Flores

Pirataria de flores e plantas prejudica setor de floricultura

Uso de plantas não legalizadas resulta em concorrência desleal entre produtores e inibe entrada de variedades no país

Sygma Comunica

Novas cores, novas formas, maior durabilidade, alta produtividade. As mais belas flores e plantas ornamentais utilizadas por decoradores ou comercializadas em floriculturas e supermercados são, geralmente, resultado do melhoramento genético. Para produzi-las, entretanto, empresas e agricultores precisam investir em mudas legalizadas, o que nem sempre acontece. A afirmação é da Sociedade Brasileira de Proteção de Cultivares de Flores e Plantas Ornamentais (ABPCFlor) que na última sexta-feira, 17 de junho, promoveu uma marcha para alertar sobre o problema.

Chamada de pirataria, essa prática se configura quando produtores ou empresas produzem ou propagam novas variedades sem licenciamento. “As novidades do setor só podem ser cultivadas se adquiridas as mudas legalizadas”, explica a presidente da ABPCFlor, Clarice Bocchese da Cunha Simm.

Além de praticar pirataria e violar a lei, produtores que optam por plantar mudas ilegais incorrem em concorrência desleal em relação àqueles que usam as variedades protegidas por lei. “Os agricultores legais são os mais prejudicados pela pirataria, pois investiram em contratos de licenciamento junto a empresas melhoristas ou universidades para terem novidades nos seus cultivos”, afirma Clarice Simm. Ao comprar a muda não licenciada, o produtor irregular paga menos pela muda e, com menos custos, vende mais barato, o que coloca o agricultor legal em clara desvantagem.

Desaquecimento e custo social

Outra consequência do problema é o desaquecimento do setor por conta do desinteresse de empresas melhoristas em relação ao Brasil. “As novas flores e ornamentais que estão no mercado foram desenvolvidas por um melhorista, também chamado de obtentor. Em função desse trabalho, temos novidades que despertam o consumo”, declara a presidente da Câmara Federal Setorial de Flores e Plantas Ornamentais, Silvia Van Rooijen.  A pirataria fecha as portas do Brasil às variedades recém desenvolvidas, pois os melhoristas não desejam a entrada de seus produtos em um país que não respeita o trabalho de melhoramento, cujos resultados demoram anos ou décadas. “Os produtores ganham por vender flores mais bonitas, então é natural que se pague pela possibilidade de cultivá-las e de lucrar com elas”.

Segundo Silvia Van Rooijen, as variedades permitem novos cultivos, o que gera oferta de produtos para atacadistas e floriculturas, terminando por chegar às mãos dos consumidores finais, interessados em flores originais, mais bonitas e duráveis. “Todo esse processo representa também mais emprego. Quanto mais novidades, mais a floricultura se desenvolve e mais gente é contratada Brasil afora”. Na avaliação da presidente, a pirataria, ao prejudicar a entrada de variedades no país, tem consequências sociais.

Clarice Simm ainda acrescenta que o problema freia o investimento na pesquisa nacional, já que os profissionais da área não se sentem estimulados a desenvolver produtos. “A proteção ao trabalho intelectual é fundamental, sendo a única forma de garantir que teremos no mercado produtos de primeira linha e que caminharemos lado a lado com a floricultura mundial”.

Suporte técnico e padrão internacional

O plantio de mudas licenciadas garante mais do que respeito à lei de proteção de cultivares, implantada no Brasil em 1997. Isso é o que afirma o agricultor Francisco Issao Saito, que produz rosas em Atibaia (SP). Produtor há mais de 40 anos, ele migrou para as plantas certificadas no início da década e não se arrependeu. “Existe o custo do royalty sim, mas é amortizado porque conseguimos um produto muito melhor. Tenho suporte técnico, novidades e informações que antes tinha de viajar para outro país para receber”, conta. Segundo Saito, as mesmas variedades lançadas na Europa são oferecidas a ele, que planta as novas rosas em sua fazenda.

Ao aderir ao plantio de rosas licenciadas, ele pôde receber variedades “top de linha” e ter acesso à orientação especializada. “Por sermos legalizados, conseguimos, por exemplo, visitar fazendas no Equador e na Colômbia e aprender a plantar de forma mais eficiente. A partir desse intercâmbio, conseguimos plantar com informação técnica muito rica”. Tudo isso permitiu a Francisco Saito oferecer produtos mais interessantes ao cliente. “Nossa ofertar melhorou muito e alcançamos um padrão internacional”.

“Vale a pena ser legal”

Com esse slogam, 50 representantes de produtores, empresas e entidades participaram da 2ª Marcha contra a pirataria realizada em 17 de junho, às 11 horas, durante a Hortitec, mega feira de horticultura em Holambra (SP).

Batendo palmas e vestindo camisetas azuis com a logomarca da campanha, os participantes desfilaram pelos corredores do evento atraindo a atenção de expositores e visitantes. “Nossa intenção foi colocar o assunto da pirataria em foco. Conseguimos isso e faremos uma nova marcha no próximo ano”, fala Silvia Van Rooijen.

A ABPCFlor

Ações educativas como a Marcha são o alvo da ABPCFlor, entidade criada em 1998. Com sede em Holambra, a Cidade das Flores, a instituição ainda busca nas esferas federais o aprimoramento da Lei de Proteção de Cultivares no Brasil. A proposta é ampliar no cenário nacional o respeito ao trabalho intelectual dos melhoradores, permitindo aos produtores brasileiros o mesmo acesso às novidades em flores e plantas que são oferecidas ao mundo.

Fonte: http://www.portaldoagronegocio.com.br/conteudo.php?tit=pirataria_de_flores_e_plantas_prejudica_setor_de_floricultura&id=57754