Sanitário

O berne e seu controle

O berne é uma larva de uma mosca conhecida cientificamente como Dermatobia hominis e os prejuízos anuais causados por este parasito nos bovinos da América Latina têm sido calculados em torno de R$ 260 milhões. Infestações altas de berne provocam desvalorização das peles e a redução na produção de carne e do leite.

No intuito de reduzir as perdas vem-se usando inseticidas químicos há 50 anos. Ante este problema se fazem muitas perguntas, como: temos alternativas ao controle químico?, O que fazer para evitar a resistência do berne aos inseticidas?, quais são os agentes do controle biológico do berne?

Nossos pecuaristas estão muito familiarizados com o berne e conhecem a eficácia da maioria dos bernicidas, mas desconhecem qual é o grau de infestação que deve ter um animal para ser tratado. Desconhecem o ciclo de vida do berne, bem como o comportamento sexual e a oviposição das fêmeas adultas.

É oportuno mencionar que os machos da D. hominis se congregam em certas áreas onde vão as fêmeas para copular. Poucas horas após a cópula a fêmea captura outras espécies de moscas e a fixa uma massa de ovos sobre o abdome transformando-lhe assim em mosca forética, vetora ou transportadora dos ovos. Após 6 a 8 dias da incubação dos ovos, as larvas eclodem quando as moscas transportadoras chegam aos bovinos para alimentar-se e transferem aos animais com muita agilidade. As larvas penetram na pele intacta através do folículo piloso provocando uma miíasis nodular cutânea. O tamanho dos nódulos ou furúnculos aumenta à medida em que as larvas crescem e as secreções purusanguinolentas excretadas através dos orifícios dos furúnculos atraem um maior número de moscas, aumentando assim a possibilidade de uma maior re-infestação pelas larvas do berne.

Já foram reportadas mais de 50 espécies de vetores dos ovos do berne, no entanto, as mais eficientes são as de hábitos zoófilos, diurnas, tamanho menor que a mosca do berne, movimentação moderada e relativamente abundante. Cumprem essas características as moscas Sarcopromusca pruna, Stomoxys calcitrans, Musca domestica, Fannia pusio e Haematobia irritans.

Nós, como pesquisadores, nos perguntamos: estamos em condições de aplicar o manejo integrado do berne? De um modo geral, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) é definido como “um sistema de controle que no contexto do meio ambiente e da dinâmica populacional da praga, utiliza todas as técnicas e métodos adequados da melhor forma compatível possível para manter a praga abaixo dos níveis que causam danos econômicos”.

Para iniciar o MIP em qualquer região dedicada à bovinocultura é necessário calcular o nível de dano econômico causado pelo berne no ganho de peso que justifique seu combate. No Rio de Janeiro este nível está em torno de 50 bernes por bovino. Infelizmente em relação com as peles não existe o nível de dano econômico, já que para produzir peles de primeira categoria temos que tratar os animais preventivamente, decisão que não é ecologicamente recomendável.

Outro detalhe importante é a distribuição do berne nos animais do rebanho. Poucos animais estão altamente infestados e um grande número tem pouco ou nenhum berne. Em muitos lugares tem-se observado que os animais de pelagem escura são mais atacados que os de pelagem clara; devido, entre outras razões a cor obscura que atrai com maior intensidade as moscas e mosquitos, alguns dos quais podem estar portando ovos da D. hominis. Outra justificativa é que os animais de raças européias não se adaptam bem aos climas tropicais e nas horas de maior calor tendem a refugiar-se à sombra dos arbustos e árvores onde se encontram as moscas do berne e seus vetores. Tem-se observado também que a longitude da pelagem dos bovinos ajuda na transferência das larvas do berne do vetor ao hospedeiro.

O gado zebuíno, melhor adaptado aos trópicos, é menos atacado pelo berne, entre outras razões, devido a sua pelagem clara e curta. Faltam estudos para conhecer as verdadeiras causas da resistência dos animais ao berne, já que nos rebanhos aparentemente puros, poucos animais são altamente parasitados.

A presença do berne está associada com regiões que têm temperaturas moderadamente altas durante o dia e relativamente frias durante a noite, precipitação de mediana a abundante, vegetação densa e um número razoável de animais. A D. hominis é uma espécie endêmica em vários estados do Brasil. Focos de alta infestação são observados em fazendas de pecuária localizadas na Mata Atlântica dos estados da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Outros ecossistemas preferidos pela mosca do berne em algumas regiões do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil são aqueles formados pelas fazendas atravessadas por rios ou riachos que correm entre montes com sombras produzidas pela vegetação. Nas regiões onde se apresentam estações úmidas e secas bem marcadas, a infestação do parasito diminui significativamente durante a estação seca.

Nos países do Cone Sul, incluindo alguns estados do sul do Brasil, as infestações dos bovinos iniciam-se durante a primavera, atingem seu pico máximo no verão e diminuem durante o outono. Em certas ocasiões, quando as infestações da D. hominis são altas, as feridas deixadas pelas larvas demoram a cicatrizar-se facilitando a infestação com larvas da bicheira, Cochliomyia hominivorax.

Em relação ao controle biológico infelizmente não dispomos no momento de nenhum parasitóide, predador, fungo, bactéria ou vírus que possa ser utilizado em grande escala no combate ao berne. Conseqüentemente, continuaremos usando inseticidas.

Ante esta triste realidade, é interessante comentar por que após 25 anos de tratamento do berne com triclorfon não se tem comprovado resistência da D. hominis ao inseticida. Provavelmente, devido às seguintes razões: a) grande número de espécies de foréticos ou vetores com um diversificado comportamento alimentar, o que permite ao berne dispersar-se através deles e sobreviver em hospedeiros alternativos não tratados; b) o ciclo de vida da D. hominis é muito extenso. Os insetos que desenvolveram resistência aos inseticidas entre outras razões são aqueles com ciclos de vida curtos, tais como a Haematobia irritans. 3) Animais “refúgios”, ou seja, animais sem tratamento onde se refugiam os parasitos.

Devido ao fato de que a grande maioria dos animais zebuínos é pouco infestada pelo berne, eles não são tratados com inseticidas, o que permite que neles subsistam insetos com genes susceptíveis que mais tarde ao copular com as moscas resistentes virão a diluir o gene ou genes que provocam a resistência.

O controle químico do berne é um pouco complicado pelas seguintes razões: a) grande diversidade de hospedeiros alternativos tanto silvestres quanto selvagens; b) grande número de espécies de insetos vetores dos ovos da D. hominis; c) sistemas de exploração extensivo do gado bovino na maioria das regiões do trópico úmido, cerrados e pampas; e d) uso de inseticidas com proteção residual curta.

Nas pequenas fazendas pecuárias o produto mais usado é o trichlorfon devido a sua eficácia e a seu custo barato; desafortunadamente, a proteção residual é muito curta, o que obriga a tratar os animais com mais freqüência. Os piretróides comumente usados como carrapaticidas e mosquicidas têm pouca ação letal contra o segundo e terceiro instar do berne, mas são excelentes repelentes dos vetores e chegam a controlar o primeiro instar do berne quando tenta penetrar na pele. As doses destes produtos usados como carrapaticidas ajudam no combate ao berne. As avermectinas são os endectocidas mais recentes e mais potentes que se dispõe para o combate ao berne.

Doses de 200 mcg/kg de peso vivo tanto da ivermectina, abamectina, como da doramectina são altamente eficazes no controle de todos os instares da D. hominis. O combate indireto do berne através do controle dos dípteros vetores está se tornando uma realidade com o uso da ivermectina e doramectina, pois fezes provenientes de bovinos tratados com estas substâncias não permitiram o desenvolvimento das larvas de S. pruna 28 dias após o tratamento.

Está faltando conhecer o efeito tóxico destes endectocidas sobre outros organismos associados com o bolo fecal dos bovinos Como não se dispõe de alternativas ao controle químico do berne, nossa responsabilidade aumentou no sentido de um uso adequado, moderado e inteligente dos inseticidas.O Manejo Integrado do berne continuará sendo um desafio por muito tempo para os cientistas, pois no momento, o único método de combate ao berne é o químico. Pesquisas relacionadas com raças resistentes dos bovinos, vacinas, controle biológico do berne e dos foréticos e uso de princípios ativos vegetais foram iniciadas na América Latina e deveriam ser estimuladas se desejamos que o MIP da D. hominis seja uma realidade.

Gonzalo Moya Borja
UFRRJ

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=206