Reprodutivo

Ovário artificial de caprino produz 1 embrião ´in vitro´

Pesquisa inédita no mundo analisa primeiro embrião “in vitro” de ovário artificial de caprino na Favet-Uece

Fortaleza. O primeiro embrião “in vitro” obtido a partir de ovário artificial caprino foi produzido pelo pesquisador José Ricardo de Figueiredo e sua equipe, na Faculdade de Veterinária, da Universidade Estadual do Ceará (Favet-Uece). A pesquisa é inédita no mundo e tem como uma das metas principais otimizar a produção de embriões em larga escala e de baixo custo, com a preservação do bem-estar animal. O embrião encontra-se em análise no Laboratório de Manipulação de Oócitos e Folículos Ovarianos Pré-Antrais (Lamofopa), da Favet, no Campus do Itaperi. “Essa técnica desperta grande interesse na reprodução medicalmente assistida em humanos, porque também poderá preservar o bem-estar da mulher, reduzindo o risco de transmissão de doenças como o câncer, por exemplo, por ser uma alternativa aos enxertos de ovário para restauração da fertilidade em mulheres”, afirma Ricardo Figueiredo.

O ovário artificial é um termo criado pelos pesquisadores para tornar a técnica reprodutiva melhor compreendida pelo grande público. Na realidade, trata-se de um ovário de caprino manipulado em laboratório, que visa oferecer, artificialmente, as condições necessárias para evitar a morte dos óvulos, permitindo o seu crescimento e maturação “in vitro”. Visa à posterior fecundação e produção em laboratório de embriões em larga escala, futuramente, a partir de animais melhorados. “Em síntese, o ovário artificial é o crescimento dos óvulos fora do organismo materno”, diz o pesquisador.

Fases do óvulo

A novidade da técnica é que possibilita o melhor entendimento sobre o funcionamento do ovário mamífero, especialmente nas fases iniciais de crescimento do oócitos (óvulo). A pesquisa permite observar em laboratório o óvulo dentro do folículo, em todas as suas fases, desde a pré-antral, como nos folículos primordial, primário, secundário, até a fase antral, como terciário, pré-ovulatório e ovulação. O embrião desenvolvido pelos pesquisadores cresceu a partir da fase de folículo pré-antral secundário extraído do ovário de caprino, obtido de matadouro por meio de técnicas especiais. “O folículo secundário cresceu e maturou in vitro. Após ser fecundado, gerou um embrião viável que se desenvolveu até a fase de mórula, ou seja, o estágio final do desenvolvimento embrionário, ficando pronto para a transferência em uma fêmea receptora”, afirma Figueiredo.

Vale destacar que 90% dos óvulos produzidos por uma fêmea estão nas fases iniciais (pré-antral, ou seja, antes do desenvolvimento do antro, uma cavidade repleta de líquido folicular necessário ao desenvolvimento do óvulo). Somente 10% desses oócitos passam ao estágio posterior (antral). Segundo explica Figueiredo, 99,9% dos oócitos morrem pela atresia, que acontece predominantemente na fase antral. Uma bezerra, por exemplo, nasce com cerca de 300 mil oócitos. Somente 300 chegarão à ovulação, sendo o restante perdido pela atresia. De acordo com o pesquisador, o ovário artificial evita essa morte natural, favorecendo o crescimento, maturação e fertilização “in vitro”, resultando na produção de embriões futuramente. Com a técnica, o animal poderá continuar no pasto, enquanto uma pequena parte sua, um fragmento do ovário, estará produzindo, em laboratório, oócitos/embriões em larga escala.

O ovário artificial tem ainda grande importância para a indústria farmacêutica e, consequentemente, para a saúde humana. A técnica possibilita avaliar o efeito tóxico das drogas disponíveis sobre o ovário. Em outubro, Ricardo de Figueiredo esteve viajando por países da Europa como França, Bélgica, Holanda e Escócia, objetivando divulgar a pesquisa, por meio de palestras. Sua meta é estabelecer parcerias com laboratórios europeus na área de reprodução humana.

Uma das maiores autoridades da área, Johan Smitz, da Universidade Livre de Bruxelas, da Bélgica, que trabalha diretamente com reprodução assistida em humanos, mostrou grande interesse em fazer parceria científica com o laboratório da Favet. Uma visita desse pesquisador no Lamofopa está prevista pata o próximo ano, assim como a viagem de pesquisadores da Favet para Bruxelas ao longo dos próximos anos.

As pesquisas desenvolvidas no Lamofopa foram iniciadas há três anos, porém, Ricardo de Figueiredo já realiza estudos na área há cerca de 20 anos, desde o início de sua carreira acadêmica. A equipe do laboratório é formado por 35 membros, entre pesquisadores, alunos e técnicos. O trabalho é patrocinado pela Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio) e CNPq. Também tem recursos da Funcap e do Finep.

Graças a esta última instituição, o Lamofopa foi ampliado de 70 metros quadrados para 400m em agosto do ano passado, sendo determinante para o avanço dos estudos.

SAIBA MAIS

Oócito
O mesmo que óvulo, célula germinativa da fêmea

Folículo
Unidade do ovário responsável pela manutenção da viabilidade, crescimento e maturação do óvulo, formado pelo oócito e células somáticas associadas

Atresia
Morte do folículo, fenômeno que atinge 99,9% dos oócitos, predominantemente na fase antral

Antro
Cavidade repleta de líquido folicular. Caracteriza as fases pré-antral, ou seja, o folículo anterior à formação do antro (primordial, primário e secundário), e antral, folículo posterior à formação da cavidade (terciário e folículo pre-ovulatório ou De Graaf). Nesta fase, o óvulo se prepara para a maturação, estágio em que o óvulo se torna apto a ser fecundado pelo espermatozoide, formando o embrião

MAIS INFORMAÇÕES
Laboratório de Manipulação de Oócitos e Folículos Ovarianos Pré-Antrais (Lamofopa), Favet-Uece
(85) 3101.9852

APLICAÇÕES

“A nova técnica poderá preservar o bem-estar da mulher que quer adiar ser mãe”
ANDRÉ LUIZ EIGENHEER
Médico especialista em reprodução humana

“Outra aplicação do ovário artificial é a preservação da fertilidade feminina”
FABRÍCIO SOUSA MARTINS
Biólogo e pesquisador do Lamofopa da Favet-Uece

BENEFÍCIOS

Pesquisadores destacam importância da técnica

O estudo do ovário artificial trará benefícios diretos na reprodução humana e nas pesquisas de medicamentos

Fortaleza. A técnica do ovário artificial representa um grande benefício para reprodução assistida em humanos, segundo o especialista em Reprodução Humana, médico André Luiz Eigenheer da Costa. “A nova técnica poderá preservar o bem-estar da mulher, além da sua fertilidade. A mulher que deseja postergar sua maternidade para mais tarde poderá congelar fragmento do seu ovário e quando decidir engravidar, não precisará utilizar os hormônios para estimular a ovulação, ficando livre das injeções e economizando tempo, dinheiro e sem os riscos da hiperestimulação ovariana”.

Para o biólogo e pesquisador integrante da equipe do Laboratório de Manipulação de Oócitos e Folículos Ovarianos Pré-Antrais (Lamofopa), da Faculdade de Veterinária da Uece, Fabrício Sousa Martins, o ovário artificial tem despertado o interesse de várias empresas do setor privado, pois a técnica desenvolvida representa uma alternativa para o aprimoramento de meios de cultura visando a maturação oocitária e, consequentemente, a produção “in vitro” de embriões animais e humanos. “Outra aplicação seria a preservação da fertilidade feminina nos casos de mulheres que se submeterão a tratamentos de radio ou quimioterapias (casos de câncer) e que necessitam ter seus ovários previamente removidos e congelados para posterior autotransplante ou cultivo in vitro”, destaca ele.

“Em outra vertente, esta técnica também possui grande importância para o desenvolvimento de métodos de esterilização, pois permite avaliar in vitro a ação de agentes imunológicos ou químicos capazes de eliminar os óvulos em seus estágios iniciais de crescimento. Estudos visando o estabelecimento de técnicas de imunoesterilização para cães e gatos, que poderão contribuir para a solução do problema de superpopulação destes animais nas cidades, também vêm sendo realizados no Lamofopa”, afirma o médico veterinário, Cláudio Afonso Pinho Lopes, pesquisador responsável por esta linha de estudo no Laboratório da Favet.

VALÉRIA FEITOSA
Editora do Regional

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=697796