Pecuária

Pecuária de corte tem espaço para crescer

14/06/2016

Em Minas Gerais, o número de cabeças de gado é o segundo maior do País, com 21,8 milhões de animais ou 11% do rebanho nacional. O segmento de corte é o terceiro do setor agropecuário em relevância econômica, tendo acumulado R$ 7,3 bilhões em valor bruto de produção em 2015. Os números são bons, mas ainda podem ficar melhores, segundo observa a FAEMG.

Estudo realizado pelo INAES, encomendado pela Comissão Técnica de Pecuária de Corte da FAEMG, mostra que o potencial de Minas para a produção de carne bovina está longe de ser esgotado e poderia crescer exponencialmente.

A federação percebe que a crise fez o consumo interno de carne de boi recuar, mas observa que o mercado externo está em expansão. Apenas entre janeiro e abril deste ano, Minas já exportou US$ 132 milhões em carne bovina, que foi o quinto produto mais vendido pelo Estado.

Para alcançar o potencial de crescimento da atividade em Minas, o estudo mostra que os pecuaristas precisam dar mais atenção à gestão do negócio, ampliar o uso de assistência técnica e investir mais na recuperação de pastagens e no melhoramento genético do rebanho.

O trabalho realizado pelo Inaes é o primeiro a fornecer dados sobre a produção de bovinos de corte no Estado. Investigou os aspectos econômicos, sociais e ambientais de diferentes sistemas de produção adotados em propriedades nas quatro principais regiões produtoras.

O diagnóstico do setor de produção de gado bovino mostrou que 79,8% das pessoas em atividade são casados, 87,6% têm filhos e 70% deles acreditam que seus filhos assumirão os negócios. Dos produtores, 19,5% têm ensino fundamental completo, 28,1% ensino médio; 44,5% têm graduação  e 7,8%, pós-graduação. Mais da metade têm curso superior

Entre os herdeiros, 16,2% têm ensino fundamental, 22,8% têm ensino médio; 61% graduação; e 18,5% são formados em ciências agrárias. O tempo de atuação dos produtores de gado em Minas Gerais é de até 10 anos para 25,2% dos entrevistados; de um período entre 11 e 20 anos para 31,5% ; de 21 a 30 anos para 18,9%; e mais de 31 anos para 24,4%. Apenas 1 em cada 4 pecuaristas de corte ingressou na atividade nos últimos 10 anos.

Para 37,9% dos produtores, a principal dificuldade para se estabelecer na atividade é financeira. Para 36,3% é adequação técnica; para 15,3% é a mão de obra, enquanto para 10,5% é a inserção no mercado ou adequação ambiental.

Atualmente, a principal dificuldade da atividade é a mão de obra, na opinião de 34,7% dos entrevistados; técnica, para 29,3%, financeira, para 21,8% e o mercado, para 14,3% dos produtores do setor.

Crédito – Apenas 21,5% usam algum tipo de financiamento do governo e só 22% conhecem linhas de crédito subsidiadas como o programa ABC. Do total, 93% dos pecuaristas apostam que a intensificação da atividade é uma tendência que se manterá ou aumentará. Mas apenas 33% dos pecuaristas entrevistados contratam assistência técnica.
Entre os produtores, 67,7% estão otimistas quanto ao futuro da atividade; consideram a pecuária de corte como atividade ou mercado promissor, com perspectiva de crescimento de mercado, principalmente externo.

Quanto à pretensão de intensificação da atividade, 88% pretendem manter ou aumentar; 12% irão diminuir ou ainda não sabem Em relação ao acompanhamento da atividade, 2,4% fazem acompanhamento técnico; 13,4% fazem financeiro;12,6% fazem técnico e financeiro e  71,7% não fazem.

Da forma de controle, 19,4% fazem no caderno; 11,6% financeiro; 7,8% por meio de software; e a grande maioria, 61,2% não faz. Em resumo, o que o estudo apontou foi que a maioria dos pecuaristas não faz planejamento ou qualquer tipo de controle técnico e/ou financeiro da atividade.

Maioria dos produtores conjuga atividades

O diagnóstico produzido pelo Inaes, sob encomenda da Faemg, apontou que, no setor de produção de carne em Minas Gerais, a taxa de lotação média dos participantes do estudo é 1,03 cabeça/hectare de pasto Entre os sistemas mais utilizados, variam de região para região. Na Central, é dividido entre o de recria e engorda (34,6%) e completo (42,3%).

No Nordeste a relação é inversa, com recria e engorda (61,5%) e completo (23%). No Norte, cria (50%) e completo (20,45%) e, no Triângulo, recria e engorda (42,8%) e completo (28,5%).

Do total de produtores, 38% também atuam na pecuária de leite; 20%, na agricultura; 14%, floresta; e 7%, em outras atividades. Das proporiedades, 39,2% não têm área para agricultura

O destino da produção varia entre outras propriedades (sistemas de produção) em Minas Gerais (42%), frigoríficos do Estado (45,7%); outras propriedades fora de Minas (7,4%), frigoríficos fora de Minas (4,9%).

Práticas na propriedade – Dos pecuaristas, 40,9% fazem manutenção das pastagens e apenas 10% adubam o pasto, o que demonstra ineficiência tecnológica das propriedades em relação às pastagens e se traduz na baixa lotação média detectada nas propriedades pesquisadas.

Das práticas utilizadas nas pastagens, 29,5% são de análise de solo; 29,6% são de reforma e recuperação; e 40,9% de manutenção. Do manejo das pastagens, 38,7% é contínuo; 34,7% é diferido; 25,3% rotacionado, enquanto 1,3% não sabe responder.Questionados sobre as estratégias nutricionais, 28,4% disseram não usar proteinados; 27,7% ração concentrada; 40,8% suplemento mineral e 3,1%, suplemento com ureia.

Dos entrevistados, 80,5% não fazem estação de monta. Na avaliação da Faemg, a não adoção dessa prática reduz as taxas de fertilidade do rebanho e a seleção para precocidade e fertilidade das fêmeas Somente 27% das propriedades fazem inseminação artificial. O baixo percentual de inseminação artificial acarreta menor qualidade e progresso genético do rebanho no longo prazo.

Segundo o diagnóstico, 80,6% informaram conhecer plenamente ou grande parte da legislação trabalhista.. Quanto ao meio ambiente, 100% dos pecuaristas afirmaram ser possível conciliar a atividade de pecuária de corte com a preservação ambiental. Das práticas de gestão ambiental, 82,8% possui Reserva legal, 91,4% tem APP; 28,3% faz georreferenciamento; 25,3% tem licença ambiental e 14,8%, outorga para uso de água.

Quanto ao  agrotóxico, cerca de 30% das propriedades não fazem uso Das que utilizam, 62,2% têm funcionários treinados para a função, 74,7% fazem o correto manejo de embalagens e 64,8% têm local adequado de armazenamento de agrotóxico.

Análise – A partir do diagnóstico da pecuária de corte em Minas Gerais, Pierre Vilela, superintendente do Inaes, traça alguns caminhos para o desenvolvimento da atividade no Estado. “Há um campo amplo de ações que podem ser desenvolvidas para fomentar o crescimento sustentável da pecuária de corte no Estado. Mas a prioridade deve ser ampliar o acesso ao conhecimento e às tecnologias. A capacitação de produtores e trabalhadores deve ser incentivada”.

A recomendação é de que “os produtores devem investir preferencialmente em tecnologias como suplementação nutricional estratégica, melhoramento genético, manejo de pastagens e integração da pecuária com sistemas agrosilvipastoris. A aplicação de ferramentas gerenciais e de planejamento, bem como estratégias comerciais também deve estar em primeiro plano”.

Mas, para isso, argumenta Vilela, é preciso superar desafios, que, segundo ele, começa pela  recuperação da capacidade de suporte das pastagens, uma vez que a produção a pasto é uma característica predominante da atividade. “Fizemos um levantamento em 2015 que mostrou 75% das pastagens mineiras em condições ruins. O presente diagnóstico demonstra que essa degradação afeta diretamente a rentabilidade e sustentabilidade da pecuária de corte. Portanto, o investimento nesse insumo traria amplos benefícios econômicos e ambientais no curto e longo prazos”.

O Sistema Faemg já oferece cursos gratuitos em todas as áreas prioritárias, mas a demanda deve partir dos pecuaristas, alerta Vilela. Segundo ele, “as perspectivas são de aumento na demanda por carne bovina, que será impulsionada pelo crescimento da população mundial. No entanto, o sistema produtivo de gado de corte terá que se adaptar ao novo cenário nacional e internacional.

Fonte: Diário do Comércio