Reprodutivo

Monta planejada

Grosseiramente, pode se dizer que as fêmeas bovinas só “emprenham” quando estão acumulando reservas; ou ganhando peso, mesmo que seja pouco. Não pode haver restrição alimentar.
Por isso na natureza já existe essa concentração. O período de chuvas se inicia, as pastagens brotam e passam a ofertar cada vez mais folhas, há disponibilidade de volumosos e as vacas entram em cio.

Na administração da rotina das propriedades, organizar uma estação de monta tem o objetivo de ordenar os processos de produção para que a eficiência gerencial aumente.

Sendo assim, se naturalmente já existe uma estação de cinco a seis meses para monta, o empresário rural faz de tudo para reduzir o período de monta para no máximo três meses.

Com isso o produtor ganha na distribuição de serviços ao longo do ano, na eficiência reprodutiva e na economia com funcionários.
Na inseminação artificial, por exemplo, sabe-se que um dos gargalos – que acaba por reduzir os resultados – é a observação de cio das vacas ou novilhas. Se há concentração do período de monta, a empresa pode direcionar recursos para esta atividade durante o período previamente calculado.

Por exemplo, observe na tabela 1 o cronograma das atividades de uma empresa com estação de monta programada para os meses de outubro a dezembro.

Tabela 1. Cronograma das principais atividades relacionadas à reprodução


Observe que as principais atividades ficam claramente concentradas em determinados períodos do ano, facilitando o dimensionamento de pessoal, recursos e rotina de operações na empresa. Em termos de processos, essa organização permite maior controle dos erros operacionais. Quanto maior o número de procedimentos que um operador executa, menor a probabilidade de erros. Evidentemente, desde que essa quantidade não seja exaustiva ou acima dos limites físicos do operador.

Gradualmente, cada empresa vai identificando seus indicadores e a capacidade dos operadores.

A organização da monta também possibilita ganhos nos processos subsequentes. Com o decorrer dos meses após a desmama, rebanhos com diferenças de idade máxima de três meses possibilitarão a formação de lotes mais homogêneos permitindo uma variabilidade menor em um maior número de animais.

A formação de lotes é de extrema importância para o manejo de pastagens, planejamento da suplementação e outros programas de nutrição que empresa pretenda adotar: semi-confinamento, confinamento, intensificação de pastagens, etc.

A medida que se avança no ciclo de produção, de maneira organizada e planejada, ocorre aumento na eficiência de uso do capital.
É por esta razão que empresas pecuárias na vanguarda tecnológica partem para processos ainda mais complexos na reprodução. O exemplo mais notável que cresce no mercado brasileiro é a técnica de inseminação artificial em tempo fixo, ou IATF como é mais conhecida.

Essa técnica, que usa procedimentos veterinários para sincronização de cio, tem como principal objetivo a concentração da parição e a redução de custos operacionais e da ineficiência na observação de cio. Vem ganhando cada vez mais espaço entre os pecuaristas criadores.

O sucesso desta nova tecnologia entre os produtores é a prova de que é interessante organizar a rotina de uma atividade e eliminar os erros humanos dentro da empresa.

Em 2009, nos meses finais do ano, iniciam-se as estações de monta nas propriedades brasileiras. Embora os números tenham gerado certo desconforto no mercado, finalmente o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou os dados finais do Censo 2006.

Pelo IBGE, o rebanho bovino total brasileiro em 2006 era de 171,6 milhões de cabeças. No mesmo, ainda segundo o IBGE, nasceram 37,32 milhões de bezerros, entre machos e fêmeas.

Com estes dados, e alguns índices zootécnicos geralmente divulgados pela Embrapa, Cepea, Scot Consultoria e outras empresas ou instituição que geram informações estatísticas, podemos estratificar o rebanho, chegando a um total entre 56 milhões a 59 milhões de cabeças de vacas e novilhas em primeira cria no rebanho brasileiro.

Se assim for, a taxa de natalidade do rebanho brasileiro ficaria por volta de 63% a 67%; um índice ainda muito baixo. Mesmo assim, fica dentro da realidade quando se leva em consideração a média das propriedades brasileiras.
Segundo a ASBIA(Associação Brasileira de Inseminação Artificial), em 2008 o mercado de sêmen no Brasil foi de 8,2 milhões de doses; com raças de corte e leiteiras divididas praticamente em partes iguais, 50% cada.

Considerando uma eficiência média de 1,5 dose para cada concepção, podemos considerar que 5,4 milhões de fêmeas brasileiras estejam em inseminação. Cerca de 2,8 milhões de fêmeas inseminadas com sêmens de gado de corte. Voltando aos números do IBGE, pode-se considerar que algo entre 31 a 33 milhões dos bezerros nascidos ao ano foram concebidos por monta natural, ou seja, o uso de touros.

É difícil precisar a quantidade de fêmeas em todo o Brasil, cujos produtores planejam a estação de monta para melhorar a eficiência da empresa. Não são apenas os produtores que inseminam que acabam por usar a estação de monta. Mesmo com a monta natural – o uso de touros – há muita vantagens em adota a estação de monta planejada, na propriedade.

Essa técnica tem crescido gradualmente tanto nas fazendas que inseminam como nas de monta natural.
E este crescimento deve ganhar ainda mais força nos próximos anos. A pecuária de corte brasileira agregou mais tecnologia nos setores de recria e engorda do gado, enquanto o setor de cria veio adotando tecnologia de maneira mais lenta.

Sendo assim, com a provável recuperação das exportações e crescimento do mercado interno, a demanda de bovinos tende a se firmar nos próximos anos, o que imprimirá uma tendência de aumento de eficiência no setor de cria brasileiro.
Cada 1% de aumento na eficiência de natalidade do rebanho brasileiro representa um aumento de 560 a 590 mil bezerros a mais. Para atender o aumento de demanda de bovinos de corte, não restam dúvidas que o setor de cria será um dos gargalos.
Por isso é possível estimar o ganho de importância e aumento de eficiência técnicas nas fazendas especializadas na criação de bezerros.

Em termos práticos, os resultados econômicos do produtor rural melhoram muito com a organização da estação de monta e o planejamento do descarte das fêmeas que não emprenharam nesta estação.

Dados médios mensais de rebanhos brasileiros apontam custos em torno de R$15,00 a R$20,00 por cabeça por mês na propriedade. Só aí é possível estimar o custo de um rebanho com 25% a 30% das fêmeas não prenhes na propriedade.

Em um rebanho de mil vacas, sendo que 25% delas estejam vazias, cada mês que elas ficaram na propriedade representa um custo de R$ 5.000,00 desnecessários na empresa. Quanto mais cedo o produtor decidir pelo descarte, melhor para ele.
Este é apenas um dos parâmetros econômicos. Colocando tudo na ponta do lápis, entre ganho em eficiência operacional, adequação de equipes, concentração de processos, manejo de inseminação ou de touros, etc. a economia em uma propriedade é bem significativa. Faz a diferença.

É por esta razão que as perspectivas de aumento dos produtores que adotarão a estação de monta são tão certas quanto à necessidade de ganho de produtividade.

Autor: Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo e diretor da Bigma Consultoria
mauricio@bigma.com.br

Fonte: www.bigma.com.br