Reprodutivo

Monta natural x IA

As vantagens da utilização da inseminação artificial (IA) são inúmeras, sendo que os ganhos diretos seriam a utilização de sêmen de touros melhoradores, com alto valor genético e a possibilidade de fazer cruzamento industrial, eliminando-se as dificuldades existentes em manter touros europeus em monta natural, em regiões de clima tropical. Alguns ganhos indiretos que poderiam ser atribuídos à utilização da IA, mas que são de difícil mensuração, são a estruturação e organização da propriedade para utilizar-se desta tecnologia, a formação de mão-de-obra especializada, melhoria de alimentação e sanidade do rebanho.

Entretanto a inseminação artificial (IA) ainda é pouco utilizada no Brasil, devido ao custo do processo e, principalmente, devido à baixa eficiência, quando comparada à monta natural (MN), nos sistemas tradicionais de produção de gado de corte que predominam no Brasil. Em conse-qüência, o seu uso fica restrito quase que somente a produtores que trabalham com rebanhos elite.

Além dos aspectos zootécnicos, merecem atenção os aspectos econômicos relacionados ao uso da IA.

Monta Natural (MN)

A aquisição de touros para monta natural com DEPs positivas para as características de produção pode trazer um grande avanço na disseminação do melhoramento em rebanhos comerciais.

Permanecendo por longo tempo na fazenda – ao redor de seis estações de monta – o touro tem oportunidade de deixar de 100 a 300 filhos, dependendo da relação touro: vacas e das taxas de prenhez obtidas. Portanto, a escolha do reprodutor é fundamental, devendo ser embasada na avaliação genética.

A oferta de touros melhoradores, porém, ainda não atende as necessidades do rebanho brasileiro, embora venha crescendo com a adesão de grande número de criadores a programas de melhoramento genético. A aquisição desses touros para uso em rebanhos comerciais é geralmente compensadora, desde que suas características e preços sejam adequados. Para saber o quanto se pode pagar por um touro, vários são os aspectos a levar em conta: tipo de rebanho em que será utilizado, número de vacas com as quais será acasalado, tempo de permanência na fazenda e taxa de prenhez média da propriedade.

Se os touros forem utilizados na proporção de 1:50 possibilita um descarte da ordem de 50% dos mesmos. Com a diminuição dos custos de aquisição e manutenção de touros, o produtor poderia redirecionar os investimentos para a compra de indivíduos geneticamente superiores e andrologicamente testados. A real capacidade reprodutiva de touros da raça Nelore é desconhecida, mas sabe-se que esses indivíduos em monta natural são em geral sub-utilizados.

Inseminação Artificial (IA)

A biotecnologia que causa maior impacto nos programas de melhoramento animal sem sombra de dúvidas é a inseminação artificial. Esta técnica é conhecida desde 1920, porém, apesar dos avanços, ainda é pouco utilizada. A inseminação artificial proporciona aos produtores em qualquer dos níveis o acesso a material genético superior, contribuindo para a diminuição da defasagem genética. Ela foi responsável pela massificação da utilização de animais geneticamente superiores, e tornou possível a realização de programas de avaliação de touros jovens, diminuindo ainda mais o intervalo de gerações.

Segundo dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA), o comércio de sêmen cresceu 5,61% em 2003 em relação ao ano anterior. Se for considerada a evolução de 1999 a 2003, houve aumento de 34,21% nas vendas totais. Mesmo com o crescimento desse comércio, apenas 5 a 7% das fêmeas em idade reprodutiva são inseminadas no Brasil (dados aproximados).

Pode-se afirmar que a baixa taxa de prenhez é um dos principais fatores limitantes ao uso da IA nos rebanhos comerciais de gado de corte. Essa baixa eficiência reprodutiva pode ser explicada pelas dificuldades do manejo diário de animais por um período de 90-100 dias na época das chuvas, para observação de estro e inseminação propriamente dita. Vale salientar que, para as condições brasileiras, as taxas de prenhez estimadas para a IA estão entre 50 e 60%.

Monta natural x IA

Em uma simulação comparou-se o custo da monta natural e da inseminação artificial. Para tanto foram realizadas algumas simulações com base em uma fazenda hipotética de 1.220 ha de pastagens, com capacidade de suporte na seca de 0,8 UA/ha. A fazenda realiza as fases de cria, recria e engorda e possui um rebanho estabilizado de 1.700 cabeças ou 1.042 UA. Os índices zootécnicos aplicados foram semelhantes para as duas situações estudadas MN ou IA e são os seguintes:
• número de vacas em reprodução: 550
• taxa de prenhez: 80%;
• taxa de mortalidade até 1 ano: 5%;
• taxa de mortalidade demais categorias: 1%;
• taxa de descarte das vacas: 15%;
• idade à primeira cria: 3 anos;
• idade de abate dos machos: 2,5 anos;
• peso ao abate dos machos: 500kg
• preço da arroba Campo Grande (MS) em janeiro de 2003: R$ 57,00.

A taxa de prenhez de 80% para os dois sistemas. O preço do touro utilizado no Sistema 1 foi o de R$ 4.000,00 e partiu-se do pressuposto que este touro possuía avaliação genética e teria diferença esperada na progênie (DEP) positiva para peso ao abate. O valor do sêmen utilizado no Sistema 2 foi o de R$ 10,00 e também seria proveniente de um touro com avaliação genética, sendo que os resultados gerados em termos de peso ao abate dos animais foi semelhante para os dois sistemas.

Conforme a análise dos dois sistemas de produção (Tabela 1 – veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF ), a margem bruta (receita menos gastos operacionais) no Sistema 1 foi 5% superior ao Sistema 2, isso ocorreu pois os gastos operacionais da IA são maiores (R$ 75.036,44) do que os da MN (R$ 62.705,66). Porém o custo com aluguéis que inclui o rebanho de reprodução é maior no Sistema 1 devido ao custo de depreciação dos touros, que não existem no Sistema 2. Por este motivo, a margem para remunerar o produtor é equivalente nos sistemas estudados. Estes resultados demonstram mais uma vez a necessidade de se obter bons índices de prenhez para que o investimento, tanto em touros de alto valor genético como na utilização da IA, seja compensador. Nesta simulação considerou-se que os resultados em termos de produção do sistema (peso de abate dos bois) seriam semelhantes, pois tanto os touros, no Sistema 1 como o sêmen dos touros, no Sistema 2 foram adquiridos com base na avaliação genética, portanto apresentavam DEPs positivas para ganho de peso, refletida em maior peso ao abate para as duas situações.

Conclusões

Propriedades com bom nível gerencial e mão-de-obra qualificada, que possuem bons índices de produtividade, podem adotar a inseminação artificial com ganhos econômicos, pois é a forma mais viável de aceleração do melhoramento genético do rebanho, uma vez que touros de alto valor genético geralmente não estão disponíveis para o uso em monta natural.

Thaís Basso Amaral, Eduardo Simões Corrêa e Fernando Paim Costa,
Embrapa Gado de Corte

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=369