Custo de Produção

Natural lança projeto inédito de análise da rentabilidade da heveicultura

A equipe de analistas do Sistema de Informações da Borracha Natural Brasileira iniciou um amplo trabalho de levantamento, cálculo, atualização e análise da rentabilidade da heveicultura brasileira. O projeto contou com o apoio de experientes agrônomos e heveicultores que descreveram passo a passo as operações realizadas, desde o preparo de solo até os anos finais de exploração do seringal. As recomendações técnicas de diversos órgãos de pesquisa e extensão também foram utilizadas para a elaboração das planilhas.

O trabalho consistiu inicialmente do estudo das planilhas de custos publicadas em artigos científicos e centros de pesquisa, bem como algumas planilhas disponibilizadas por heveicultores. A equipe constatou que sempre havia diferenças nas metodologias de elaboração. Contudo o que mais chamou a atenção foram as diferenças nos coeficientes técnicos que variavam muito entre metodologias. Essa constatação levou a equipe a montar novas planilhas que representassem adequadamente o estado da arte da tecnologia atualmente disponível para o cultivo, tendo o estado de São Paulo, mais especificamente a região de São José do Rio Preto, como padrão para a pesquisa.

A definição dos coeficientes técnicos foi a etapa mais delicada do trabalho. “Cada operação agrícola tem um rendimento operacional particular e também está atrelada ao tipo de trator e à experiência do operador. Temos de analisar operação por operação” afirmaram os agrônomos Nilson Troleis e Vander Bassan Ruy, técnicos especialistas em heveicultura e também produtores rurais de borracha natural no noroeste paulista. Troleis e Ruy colaboraram no trabalho desenvolvido pela Natural Consultoria.

O conjunto de planilhas está dividido em quatro grandes sessões: (i) operações mecanizadas, (ii) operações manuais, (iii) insumos e (iv) custos administrativos. Os principais resultados do programa são os fluxos de caixa com informações de custo do quilo do coágulo, taxa interna de retorno do projeto, margem de contribuição e valor presente líquido. Os gráficos de receita bruta versus despesas em cada período do projeto e também acumulados trazem melhor visualização dos resultados.

O módulo de análise é para um hectare de seringal com duração de projeto de trinta e cinco anos e produções crescentes de coágulo até atingir o patamar máximo que é seguido do declínio natural da lavoura. Estudos futuros prevêem a análise da viabilidade econômica da comercialização da madeira do seringal.

Para implantação da cultura pode-se escolher entre o sistema mecanizado, usando trator para abertura de cova e para o coroamento, e também a opção para operações totalmente manuais. O preparo inicial do solo e também a construção de curvas de nível e carreadores foram definidos como operações terceirizadas, por exigirem tratores com maiores potências e implementos específicos.

Para a manutenção da área, com as operações de capina mecânica (“roçagem”) e pulverização com o “jumbinho”, a equipe considerou um trator com potência de 90 cv, para trinta hectares. “Poderíamos sugerir um trator de 75 cv para as operações de manutenção do seringal, mas estamos recomendando uma potência pouco superior, pois eventualmente deseja-se usar implementos que exijam um pouco mais de potência, como o uso de um cultivador (enxada-rotativa). Dessa maneira não teríamos problema de falta de potência na propriedade”, afirma o agrônomo da Natural, Cleber Rocco, coordenador da pesquisa.

Para as operações de condução da lavoura, os tratores e implementos foram considerados pertencentes à propriedade, com a devida construção de parâmetros de custo de aquisição, depreciação e taxas de manutenção no tempo. Ponto importante no projeto de custo de implantação do seringal é a separação das operações que são contratadas (terceirizadas) e aquelas que são realizadas pelos trabalhadores da propriedade, remunerados mensalmente e que compõem o custo anual do seringal. Grande impacto pode ocorrer caso seja mantida uma equipe fixa de trabalho no seringal com a responsabilidade por poucos hectares.

A discussão do tamanho da área adequada para uma equipe administrativa composta por um gerente e um ajudante geral é bastante questionável. Para efeito de cálculos iniciais foi considerada a área mínima de 100 hectares para essa equipe. Áreas maiores gerariam menor custo administrativo por hectare, aumentando as margens do projeto.

Para a manutenção do seringal foram listadas, criteriosamente, as operações realizadas a cada ano. Optou-se pela tradicional irrigação feita com trator e tanque pipa ao invés dos modernos sistemas de irrigação oferecidos pelas empresas do setor, e considerou-se a abertura gradual dos painéis realizada em três anos consecutivos.

O período de exploração do seringal foi iniciado no sexto ano de cultivo com abertura de cinqüenta por cento das árvores, seguido pela abertura de quarenta por cento no sétimo ano e o restante no oitavo ano. Essas foram escolhas da equipe do projeto, eventualmente passíveis de alteração, pois se sabe que usualmente abrem-se os painéis no sétimo ano após o plantio.

O dimensionamento e o pagamento dos seringueiros (os “sangradores”) foram elaborados de acordo com o que acontece na prática na região Noroeste paulista. Um seringueiro é responsável por 3.200 árvores no sistema de sangria em d/4 com a exploração de 800 árvores ao dia. O pagamento é composto de uma parcela fixa e de outra variável. Estipula-se um salário fixo ao trabalhador e também se estabelece uma porcentagem sobre a produção de coágulo por hectare. Atualmente na região de São José do Rio Preto, constatou-se a tendência do pagamento de um salário mínimo e o comissionamento que varia de zero até doze por cento da produção anual de coágulo.

Adicional ao rigor técnico na elaboração da planilha, o projeto traz um novo modelo de análise de receita versus número de árvores por hectare e versus o sistema de sangria. “Sabemos que dependendo do sistema de sangria e do estande de árvores, podemos ter diferentes receitas por hectare. A intenção desse novo modelo é apresentar curvas que indiquem qual a melhor combinação entre sistema de sangria, número de plantas exploradas e preço do coágulo. Sabemos que se os preços de mercado estiverem desfavoráveis, o heveicultor tem a opção de não fazer a sangria naquele momento e esperar os preços melhorarem”, analisa o agrônomo Cleber Rocco.

As simulações para a validação do programa refletiram exatamente os custos reais observados pelos produtores que são acompanhados pela Natural e confirmam a viabilidade econômica da cultura no longo prazo, desde que considerados os patamares atuais de preços de mercado.

Como resultado de todo este trabalho, o Sistema de Informações Agroindustriais da Borracha Natural Brasileira publicará em seu site onze novos indicadores. Eles estão ilustrados na tabela abaixo.

Indicadores de Rentabilidade da Heveicultura (IRH)
Custo de produção por área no 20º ano (R$/ha)
Custo de produção por volume no 20º ano (R$/kg de coágulo)
Receita bruta por área no 20º ano (R$/ha)
Margem da produção por área no 20º ano (R$/ha)
Quantidade de coágulo necessário para pagar a mão-de-obra de sangria no 20º ano (kg)
Relação entre o custo de sangria e o custo total de produção no 20º ano (%)
Remuneração da mão-de-obra total no 20º ano (R$/ha)
Margem média anual por área em 35 anos de exploração (R$/ha)
Investimento médio anual por área em 35 anos de exploração (R$/ha)
Valor Presente Líquido do seringal em 35 anos de exploração (R$/ha)
Taxa Interna de Retorno do seringal em 35 anos de exploração (% aa)

Fonte: Natural Consultoria.

Os indicadores serão calculados, inicialmente, com uma periodicidade semestral: no início e na metade do ano. As simulações serão realizadas em dois cenários: i) utilizando o preço médio do coágulo no mercado nos seis meses anteriores; e ii) utilizando o preço médio mensal do coágulo nos 10 anos antecedentes.

Para o engenheiro agrônomo Augusto Gameiro, que teve a idéia inicial deste projeto de custos, tal trabalho é o embrião de muitas outras análises econômicas em heveicultura. “Usualmente a preocupação está apenas voltada aos preços. Mas a análise dos custos é tão ou mais importante que os preços. Visto que os heveicultores são tomadores de preço, o sucesso de seu negócio estará na sua capacidade de ter os menores custos possíveis”, afirma Gameiro.

As atenções da heveicultura nacional e mundial estão voltadas para o comportamento futuro dos preços da borracha natural. Até quando continuarão em patamares elevados? Os estudos de rentabilidade a serem desenvolvidos daqui para a frente, pela Natural Consultoria & Comunicação, poderão indicar as faixas de preços possíveis que ainda tornam a atividade rentável aos heveicultores brasileiros. “Se não temos como adivinhar os preços, podemos, pelo menos, saber a faixa em que a atividade ainda continua rentável”, afirma Rocco. Portanto, o novo projeto é mais uma ferramenta auxiliar no planejamento da heveicultura brasileira.
Redação e edição: Mariana Perozzi

Fonte: http://www.borrachanatural.agr.br/borrachaemfoco/080924.php

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