Custo de Produção

Nova linha de crédito pode expandir produção de borracha natural

A produção de borracha natural no Estado de São Paulo tende a se intensificar nos próximos anos. O incentivo vem da nova linha de financiamento do Banco do Brasil para a cultura da seringueira (Hevea brasiliensis), anunciada no final de abril, durante a Agrishow, em Ribeirão Preto, um dos maiores eventos do agronegócio brasileiro. O banco estatal abre o cofre e oferece R$ 20 milhões ao produtor com juros de 6,75% ao ano.

São Paulo produz 60% da borracha natural brasileira, em área plantada de 77 mil hectares, cultivados em quatro mil unidades (fazendas e outras propriedades). Mesmo assim, o Brasil ainda é um grande importador, porque produz por ano apenas 104 mil toneladas diante de um consumo interno de 254 mil toneladas por ano.

Por causa do ciclo produtivo da seringueira, a pessoa terá sete anos de carência e até 12 anos para quitar o débito. A árvore só começa a gerar o látex a partir do sétimo ano. O teto de crédito será de R$ 100 mil por tomador, limitado a R$ 7 mil por hectare. A diretoria do Banco do Brasil assegura que, se houver muita procura pela linha de financiamento, os recursos serão ampliados.

O assistente agropecuário Juliano Quarteroli Silva, da regional de Limeira da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), acredita que o novo financiamento chega em boa hora para o setor. “O produtor paulista sempre investiu com recurso próprio. Agora tem mais um incentivo”, diz. Estudioso do tema, Quarteroli lembra que, se a cultura nacional de seringueira evoluir no mesmo patamar tímido dos últimos anos, o Brasil continuará a importar por anos a fio um produto em que foi líder mundial até a metade do século passado.

FUNDO DE GARANTIA

Quarteroli ressalta também o aspecto social da heveicultura (plantio de seringueira). Ele informa que existem hoje em torno de 50 mil pessoas trabalhando com o produto no País, sem considerar o extrativismo na Amazônia. “Se a gente levar em conta que um seringueiro é capaz de cuidar de 5 hectares num plantio total de 50 mil hectares por ano, para suprir a demanda interna de borracha natural, até 2030, o potencial de geração de emprego no campo cresceria para 250 mil trabalhadores”, calcula.

Ele assegura que a hevea é uma cultural muito viável, pois atualmente um quilo da borracha natural custa R$ 2,50. “Plantar seringueira hoje, para colher daqui sete anos, funciona como se fosse um fundo de garantia”, brinca Quarteroli.

A seringueira é nativa da Amazônia, mas foi levada para o Sudeste Asiático, onde se adaptou e gerou novas espécies. Quarteroli informa que a produção mundial de borracha natural no ano passado somou 9,6 milhões de toneladas, sendo mais de 80% daquela região do mundo, onde se destacam Tailândia, Indonésia e Malásia.

ESTUDO PREMIADO

A indústria de pneu consome 75% de tudo que é extraído da seringueira. Um pneu de automóvel tem de 16% a 20% de borracha natural. Já para os aviões, a porcentagem chega à totalidade. “A natural ganha da sintética em termos de durabilidade, flexibilidade e resistência ao impacto. A natural substitui a outra em toda aplicação industrial, mas a recíproca não é verdadeira”, assegura o pesquisador da Cati.

Há segmentos em que o látex da Hevea brasiliensis é tão preponderante, como em mais de 400 tipos de material e dispositivo médico. Além disso, o produto também serve para produzir o tecido vegetal, usado em roupa e calçado. Quando a árvore envelhece, depois de 40 anos, propicia madeira de boa qualidade.

Quarteroli recebeu no mês passado o Prêmio Jayme Vasquez pela sua dissertação de mestrado Sistemas de Explotação de Clones de Seringueiras: Aspectos Agronômicos e Viabilidade Econômica. A entrega ocorreu durante o 5º Encontro da Borracha em São Paulo, na capital. O prêmio, que contempla o melhor trabalho sobre heveicultura (cultura da seringueira) a cada dois anos, é concedido pela Natural Comunicação, empresa especializada em informações sobre o mercado de borracha natural no País.

O jovem pesquisador realizou seu mestrado na Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico, em Campinas. Este ano, cursa doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, com o tema Fenologia da Seringueira. 

CULTURA SUSTENTÁVEL

Desde 1952, o Instituto Agronômico (IAC), hoje vinculado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), mantém estações experimentais para obtenção de clones de seringueira com alto potencial de produção e resistência a pragas. As unidades estão nas cidades de Pindorama, Votuporanga, Mococa, Ribeirão Preto, Pariquera-Açu, Jaú e em Campinas, na Fazenda Santa Elisa, onde o agrônomo Juliano Quarteroli Silva cursou seu mestrado.

Em Campinas, o látex é retirado diariamente pelo seringueiro Henrique Luiz Cassiano Tomochigue, que aprendeu a técnica numa fazenda em Araçatuba, onde trabalhou vários anos. Ele conta que arranca apenas a casca da árvore, de quase um centímetro, para extrair o látex, sem cortar o tronco, o que atrairia pragas à árvore. Ele coloca o cadinho (espécie de cone) para armazenar o líquido branco e retira quatro dias depois, quando o látex já coagulou, virou borracha.

Experiente com a faca na mão, Henrique talha aproximadamente 1,2 mil árvores por dia, num processo feito sempre de um só lado do tronco. Meses depois, quando volta à mesma árvore, extrai o látex do outro lado para que o espaço aberto antes se regenere e volte a produzir normalmente. É uma cultura sustentável por dezenas de anos. O látex coagulado tem 53% de borracha, sendo o restante, água.

Fonte: http://www.seringueira.com/artigos/?p=432