Desperdício de Produção

O desperdício causado pela queimada

O recurso mais utilizado para acelerar o corte e, consequentemente, aumentar a produtividade das plantações de cana-de-açúcar é a queimada. Os problemas de saúde causados por essa prática histórica são conhecidos. No entanto, o prejuízo econômico causado, ainda pouco divulgado, também chama a atenção.

 

Segundo o professor doutor Aldo Roberto Ometto, do Departamento de Engenharia de Produção da USP São Carlos, a queimada é um ponto crucial, pois acarreta perdas do processo, além do impacto ambiental. “A queimada não prejudica somente a qualidade do ar. Há uma perda energética equivalente a sete mil litros por hectare”, diz.

Ometto estudou o ciclo de vida do álcool em sua tese de doutorado. A abordagem passou por quatro pontos – o agrícola, o industrial, o transporte e o uso. E em todos, devido a uma prática já cristalizada pelos produtores, há uma perda significativa, quantificada na pesquisa.

Na etapa agrícola, o professor diz que a queimada da cana causa, além da perda energética, a eliminação da palha, uma matéria orgânica que ajudaria o solo. “Queimando a cana, perde-se também sacarose [açúcar produzido pelas plantas]”, explica. Isso reduz a quantidade de açúcar e álcool produzido. Já na etapa industrial, Ometto aponta que a cana cortada sem ter sido queimada, economizaria água pois reduziria a necessidade de lavagem, bem que está ficando cada vez mais escasso. Outro ponto importante apontado pelo pesquisador é que a vinhaça poderia gerar um biocomposto junto com outros resíduos ao invés de ser aplicada in natura.

O pesquisador afirma que se a cana não fosse queimada, traria benefícios econômicos ao produtor, pois haveria mais produtividade no canavial e sociais. “Se não existisse a queimada, haveria uma demanda para a criação de empregos 50% maior”, comenta. No Brasil há áreas onde as máquinas não conseguem executar seu trabalho (aproximadamente 50% do solo dedicado). Para se ter o mesmo rendimento do corte manual queimado, o corte manual de cana crua precisará de três vezes mais pessoas, com um pagamento diferenciado e com todos os equipamentos de proteção necessários.

Outro ponto abordado por ele é que uma melhoria ecológica na produção pode trazer maiores ganhos. “Não param de surgir oportunidades, visto que se reduz a quantidade de uso de herbicida, mantêm-se a umidade do solo, incorpora-se matéria-orgânica, pode ser gerado mais energia, mas ainda são poucos os que enxergaram que um benefício ecológico aumenta a produtividade”, acrescenta.

Outro caminho apontado por Ometto é a sustentabilidade da fazenda integrada à indústria. Ele é integrante de um projeto que tenta difundir esse novo meio de uso do solo. Trata-se do Projeto Geração de Energia Renovável Integrada à Produção de Alimentos (Geripa), desenvolvido dentro da USP São Carlos pelos professores Romeu Corsini e Geraldo Lombardi. Segundo o pesquisador, o modelo oferecido por esse projeto contrapõe o modelo tradicional porque traz alternativas através da produção de matérias-primas, como o sorgo sacarino, gado e alimentos. Dessa forma, não haverá a necessidade da compra de nenhum produto, já que a fazenda produzirá na entressafra o material necessário para os períodos de plantio, fazendo que a usina possa trabalhar até 11 meses por ano.

Mesmo com a possibilidade de diminuir os custos e aumentar os lucros, essa prática é pouco utilizada no País, pois a que normalmente é feita consegue trazer lucro ao usineiro. “Há uma cultura do produtor de cana já cristalizada, que tem esse método como padrão, infelizmente”, finaliza Ometto.

 

Fonte: http://agenciacienciaweb.wordpress.com/2009/03/24/o-desperdicio-causado-pela-queimada-2/