Pecuária

Nutrição adequada para novilhas

A importância do rebanho bovino na economia brasileira é inegável, tendo, neste contexto, relevante papel social, tanto por gerar empregos, como por se constituir na principal fonte de proteína animal da dieta da população do país. Atualmente o Brasil tem se destacado no setor de agronegócios pela excelência dos trabalhos desenvolvidos com a pecuária de corte. A necessidade de intensificação da produção, com a introdução de tecnologias que pretendem oferecer condições de alimentação, de manejo e de sanidade mais adequadas, buscando, assim, a melhoria da produtividade animal sobre bases econômicas, têm contribuído para o desempenho positivo de toda cadeia produtiva da pecuária de corte.

A suplementação de bovinos em pastejo é uma das principais ferramentas para a intensificação dos sistemas de produção. A suplementação permite corrigir dietas desequilibradas, aumentar a eficiência de conversão das pastagens, melhorar o ganho de peso dos animais e encurtar os ciclos reprodutivos, de crescimento e engorda dos bovinos. A suplementação também é utilizada para aumentar a capacidade de suporte dos sistemas produtivos, incrementando a eficiência de utilização das pastagens em seus picos de produção e aumentando o nível de produção por unidade de superfície (kg/ha/ano).

No Brasil, as pesquisas científicas sobre a suplementação a pasto tiveram início em 1980, preliminarmente envolvendo o sistema sal-uréia-mineral, evoluindo, naturalmente, para a linha de suplementos múltiplos, envolvendo os sais nitrogenados e os proteinados. A partir da década de 1990 até os dias atuais, houve um aperfeiçoamento nestas linhas de pesquisa, gerando hoje, uma família de produtos bastante ampla para as diferentes categorias de animais que compõem um sistema de produção de bovinos de corte.

A utilização de suplementos para novilhas de corte em reprodução segue a orientação de que a condição nutricional afeta a idade, a puberdade, a duração dos estros pós-parto, a gametogênese, a taxa de concepção, a mortalidade embrionária, o desenvolvimento pré-natal e o comportamento sexual. Desta forma, a importância da idade das vacas ao primeiro parto para sistemas de produção reside na redução do intervalo de gerações, na capacidade de afetar o progresso genético do rebanho, e no peso e número de bezerros comercializáveis. A redução na idade de acasalamento de novilhas de corte também diminui a participação de animais improdutivos ou em recria na composição do rebanho.

Para qualquer população de bovinos uma idade e peso corporal mínimos são requeridos antes que a função reprodutiva normalmente ocorra. A idade na qual novilhas atingem a puberdade e a distribuição sob a qual a população atinge a puberdade afetam o tipo de decisões de manejo que podem ser tomadas. A conseqüência óbvia da puberdade é a idade ao primeiro parto. O aspecto nutricional é determinante, já que a ocorrência da puberdade está relacionada a um peso-alvo determinado geneticamente, e, desta forma, a faixa de ganho de peso que uma novilha é submetida será responsável pelo tempo necessário a ser atingido para que o animal alcance o peso-alvo que resulte na puberdade.

Para cada população de animais existe um limite de idade e proporção do peso maduro que deve ser atingida antes de uma fêmea poder tornar-se reprodutivamente ativa. A decisão em fornecer nutrientes adequados para atingir este limite é uma decisão de manejo baseada na premissa que o custo do alimento suplementar é maior ou menor que o custo de sustentar uma novilha por um ano adicional sobre a pastagem, ou seja, na relação custo de alimento suplementar para custo de criação da novilha por mais um ano apenas na pastagem.

Para a definição das estratégias de suplementação de novilhas de corte deve ser considerado que a matriz bovina cresce ativamente até os 42-48 meses de vida, assim, devem ser avaliado e considerado o crescimento e desenvolvimento da matriz do nascimento até atingir está idade. As decisões de manejo feitas durante cada fase do desenvolvimento da novilha, iniciando do nascimento até a maturidade, ditam as opções de manejo disponíveis para o produtor na próxima fase. A nutrição limitada tipicamente aumenta a idade a puberdade, principalmente pelo baixo ganho de peso. A intensidade que o ambiente nutricional afeta o início da puberdade pode variar com a sensibilidade genética (mérito genético) da novilha. Portanto, podemos delinear programas alternativos de desenvolvimento de novilhas em função de seu mérito genético.

Para animais submetidos a sistemas de produção semi-precoces, o acasalamento das fêmeas de reposição ocorre aos 25-27 meses de idade, ou seja, durante a segunda estação de monta após o nascimento. Neste caso, em que a idade das novilhas colocadas em reprodução é superior aos 14-15 meses, existe uma certa flexibilidade na quantidade e na época de aquisição do ganho de peso necessário entre a desmama e o início da estação de acasalamento. Normalmente um manejo de pastagem que evite superlotação, somado à suplementação de sal nitrogenado ou proteinado de baixo consumo (abaixo de 500g/cabeça/dia) durante a primeira e a segunda estação seca pós-desmama, que precede a estação de monta, são suficientes para que novilhas mestiças e zebuínas com padrão genético semi-precoce sejam cobertas neste sistema de manejo. É importante que, nos sistemas atuais de bovinocultura de curta duração, visualiza-se como sendo meta final que o peso da novilha ao primeiro parto seja cerca de 80-85% do peso adulto, com idade entre 33 e 36 meses.

Em sistemas de produção precoces, com redução da idade ao primeiro cobertura de 25-27 meses para cerca de 18-19 meses de idade, associado à estação de monta de outono, se constitui em uma estratégia que permite a identificação de animais e promover a expressão precoce da puberdade. Assim, as novilhas de reposição receberiam sal proteinado (500g/cabeça/dia) na primeira seca pós-desmama e durante a estação de monta que, neste caso, seria de março a abril. Eventualmente, para permitir ajustes nos pesos mínimos requeridos para a puberdade a uma idade mais jovem, a suplementação pode ocorrer também nos meses que antecedem à estação de monta, ou seja, entre janeiro e março.

No caso dos sistemas de produção ainda mais intensivos, como é o caso dos sistemas super precoces, as novilhas são acasaladas aos 14-15 meses de idade. O primeiro parto de novilhas de corte, aos 24 meses de idade, ocorre como resultado de um conjunto de práticas de alimentação e manejo dentro de um rebanho de cria, associado com a genética para puberdade super precoce. Para assegurar um desenvolvimento corporal para acasalamento das novilhas super precoces é necessário o fornecimento de suplementos múltiplos para recria de novilhas super precoces, na base de 0,4% do peso vivo por animal/dia durante a primeira seca pós-desmama. Neste cenário de produção super precoce a importância do peso à desmama (sempre acima de 200 kg) se torna ainda mais relevante para o sucesso do sistema.

Após a novilha confirmar a gestação o atendimento das exigências nutricionais deste animal é importante para assegurar um adequado suprimento de nutrientes para crescimento e desenvolvimento apropriado do feto, e assegurar que a novilha esteja em condição corporal adequada para parir e amamentar. Estas condições irão permitir que este animal seja coberto dentro de 80 dias após o parto, e, no caso de vacas primíparas de dois ou três anos de idade, que sejam supridos nutrientes adequados para o crescimento continuado até os 42-48 meses de idade. É importante se ter conhecimento de que as maiores necessidades de nutrientes da matriz bovina ocorrem no final da gestação e no início da lactação, até o pico de produção. Desta forma, devem ser utilizados suplementos múltiplos durante a época seca após a cobertura na proporção de 0,5 a 1,0% do peso vivo do animal em suplemento para o atendimento destas recomendações.

Com este sistema de suplementação as novilhas chegarão ao momento do primeiro parto com adequada condição corporal, que influencia dramaticamente o desempenho reprodutivo destes animais na estação de monta seguinte. Vacas com escore de condição corporal entre 5 e 6 (escala de 1 a 9, 1=muito magra; 9=muito gorda) ao parto retornam muito mais rapidamente ao estro pós-parto, restabelecendo a função reprodutiva mais rápido do que vacas magras ao parto, também concebem mais cedo na estação de monta e apresentam taxa de concepção mais elevada. De forma semelhante, é desejável que os animais estejam com escore de condição corporal mínimo de 5 ao início da estação de monta e à desmama dos bezerros.

Os fatores mais importantes que afetam as respostas aos suplementos são a oferta do pasto, as características nutricionais do pasto, o mérito genético dos animais, a composição e o nível de suplementação. A viabilização da produção em sistemas de bovinocultura de ciclo curto exige que seja realizado o manejo racional das pastagens durante a estação de crescimento, sendo associado à adequada suplementação dos animais em cada fase da criação.

Assim, o desenvolvimento de um modelo de bovinocultura de corte envolve a associação do mérito genético e sanidade apropriada, disponibilidade de forragem com quantidade e qualidade, e aporte de nutrientes suplementares, conduzidos com base em diretrizes de manejo sustentadas por conceitos de gerenciamento, científicos e tecnológicos. Desta forma, a bovinocultura de corte no Brasil estará sempre preparada para as crescentes exigências do mercado interno e externo da carne bovina, ocupando seu lugar de direito na pecuária mundial.

Francisco Palma Rennó
DZO/UFV

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=310