Pecuária

O Vilão que mata a fome e salva a Economia Brasileira

15/02/2018

Desserviço. Isso é o que a classe artística presta quando fala mal do que não conhece: a agropecuária brasileira. Produtor rural desmata, maltrata bicho e envenena os alimentos com produtos químicos. Um discurso reto, ideológico, mas que não traz clareza alguma à sociedade. Pelo contrário: distorce a realidade; difama quem mata a fome e trabalha para o crescimento do País; permite que os leigos permaneçam na ignorância e dá munição para que a concorrência do mercado internacional deite e role em cima de um discurso mentiroso.

Então, com todo o respeito que tenho pelo artista, porque também dedico o meu tempo à arte, sugiro que estude a agropecuária brasileira antes de bradar bobagens. Como formador ou formadora de opinião pública, você, artista, que se diz ativista, mas não estuda a questão a fundo, está cometendo uma injustiça com os profissionais da agropecuária brasileira ao proliferar tanta besteira.
Eu não estou aqui para defender e passar a mão na cabeça de produtor rural que não faz a lição de casa, ou seja, que não se preocupa em produzir com responsabilidade, sustentabilidade e nem dosar a aplicação de defensivo agrícola. Mas é no mínimo uma irresponsabilidade colocar todo mundo no mesmo balaio.

A sociedade brasileira tem que criar vergonha na cara e parar com essa modinha, porque virou modinha, da ditadura dos extremos: ou é do bem ou é do mal. Não existe uma apuração dos fatos, um aprofundamento, um estudo de caso e uma reflexão para que sejam levados em conta os prós e contras de uma questão. Não, não existe isso.

O que existe é posar de bacana, de intelectualóide, abraçar uma causa para se manter firme e forte na mídia e detonar um setor inteiro sem saber o que este mesmo setor faz de bom para o País. Então, eu pergunto: você sabe o que a agropecuária faz pelo Brasil? Vou resumir: carrega a economia nas costas e, repito, coloca comida na sua mesa. Só isso.

E ainda assim, você sai ofendendo o produtor rural, dizendo que ele não presta. Imagine se alguém fizesse isso com a sua arte? Consegue imaginar? Você, que é mais jovem, já ouviu dizer que na década de 60 quem fazia cinema ou televisão não prestava e era discriminado? Percebe que estamos fazendo a mesma coisa com o produtor rural? E de maneira injusta, por meio de ilações.
Você sabia que o setor agropecuário brasileiro é o que possui o código florestal mais rígido do mundo? Pois é, o produtor rural não tem direito a fazer empréstimo no banco se não estiver em dia com as obrigações ambientais. Ao contrário do artista que recebe subsídio do governo para produzir espetáculos.

Quer mais um exemplo? O produtor rural também não pode plantar ou criar se não tiver uma APP (Área de Preservação Ambiental) estabelecida por lei. Pergunta: alguém proíbe você de fazer a sua arte por alguma razão?

Vamos em frente: você sabia que mais de 66% da vegetação nativa brasileira é preservada e que desse total mais de 20% são preservados graças ao produtor rural? Nos Estados Unidos inteiro, que tem 1 milhão e 318 mil quilômetros quadrados de território a mais que o Brasil, são preservados apenas 19,9%. Faça as contas: a fatia de preservação ambiental do produtor rural brasileiro é maior do que a parte de preservação dos Estados Unidos inteiro.

E vocês ficam aí achando que os Estados Unidos são o melhor País do mundo quando vão para a Disney ou fazer compras em Miami. Nada contra em fazer compras em Miami. Eu também já fiz compras em Miami, é bem mais em conta, mas eu não me esqueço de ter a consciência de que, quando o assunto é preservação ambiental, o Brasil dá uma surra, leva a nocaute, muitos países de primeiro mundo.

E o que o setor gera de riqueza e emprego aqui dentro? Fique sabendo que só a pecuária gera mais de 3 milhões de empregos e junto com o agronegócio representa 31% do PIB. Ambos, pecuária e agronegócio, são responsáveis pelo superávit da balança comercial, que totalizou mais de U$ 77 bilhões só em 2016 e estamos em 2018, ou seja, estes números devem ser bem maiores porque é um setor que cresce cada ano.

O Brasil é hostilizado por ser um dos maiores consumidores mundiais de defensivo agrícola – batizado pejorativamente de agrotóxico – por um motivo lógico: o Brasil é um dos países que mais produzem comida no planeta; logo, é óbvio que será um dos que mais utilizam defensivos. Mas não é porque usa o produto em grande quantidade, gente, mas porque produz mais comida do que os outros países, consegue compreender a diferença?

Nós, da classe artística, defendemos o combate à fome na África, mas, contraditoriamente, jogamos contra e ofendemos aquele que é capaz de acabar com a fome no mundo, que é o produtor rural. Só ele pode acabar com a fome de alguém; inclusive, a minha e a sua fome. Todo santo dia, logo que acordamos, tomamos café da manhã para conseguirmos trabalhar direito, porque saco vazio não para em pé, segundo a sabedoria popular.

O Brasil é apontado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (a FAO) como o celeiro que vai alimentar o mundo, mas o que deveria ser motivo de orgulho vira pauta de desmatamento.

Outro dia assisti ao filme Okjja, uma produção sul-coreana-americana de 2017, e quase fui picada pelo bichinho da hipocrisia. O roteiro retrata a história de um animal criado em laboratório (um misto de suíno com hipopótamo) para saciar a gula humana. É triste a comparação que fazem entre o confinamento do animal e os campos de concentração da época do nazismo. Toca o coração. Leva às lágrimas. Difícil não sentir um nó na garganta. O impacto para mim foi tão grande que tive vontade de virar vegetariana ao longo do filme e vegana nas cenas finais.

Fui acometida por uma falsidade que teve um tempo de vida curto. Simples: 40 minutos mais tarde ao término do longa metragem, eu já estava em frente à geladeira desejando uma fatia de presunto. Pelo menos, reconheço a minha efêmera hipocrisia. Pior são os ambientalistas extremistas que não se reconhecem falsos e fingem não ter noção da própria sonsice. Pensam uma coisa, falam outra e agem de forma completamente diferente o tempo todo. Em outras palavras, são aqueles que criticam a agropecuária, mas dependem dela nas atitudes cotidianas mais banais, como o uso de cosméticos, por exemplo.

Portanto, se você é do time que fala mal da agropecuária sem saber o que está dizendo, anote aí a minha sugestão: pare de usar produtos de couro, de passar creme no corpo, de comer gelatina, tomar sorvete, usar roupas, dirigir carro a álcool, tomar cerveja, vinho, caipirinha e café. Pare de fumar, porque tabaco também é agricultura. Enfim, pare de comer. Aí, sim, depois de total abstinência, você poderá falar alguma coisa, mas não sei se você vai ter energia para isso, porque o que nos dá energia é a comida. No mais, tudo o que disser será colóquio flácido para acalentar bovino; traduzindo: conversa mole para boi dormir.

Por fim, como sou alguém que trabalha com arte e agropecuária, eu faço um apelo: vamos dar um basta à aniquilação da imagem do produtor rural brasileiro. Quer salvar o mundo, deixe um pouco de lado os textos de Stanislavski ou de Tchechov e estude a legislação ambiental russa. Tenho certeza que você verá o produtor brasileiro com outros olhos.

Mas eu não quero terminar este texto brigando ou catequizando ninguém, não. Tô aqui para tentar mediar as pazes entre a classe artística e a produção rural brasileira. E eu me coloco dos dois lados, porque sou apaixonada tanto por arte quanto por agronegócio. Existe uma razão fortíssima para eu defender os dois segmentos.

O artista produz arte, que é o alimento para a alma. Sem arte e sem cultura, a gente mata um povo aos poucos. Daí o meu grande respeito e admiração pela classe artística. Mas o produtor rural produz comida, que é o alimento para o corpo. E todo artista sabe que sem corpo não existe arte.
Vamos respeitar todas as classes, porque só assim construiremos um Brasil melhor.

Por Lilian Dias, que é jornalista e especialista em agronegócio

 

Fonte: JV Online