aplicação dos herbicidas.

Fig. 1. Aplicação de herbicida sobre a palhada.
Foto: Raffaella Rossetto.

Para que o resultado seja satisfatório, além de utilizar o herbicida mais apropriado às plantas daninhas (Tabela 1), antes da aplicação, o produtor deve se preocupar com outros detalhes, como: regular corretamente o aparelho de pulverização; não aplicar herbicidas pós-emergentes imediatamente após muita chuva; não aplicar herbicidas com ventos acima de oito quilômetros por hora nem mesmo com o uso de bicos específicos para a redução da deriva; aplicar o herbicida em ambiente com umidade relativa superior a 60%; não aplicar quando as plantas daninhas estiverem sob estresse hídrico e escolher o bico recomendado pelo fabricante do produto a ser aplicado.

Tabela 1. Herbicidas utilizados para controlar as plantas daninhas da cana-de-açúcar, com o manejo tradicional de
queima da palhada.
Fonte: Blanco (2003).

Desde a década de 1920, os produtores rurais utilizam os herbicidas. O seu uso em larga escala selecionou plantas daninhas mais resistentes, o que demandou a formulação de novos compostos químicos. Em função disso, surgiram diversos impactos ambientais. O modo de manuseio e o descarte das embalagens dos herbicidas também causam preocupação aos ambientalistas. Algumas precauções devem ser tomadas durante a aplicação do produto, como:

  • utilizar herbicidas devidamente registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e cadastrados na Secretaria de Agricultura do Estado. O número do registro deve constar no rótulo do produto;
  • usar equipamento de proteção individual (EPI) em todas etapas de manuseio do herbicida – abastecimento do pulverizador, aplicação e lavagem de equipamentos e embalagens;
  • não misturar herbicidas nos tanques. Esse procedimento é proibido por lei (Instrução Normativa do Mapa nº 47, de 07/2002). Somente é permitida a utilização de misturas formuladas;
  • a aplicação de herbicidas de pós-emergência requer o cumprimento do período de carência do produto;
  • o rótulo e a bula devem ser lidos com bastante atenção. As orientações para descarte das embalagens devem ser observadas;
  • após a tríplice lavagem das embalagens de produtos líquidos, deve-se entregá-las no posto de recebimento indicado na nota fiscal de compra em até um ano após a compra do produto, conforme prevê legislação do Mapa (Lei 9.974/2000 e Decreto 4.074/2002).
Os gastos com defensivos agrícolas são estimados em 8% do custo total da produção.

Controle cultural

Realizado corretamente, o controle cultural possibilita o desenvolvimento vigoroso da cana, que passa a competir de igual para igual com as plantas daninhas. Esse procedimento evita o uso indiscriminado de agrotóxicos e preserva o meio ambiente.

As formas mais importantes de controle das plantas daninhas são: preparo adequado do solo antes do plantio; utilização de variedades adaptadas às condições locais e resistentes às plantas daninhas; correta densidade de plantio para evitar a formação de um ambiente propício às plantas invasoras e rotação de culturas para dificultar a seleção de espécies.

Manejo integrado de plantas daninhas

O manejo integrado de plantas daninhas (MIPD) é um conjunto de procedimentos adotados para controlar as plantas invasoras. Bastante eficaz, o MIPD deve ser realizado antecipadamente, unindo os métodos de controle mecânico, químico e cultural. Especialistas defendem que a associação de, no mínimo, dois métodos garante o controle das plantas daninhas e diminui a agressão ao meio ambiente.

Os cuidados abaixo podem ser associados ao uso de herbicidas no controle de plantas daninhas: antes da aplicação de herbicidas, o solo não deve conter torrões; o solo deve ser preparado após a primeira chuva. Recomenda-se aplicar, em seguida, herbicidas pré-emergentes com maior espectro de ação; o período residual do produto deve ser considerado.

Recomenda-se antes da aplicação de herbicidas que o solo tenha sido bem preparado, de preferência logo após as primeiras chuvas, devendo ainda ser observado o período residual do produto aplicado.

A cana de ano e meio passa por um período de seca, e o seu crescimento é interrompido, voltando a crescer somente quando as chuvas retornam. As plantas daninhas voltarão ao canavial se o herbicida não possuir um período residual que acompanhe a fase de parada e de retorno de crescimento; o produtor deve considerar que os grupos de plantas daninhas variam conforme a época do ano. Isso facilita a escolha do herbicida mais apropriado.

O cultivo de cana de ano nos períodos quentes e chuvosos propicia o surgimento de gramíneas. Nos períodos de condições climáticas inversas é comum o desenvolvimento de plantas daninhas com características diferentes. Recomendam-se as precauções a seguir: o produtor deve conhecer o tipo de solo antes de aplicar o herbicida.

A ação e a retenção do produto pelas frações constituintes do solo dependem dos fatores como:

  • o pH da terra;
  • os herbicidas mais solúveis são indicados para o plantio da cana de ano-e-meio, geralmente cultivada em períodos com menor disponibilidade de água;
  • seletividade do herbicida em relação à variedade de cana;
  • o produtor deve conhecer o tempo de retenção do herbicida no solo, havendo a necessidade de reaplicação do produto na cana-soca;
  • evitar a concentração excessiva do herbicida no solo.

A rotação de herbicidas é altamente recomendada, pois a repetição de uso causa a seleção das plantas daninhas resistentes e culmina na ineficácia do herbicida.

As plantas daninhas nos canaviais

O desenvolvimento das plantas depende da interação de fatores vivos (bióticos) e não-vivos (abióticos). Dos fatores bióticos, a interação da cana-de-açúcar com plantas daninhas é uma das causas mais freqüentes na interferência no crescimento e na produtividade. As plantas daninhas provocam problemas que chegam a elevar em até 30% o custo de produção da cana-de-açúcar.

As principais interferências negativas das plantas daninhas nos canaviais são:

  • competição com a cana-de-açúcar por água, luz, oxigênio, gás carbônico e nutrientes existentes nos solo;
  • liberação de substâncias alelopáticas, que agem bioquimicamente na cultura da cana-de-açúcar e comprometem o seu desenvolvimento;
  • podem atuar como hospedeiros de doenças e pragas que prejudicam o desenvolvimento dos canaviais.

Um desses componentes já é capaz de desencadear a redução na quantidade de colmos colhidos e, muitas vezes, tornar a manutenção da cultura impraticável.

O surgimento das plantas daninhas chegam a provocar perdas de até 85% no peso dos colmos das plantas. A sua interferência é mais crítica quando ocorrem durante as primeiras etapas de desenvolvimento da cana, sobretudo na germinação da cana-planta ou da soqueira.

Principais plantas

Existem aproximadamente mil espécies de plantas daninhas espalhados pelos canaviais em todo o mundo. Algumas delas se destacam pela ocorrência e pela severidade dos danos que causam. As principais espécies de plantas daninhas que atuam nos canaviais são: corda-de-viola (Ipomoea spp.) (Figura 2), capim-marmelada (Brachiaria plantaginea) e capim-colchão (Digitaria horizontalis).

Fig. 2. Canavial infestado por corda-de-viola.
Foto: Raffaella Rossetto.

A relação com as queimadas

A amplitude térmica das queimadas dificulta a germinação das sementes de plantas daninhas. Num futuro próximo, as queimadas da cana deverão ser legalmente abolidas. Essa nova realidade desenvolverá um ambiente propício para o surgimento de outras espécies de plantas daninhas e demandará o desenvolvimento de novos métodos de controle.

Fonte consultada:

BLANCO, F. M. G. Controle das plantas daninhas na cultura da cana-de-açúcar. In:REUNIÃO ITINERANTE DE FITOSSANIDADE DO INSTITUTO BIOLÓGICO, 9., 2003, Catanduva. Anais. [São Paulo]: Instituto Biológico, 2003. p. 83-89.

http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/cana-de-acucar/arvore/CONTAG01_52_711200516718.html