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Produção de peixes em tanque rede e qualidade de água

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A produção de tilápias em tanques-rede é uma modalidade de piscicultura em expansão no estado de São Paulo, devido à disponibilidade de grandes áreas alagadas. A criação em tanques-rede libera, direto no ambiente, resíduos constituídos pelo alimento não ingerido e produtos do metabolismo dos peixes. Estes resíduos aumentam o aporte de nitrogênio e fósforo na água, eutrofizando o ambiente. A eutrofização, quando acentuada, causa à deterioração da qualidade da água, comprometendo a estabilidade do ecossistema aquático. O objetivo do trabalho é avaliar as alterações das variáveis físicas, químicas e biológicas da água e relacioná-las com o sistema de produção de tilápias em tanques-rede no reservatório de Nova Avanhandava, no Noroeste paulista, A amostragem da água foi realizada mensalmente em três pontos, sendo um a montante da área da piscicultura, outro no ponto central e o último a jusante. De forma geral, os valores médios das variáveis avaliadas, em todos os pontos e em todas as pisciculturas, permaneceram abaixo dos valores padrões de qualidade de água recomendado pelo CONAMA resolução nº 357/2005 para corpos de água doce classe I. No entanto, observou-se uma tendência no aumento da condutividade e a presença de picos eventuais de nutrientes (amônia, nitrato e fósforo) em todos os pontos amostrados no período do inverno (com menor índice pluviométrico). A continuidade dos estudos possibilitará verificar os impactos causados por esta atividade no ambiente e a sua autodepuração.

Palavras-chave: Aqüicultura, tanque-rede, tilápia, reservatório, qualidade de água.

Margarete Mallasen, Helenice Pereira de Barros, Eduardo Yogo Yamashita

Zootecnista, Doutora, Pesquisadora Científica, Instituto de Pesca – APTA, Caixa Postal 1052, CEP 15025-970, São José do Rio Preto – SP. maga@pesca.sp.gov.br Bióloga, Doutora, Pesquisadora Científica, Instituto de Pesca – APTA. Zootecnista, Geneseas Aquacultura Ltda.

Apoio: ANPAP-Associação Nacional de Piscicultura em Águas Públicas.

A expansão de empreendimentos de criação de peixes que se utilizam de tanques-rede tem contribuído significativamente para o aumento da produção aqüícola paulista. O interesse por esse sistema de piscicultura cresce, principalmente, em função da disponibilidade dos recursos hídricos represados, oriundos da construção das usinas hidrelétricas, e do maior volume de produção, garantindo quantidade e regularidade que o mercado exige.

Os reservatórios artificiais têm sido utilizados para múltiplas finalidades, dentre elas a produção de alimento por meio da piscicultura (TUNDISI, 2005), tornando-os ambientes de grande importância em termos sociais e econômicos . Nos reservatórios da região do Noroeste paulista, a criação de tilápia em tanque-rede encontra-se em pleno desenvolvimento. A tilápia é o peixe mais utilizado neste sistema de criação por apresentar crescimento rápido, adaptação favorável as altas densidades de povoamento, bom rendimento de filé e ter uma ampla aceitação nos mercados nacional e internacional.

A criação de peixes em tanques-rede é uma modalidade de criação intensiva que utiliza elevada densidade de estocagem e exige constante renovação de água. Os resíduos gerados, constituídos por alimentos não ingeridos e produtos do metabolismo dos peixes, são liberados diretamente no ambiente, aumentando principalmente a concentração de nitrogênio e de fósforo na água, que favorecem a proliferação de organismos vegetais como as algas e plantas aquáticas. Este processo é chamado de eutrofização artificial.

A eutrofização exagerada leva a uma deterioração da qualidade da água, podendo ocasionar profundas modificações na estrutura das comunidades aquáticas comprometendo, assim, a estabilidade do ecossistema (FERREIRA et al., 2005).

Ambientes muito eutrofizados são adequados para o desenvolvimento de um grupo de algas conhecidas como cianofíceas, popularmente chamadas de “algas azuis”, ou cianobactérias, muitas das quais liberam toxinas (SANT’ANNA et al., 2006) prejudiciais à saúde, e outras que produzem metabólitos como a geosmina e o 2-metil-isoborneol, identificados como causadores de sabor ou odor de terra ou mofo na carne do peixe, conhecido como “off-flavor” (MACEDOVIÉGAS e SOUZA, 2004). A alta concentração dessas algas prejudica a qualidade da carne do pescado e, conseqüentemente, o consumo, causando marketing negativo em relação ao peixe proveniente da criação. Portanto, o processo acentuado de eutrofização pode inviabilizar o próprio empreendimento.

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Figura 1. Localização das pisciculturas com tanques-rede estudadas no reservatório de Nova Avanhandava (Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê).

Figura 2. Vista aérea da piscicultura 1 com tanques-rede no reservatório de Nova Avanhandava. Foto cedida pela Empresa Tilápia do Brasil.

A piscicultura em tanques-rede é uma atividade relativamente recente no Brasil e poucos são os estudos sobre os impactos causados nos recursos hídricos. Desta forma, o Centro de Pesquisa do Pescado Continental do Instituto de Pesca – APTA vem realizando pesquisas com o acompanhamento da qualidade da água em áreas com produção de tilápias em tanques-rede. .

Um destes trabalhos foi realizado em quatro pisciculturas (Figuras 1 e 2), filiadas à Associação Nacional de Pisciculturas em Águas Públicas (ANPAP), e que produzem tilápias em tanques-rede no reservatório da Usina Hidrelétrica Nova Avanhandava, na Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê. As pisciculturas

3 possuem de 120 a 400 tanques-rede de 18 m (Figura 3), e adotam densidade de estocagem média de 70 kg de

3 peixes/m. O teor protéico da ração varia de acordo com a fase de desenvolvimento dos peixes, entre 30 a 40% de proteína bruta (PB), porém a ração mais utilizada contém 32% de PB.

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Figura 3. Tanque-rede utilizado nas pisciculturas estudadas com volume de 18 m.

Nas pisciculturas, foram estabelecidos três pontos de coleta, sendo um a montante da área da piscicultura, outro no ponto central e o último a jusante. Avaliou-se o comportamento das características físicas, químicas e biológicas da água coletada mensalmente, durante um ano. A água dos pontos a montante e a jusante foram analisadas com o objetivo de comparar os parâmetros dessa antes e depois do impacto da criação, indicando a qualidade da água do reservatório e a capacidade de depuração da mesma após receber os nutrientes provenientes do processo produtivo.

As amostras de água foram coletadas no período da manhã, a 1,0m de profundidade com auxílio da garrafa coletora. As variáveis da água medidas no local foram: temperatura, oxigênio dissolvido, transparência, condutividade elétrica e pH. Em laboratório foram analisados os teores de nitrogênio total, amônia, nitrito, nitrato, fósforo total, clorofila “a” e material em suspensão.

A avaliação dos resultados e seu comportamento no decorrer do período monitorado pode trazer subsídios para adequação técnica de manejo em tanques-rede a curto e longo prazo, assegurando boa produtividade aliada ao baixo impacto ambiental. Além disso, é uma importante ferramenta para o gerenciamento da produção, que poderá ser utilizada na determinação da capacidade de suporte das áreas estudadas e auxiliar na demarcação dos parques aqüícolas.

A exploração racional e plena do potencial aqüícola dependerá do desenvolvimento de métodos de produção mais efetivos do ponto de vista econômico e ambiental (QUEIROZ e KITAMURA, 2001). Assim, os resultados desse estudo podem trazer informações para o desenvolvimento de um plano de ordenamento do uso racional da água e da criação de peixes em tanquerede em águas públicas, considerada uma das medidas essenciais para a expansão da aqüicultura de forma ordenada e ambientalmente sustentável (KUBO, 2005).

Os resultados obtidos estão sendo analisados, mas de forma geral os valores médios das variáveis avaliadas em todos os pontos e em todas as pisciculturas estudadas permaneceram abaixo dos valores padrões de qualidade de água recomendado pelo CONAMA resolução nº 357/2005 para corpos de água doce classe I. No entanto, observou-se uma tendência no aumento da condutividade e a presença de picos eventuais de nutrientes (amônia, nitrato e fósforo) em todos os pontos amostrados no período do inverno (com menor índice pluviométrico). Durante o período mais seco do ano, as hidrelétricas fecham algumas comportas para manter o nível das represas e, portanto, o tempo de retenção ou residência da água no ambiente é maior. A diminuição do fluxo de água provavelmente minimiza a diluição dos nutrientes, podendo ocorrer picos de concentração dos mesmos em toda área alagada. Segundo HENRY (2004), as represas apresentam tempos de residência (volume/vazão da água) muito distintos nas diferentes épocas do ano.

O fato de terem sido observados teores elevados de nutrientes em todos os pontos de amostragem pode indicar que não somente as pisciculturas em tanques-rede, mas outras atividades agropecuárias e/ou urbanas ao redor da represa podem estar influenciando na presença destes nutrientes na água. Os reservatórios recebem, continuamente, água de seus tributários e, em conseqüência, sedimento e nutrientes provenientes de toda bacia de drenagem. Segundo ROTTA e QUEIROZ (2003), na maioria dos casos, as alterações dos parâmetros físicos e químicos de qualidade de água são decorrentes das atividades desenvolvidas nas áreas adjacentes aos reservatórios, como por exemplo, a existência de resíduos agroquímicos provenientes das atividades agropecuárias e de aporte de matéria orgânica e resíduos urbanos das cidades localizadas na região.

Durante o ano, em função das alterações de vazão de água dos tributários, decorrentes do regime de precipitação nas bacias de drenagem, ocorrem modificações nos tempos de residência e nas taxas de renovação de água (HENRY, 2004). Isto pode prejudicar a diluição dos nutrientes vindos do sistema de piscicultura em tanques-rede e, conseqüentemente, a capacidade de suporte ou a máxima biomassa sustentável dentro de uma unidade de criação pode ser diferente nas épocas de verão (chuvosa) e inverno (seca).

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Figura 4. Fornecimento de ração no tanque-rede.

Desta forma, torna-se imprescindível o acompanhamento das variáveis limnológicas durante o ano para observar possíveis flutuações destas na área de criação e possibilitar ações para mitigar os impactos negativos. Dentro destas ações, pode-se destacar a redução na densidade de estocagem e o monitoramento do manejo alimentar (controle da quantidade de alimento fornecido) com acompanhamento diário do teor de oxigênio dissolvido na água, principalmente antes do fornecimento de ração. (Figura 4).

Este monitoramento deve ser adotado pois, faz parte das Boas Práticas deManejo (BPMs) preconizadas por diversos estudiosos do assunto. A aplicação das BPMs pelo produtor pode valorizar o produto final, pois, alem de ter maior facilidade de aceitação de seu produto no mercado nacional e internacional, certamente obterão uma matéria prima de maior qualidade em termos de sabor.

O ponto central das áreas das pisciculturas é o local que recebe diariamente um aporte considerável de matéria orgânica proveniente de restos de ração e excretas dos peixes. Durante a degradação desta matéria orgânica na água há um consumo do oxigênio dissolvido e a liberação de produtos que favorecem o processo de eutrofização. No entanto, nesse ponto, o intervalo dos valores médios de oxigênio dissolvido obtido no período de um ano (6,0 a 8,1 mg/L) ficou dentro do recomendado pelo CONAMA resolução nº 357/2005 (acima de 5,0 mg/L) e as faixas dos teores médios de nitrogênio total (0,59 a 0,75 mg/L) e fósforo total (0,02 a 0,04 mg/L) ficaram abaixo do indicado pela resolução (2,18 mg/L e 0,05 mg/L, respectivamente.

A montante, os intervalos dos valores de oxigênio dissolvido (6,7 a 8,5 mg/L), nitrogênio total (0,58 a 0,69 mg/L) e fósforo total (0,01 a 0,04 mg/L) também ficaram dentro do recomendado pelo CONAMA. O mesmo foi observado no ponto a jusante das pisciculturas, onde os resultados obtidos foram de 7,4 a 8,4 mg/L de oxigênio dissolvido, 0,56 a 0,74 mg/L de nitrogênio total e de 0,01 a 0,04 mg/L de fósforo total.

Dessa forma, podemos ressaltar que, durante o período de acompanhamento, as pisciculturas não produziram carga poluidora que pudesse causar algum problema na qualidade da água do reservatório em relação a estas variáveis.

No entanto, o acompanhamento freqüente da qualidade de água e do manejo alimentar, principalmente na época com menor renovação de água nas represas, são ações importantes para avaliar o comportamento do ambiente aquático frente a presença dos tanques-rede e, assim, evitar impactos negativos,conduzindo a atividade de forma ecologicamente correta.

FERREIRA, R.A.R.; CAVENAGHI, A.L.; VALINI, E.D.; CORRÊA, M.R.; NEGRISOLI, E.; BRAVIN, L.F.N., TRINDADE, M.L.B.; PADILHA, F.S. 2005 Monitoramento de fitoplâncton e microcistina no reservatório da UHE Americana. Planta Daninha, Viçosa, 23(2): 203-214.

HENRY, R. 2004 A variabilidade de alguns fatores físicos e químicos da água e implicações para amostragem: estudos de caso em quatro represas do estado de São Paulo. In: BICUDO, C. M.; BICUDO, D.C. Amostragem em limnologia. São Carlos: RiMa. P.245-262.

KUBO, E. 2005 Tanque-rede é opção para produção continental de peixes. Disponível em: http://w.pesca.sp.gov.br/. Acesso em: 15 de out. 2005.

MACEDO-VIÉGAS, E.M. e SOUZA, M.L.R. 2004 Préprocessamento e conservação do pescado produzido em piscicultura. In: CYRINO, J.E.P.; URBINATI, E.C.; FRACALOSSI, D. M.; CASTAGNOLLI, N. Tópicos especiais em piscicultura de água doce tropical intensiva. São Paulo: Tecart. p.406-480.

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Elaborada pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA)

Fonte: http://www.ebah.com.br/content/ABAAABbS8AF/producao-peixes-tanque-rede-qualidade-agua