Pesca

Piscicultura – Espécies Criadas

Nome português regional Nome científico Nome em tukano Nome Baniwa
Aracu-riscado Leporinus agassizii Nîtîmaritigu botéa
Aracu-três-pintas Leporinus friderici Nîtîperitigu botéa Táali
Aracu-quatro-pintas Leporinus klausewitzi Yuku botéa Doóme
Araipirá Chalceus macrolepidotus Di’ parea Dópali
Jundiá-preto Rhandia cf. laukidi Pawá Dawáki
Jundiá-amarelo Rhandia sp. Saí
Acará verdadeiro Aequidens sp.1, sp.2 Warî Dzawíra
Acará trovão Satanoperca jurupari Bupó Dzawáto
Acará-pintado Heros sp. Nimatu Eeríto
Acará-bauari Mesonauta insignis Duputithero Mháitaro

O Aracu-riscado (Leporinus agassizi Steindachner, 1876) é a maior espécie do gênero Leporinus ocorrente na bacia do Alto Rio Negro, atingindo mais 40,0 cm de comprimento e 1,6 kg de peso, podendo ser considerado um dos principais recursos pesqueiros no alto Rio Negro, rio Uaupés e Tiquié. Migrador de longo percurso, habita principalmente os grandes rios, onde se reúnem em densos cardumes durante a época de reprodução que, dependendo do regime das chuvas, pode se estender de dezembro até maio. As desovas ocorrem sempre na calha do rio, a partir do início da noite, quando os machos passam a “cantar” sincronicamente. Os óvulos são pequenos, com diâmetro inferior a 2 mm, de coloração ligeiramente azul-esverdeada, hidratando-se fortemente logo após o contato com a água. O hábito alimentar é onívoro, consumindo folhas, flores, frutos, sementes, insetos, vermes e até pequenos peixes. Embora não possa ser considerada uma espécie rústica e dócil, já que as matrizes e os reprodutores selvagens são bastante sensíveis ao manejo é, entre os aracus da região, o peixe que apresenta maior fecundidade e melhor potencial de crescimento em cativeiro, pois uma fêmea de 1 kg pode produzir cerca de 100.000 óvulos, não havendo grandes diferenças de tamanho entre os sexos. A primeira maturação sexual das fêmeas em geral ocorre depois de completados dois anos e a dos machos após cerca de um ano e meio de idade. Dentre as espécies do gênero, este é o peixe de maior destaque no Alto Tiquié (Estação Caruru). Quase não ocorre na bacia do Rio Içana.

O Aracu-três-pintas (Leporinus friderici Bloch, 1794) é uma espécie de médio porte, sendo que as maiores fêmeas atingem no máximo 40 cm de comprimento e 1,2 kg de peso. Desempenha papel secundário nas pescarias do Alto Rio Negro, já que sua abundância relativa parece ser bem menor que a do aracu-riscado. Migrador de pequeno percurso, habita principalmente as cabeceiras dos igarapés, de onde descem e se reúnem em cardumes médios durante a época de reprodução, que é mais curta nos meses de abril e maio. As desovas ocorrem sempre durante o início da tarde, com casais espalhados junto a pequenas quedas d’água ou igapós rasos recém formados pelas chuvas. Seus óvulos são pouco maiores que os do aracu-riscado (2 mm em média), possuem coloração ligeiramente amarelada e também se hidratam fortemente. O hábito alimentar é igualmente onívoro, alimentando-se desde plantas até pequenos peixes. Pode ser considerada a espécie mais rústica e dócil de todos os aracus em relação ao manejo em cativeiro, sendo sua reprodução induzida com aplicação de injeções de hormônios, relativamente fácil. Porém esta espécie não apresenta o mesmo potencial de crescimento e prolificidade quando comparada ao aracu-riscado. Isto se deve ao fato de haver um crescimento bastante diferenciado entre os sexos devido à idade de primeira maturação sexual ser bem mais precoce para os machos desta espécie. Uma fêmea de 1 kg pode desovar no máximo cerca de 80.000 óvulos. Dentre as espécies do gênero Leporinus da região, este peixe é o que mais se destaca na bacia do médio e alto Içana. Ocorrem poucos no alto Rio Tiquié e é um peixe bastante raro no rio Uaupés.

O Aracu-quatro-pintas ou aracu-de-pau, (Leporinus klausewitzi Géry, 1960) recebe popularmente esse nome (aracu-de-pau) por habitar principalmente áreas alagadas de igarapés e igapós de densa vegetação aquática. Espécie de menor porte, seu tamanho raramente ultrapassa 30 cm e 700 g de peso, sendo que as fêmeas invariavelmente são bem maiores que os machos. Reúnem-se em cardumes durante as épocas de desova (piracemas), as quais ocorrem entre abril e maio, no início da tarde a partir das 14 horas, com os casais espalhados pelos igapós recém formados pelas chuvas. Os ovos são grandes (com diâmetro superior a 2 mm), de coloração fortemente alaranjada. Os reprodutores e matrizes selvagens (provenientes do rio) não são dóceis e nem rústicos, não correspondendo satisfatoriamente aos tratamentos de indução hormonal, mas as matrizes formadas a partir de alevinos produzidos em cativeiro apresentam-se bem mais adaptadas ao manejo, havendo respostas muito mais positivas aos tratamentos. Embora seu crescimento em viveiros seja lento, os alevinos são bastante rústicos e os ovos são de fácil obtenção durante as piracemas, especialmente no rio Uaupés. Uma fêmea de 700 g. pode desovar no máximo 30.000 óvulos. É a espécie do gênero Leporinus de maior destaque nas bacias dos rios Uaupés e Içana.

O Araripirá (Chalceus macrolepidotus Cuvier, 1819) é um peixe de pequeno porte, que raramente ultrapassa 25 cm e 400 g de peso. Apesar de apreciado como alimento pela população local, é uma espécie bastante valorizada em aquariofilia Sua reprodução artificial foi realizada pela primeira vez com exclusividade pela equipe de técnicos indígenas da Estação Caruru em 2.002. Apresenta boas vantagens para a piscicultura extensiva com fins alimentares, pois além de haver grande facilidade na obtenção de ovos durante as piracemas, que geralmente ocorrem em locais bastante próximos das estações de piscicultura, possui crescimento mais acelerado em conseqüência de um ciclo de vida mais curto e uma hábito alimentar menos restrito em termos de tamanho de partícula (pois possui boca grande) em comparação com os aracus. É uma boa espécie alternativa para o sistema de policultivo em razão de não competir por alimentação com os demais peixes: contrário aos aracus, estes peixes são insetívoros por excelência, estando sempre voltados para a superfície, chegando a saltar fora d’água para capturar insetos em pleno vôo.

Os bagres Jundiá-amarelo (Rhandia sp.) e Jundiá-preto (Rhandia laukidi Bleeker, 1858) são peixes de médio porte que podem atingir mais de 40 cm de comprimento e até cerca de 1,7 kg de peso. Possuem grande valência ecológica, ocupando os mais variados nichos, podendo ser encontrados desde a calha dos grandes rios, em poços profundos, até pequenos igarapés, lagos, igapós, ou mesmo a jusante ou montante de pequenas ou grandes cachoeiras. Peixes de hábitos principalmente noturnos, realizam suas desovas com casais espalhados em locais rasos no igapó, durante a noite até a madrugada, em horários indefinidos até o momento, o que tem impossibilitado a obtenção de ovos nessas ocasiões. Por outro lado, tratam-se de espécies relativamente rústicas e extremamente dóceis ao manejo, respondendo bem aos tratamentos de indução à ovulação com aplicação de injeções de hormônios.

Peixes adultos suportam transporte com baixos volumes de água em altas densidades por períodos prolongados, mas os alevinos não são capazes de tolerar níveis de oxigênio dissolvido inferiores que 2,0 mg/l, sob o risco de ocorrerem grandes mortalidades. Apresentam por outro lado o inconveniente de serem canibais nas primeiras fases de vida e fugitivos em relação a ambientes de cultivo onde não são alimentados com a devida frequência e que não apresentem dispositivos de segurança apropriados junto às saídas de água, possuindo a capacidade inclusive de fazer pequenos “passeios” fora da água, até mesmo durante o dia. Por reunirem algumas características zootécnicas bastante desejáveis à seleção de espécies ideais para piscicultura, tais como docilidade, rusticidade, hábito alimentar onívoro (alimentam-se praticamente de quaisquer materiais orgânicos que caibam em sua boca), podendo inclusive consumir alimento artificial desde a primeira alimentação, máximo aproveitamento de filé (cabeça pequena, ausência de escamas e ossos intramusculares), carne saborosa e extremamente valorizada pela população regional, acredita-se que estas espécies sejam das mais promissoras para a piscicultura regional.

Os acarás verdadeiros (Aequidens sp.1. e sp.2.), trovão (Satanoperca jurupari Heckel, 1840) e bauari (Mesonauta insignis Heckel, 1840) são peixes de pequeno porte, raramente ultrapassando 150 g de peso, porém de grande rusticidade, reproduzindo-se naturalmente nos viveiros de duas até três vezes ao ano. Nidificam e protegem seus filhotes, o que lhes confere grandes taxas de sobrevivência dos alevinos. Possuem grande valência ecológica ocupando os mais diversificados nichos. Apesar de serem consideradas espécies indesejadas na maioria das pisciculturas comerciais, são importantes para a piscicultura na região por serem sustentáveis apresentando inclusive grande capacidade de predar larvas de Díptera, ajudando dessa forma a evitar o desenvolvimento de doenças transmitidas por estes insetos. Devido sua grande prolificidade, o excesso de produção de alevinos serve inclusive de alimento natural para os peixes principais como os aracus e os jundiás.

O Acará-pintado (Heros sp.) também é uma espécie de grande importância para a piscicultura na região pelos mesmos motivos dos demais acarás, sendo que apresenta porte mais avantajado alcançando cerca de 500 g de peso. Por esse motivo sua saborosa carne é muito apreciada na região. Habita preferencialmente lagos e igapós. Pode reproduzir-se durante o ano todo, mas possui picos reprodutivos durante os meses de março e abril. Nidificam e protegem os alevinos, sendo igualmente exímios comedores de insetos.

Fonte: http://www.socioambiental.org/pisci/especies.shtm