Pesca

Alimentação

A alimentação dos peixes é um fator extremamente importante em um projeto de piscicultura. Muitos piscicultores caseiros pensam que piscicultura é só construir um viveiro para criação de peixes e não fazem muito esforço para alimentá-los, fazendo com que cresçam muito pouco. Porém, como os peixes são criados em uma área pequena demais para encontrarem comida suficiente, assim como todos os animais criados em cativeiro, o piscicultor é quem deve arcar a responsabilidade de fornecer-lhes alimentação.

É neste ponto onde entra a atuação do Manejo Agroflorestal: para que os peixes cresçam, é preciso procurar plantas ou animais que possuam bastante proteína e cultivá-los ou criá-los de modo a garantir sua alimentação durante todo o ano. Na natureza, durante as enchentes, quando o rio transborda, os peixes do Rio Negro entram no igapó, onde encontram frutas e insetos, que formam a base de sua alimentação – os meses de “verão”, quando o rio está baixo, correspondem aos meses de jejum. Já para os peixes dos viveiros, a melhor produção atingida é com a ração comercial – num experimento com o Aracu riscado realizado em 2001 na Estação Caruru (Alto Tiquié), onde ela foi utilizada, a produtividade estimada ficou em cerca de 3.000 kg por ha/ano, ou seja, 300 g/m². Isto equivale, num viveiro de tamanho médio de 240 m², a uma produção anual de mais ou menos 70 kg por ano.

Porém, com exceção de Iauareté, onde o preço do pescado é alto e o piscicultor ainda pode lucrar comprando sacos de ração para usar como alimento, o insumo, assim como o seu transporte, fica caro para os piscicultores indígenas. Assim, nas regiões do Rio Negro fora de centros urbanos como São Gabriel e Iauareté, a alimentação dos peixes deve ser encontrada ou cultivada no local. Uma experiência em São Tomé (Alto Tiquié), também realizada em 2001, mostrou que os peixes podem crescer sem o uso de ração comercial: num viveiro desta comunidade, a produtividade estimada ficou em volta de 2.225 kg/ha/ano (223 g/m²), utilizando-se alimentação variada – restos de cozinha, frutas, minhocas, cupim, etc – e adubação com esterco de cabra e ovelha. Para um viveiro de 240 m² – média de tamanho dos viveiros familiares no alto Tiquié -, isso responde por uma produção em volta de 50 kg por ano.

Para descobrir quais eram as melhores espécies de plantas para serem cultivadas para alimentar os peixes, foram feitas entrevistas com pescadores e análises de valor nutricional em laboratório (Laboratório de Engenharia Química da UFPa). Uma pesquisa realizada em 1999, no alto Tiquié, apontou 40 espécies com potencial para a piscicultura, também chamadas plantas ictioforrageiras, que poderiam interessar ao projeto. Destas, em sua maioria árvores frutíferas do igapó, uma boa parte foi selecionada para ser trabalhada e plantada em um conjunto denominado sistema agroflorestal (os sistemas agroflorestais são, em outras palavras, pomares para os peixes).

Os critérios para a seleção dos melhores tipos de plantas para alimentar os peixes são uma produção estável e regular de frutas com alto valor nutritivo, especialmente aquelas com alto teor protéico, e que possam ser cultivadas dentro de um conjunto que seja capaz de produzi-las maduras em diferentes estações e meses, garantindo, assim, um complemento alimentar para os peixes durante todo o ano. Estas plantas também devem produzir poucos anos depois de plantadas.

Veja algumas das plantas principais

Nome vulgar Nome científico Tukano Baniwa Hup
(desconhecido) (desconhecido) Bueri (desconhecido) (desconhecido)
Açaí-do-Pará Eutepe oleracea Mipî Manákhe K’ed’ég
Açaí-do-Amazonas Euterpe precatoria Mipî Manákhe awakadéetta K’ed’ég
(desconhecido) (desconhecido) Nihtia dikaperi Táali-dzéekani (desconhecido)
Taquari Mabea cf.nitida Pahti dika Wiriwirhi (desconhecido)
Seringueira Hevea aff. nitida Wahsó Dzéeka Mót tëg
Capitari Tabebuia sp. Bupó’origu’ dika (desconhecido) Péy tëg
(desconhecido) (desconhecido) Dahsukiri ou Kanã Poipoí (desconhecido)
Patauá Jessenia bataua Yumû-paka Ponáma Wáh
Pupunha Bactris gasipaes Ĩrê Píipiri Sìw tëg
Buriti ou Miriti Mauritia flexuosa Ne’ê Itewi S’àk
Bacabinha Oenocarpus mapora Buû-yumu (desconhecido) Mètsiwíb
Bacaba Oenocarpus bacaba Yumû-mahaakâ Póoperi Siwíb
Apuí Clusia sp. Di’kateda Kopíithe (desconhecido)
Cunuri Cunuria spruceana Wapî Kóonoli Pëd tëg
Japurá Erisma japura Ba´ti Dzáapora Yawák tëg
Uacu Monopterix uacu Símio Awíña Yáh tëg
TIPO DE ALIMENTAÇÃO Porcentagem de proteína
Rações comerciais para alimentar peixes
Farelo de soja 45,4%-48,8%
Ração para alevinos 35%
Ração para peixe juvenil (tipo crescimento 1) 28%
Ração para peixe juvenil (tipo crescimento 2) 25%
Farelo de arroz 12,7%
Animais (inclusive insetos)
Farinha de peixe 50%-65,7%
Camarão 59,5%
Cupim 58,9%
Saúvas com asas 39,7%-48,1%
Peixe 35,8%-51,1%
Plantas
Caruru tostado 38,6%
Castanha-do-Pará 20,7%
Taali-dzekani (nome em português desconhecido) 17,8%
Wiriwirhi (nome em português desconhecido) 13,4%
Cupuaçu (caroço) 13,1%
Uacu (fruta seca) 12,6%
“Jenipapo do rio” (semente) 11,5%
Dzeeka-kentsa (nome em português desconhecido) 10,9%
Folha de mandioca secada no sol e pilada 10%
Japurá (fruta seca) 9,4%
Poipoithe (nome em português desconhecido) 9,4%
Cunuri 9,3%
Milho 9%
Arroz 7%
Tucumã 5,5%
Mapati (casca) 4,6%
Caruru fresco 3,8%
Açaí 3,6%
Pupunha 3,5%
Japurá cozido 3,5%
Patauá 3,3%
Uacu cozido 2,9%
Buriti (caroço) 2,6%
Ucuqui 2,5%
Jauari 2,4%
Buriti (polpa) 2,4%
Cupuaçu (polpa) 1,3%
Banana 0,9%
Beiju 0,8%-1%
Umari 0,9%
“Jenipapo do rio” (polpa) 0,8%
Mapati (polpa) 0,2%
Farinha de mandioca brava 0,1%
Fontes: Darna L. Dufour: The composition of some foods used in Northwest Amazônia, Interciencia, mar/abr 1988, vol. 13 nº 2; Departamento de Análises Físico-químicas da Universidade Federal do Pará (UFPa); Cepta/Ibama; Coordenação de Pesquisas em Ciências da Saúde (INPA); e Associação Nacional dos Fabricantes de rações (ANFAR).

http://www.socioambiental.org/pisci/managroflo.shtm