Curiosidades

Modernidade no campo faz da enxada um mito

24/08/2015

Qualquer família urbana pouco atenta comete erros grosseiros quando vai descrever a seus filhos pequenos como é produzido o leite ou mesmo o feijão. As tecnologias estão transformando as atividades rurais, cada vez mais automatizadas. Ordenhar uma vaca com as próprias mãos, capinar a lavoura usando enxadas, abater um animal usando instrumento cortante… são práticas à beira da extinção.

Para evitar que uma criança pense que o leite vem simplesmente do supermercado ou que os alimentos surgem em fábricas, é preciso conhecer a nova rotina do campo, que pode ser descrita de maneira até mais simples do que as antigas. A modernidade mistura urbano e rural por meio do conhecimento.

Da vaca para a indústria

Mesmo em fazendas leiteiras pequenas, com dez a vinte vacas, o uso de ordenhadeiras mecânicas se tornou praticamente obrigatório por questões sanitárias. Tirar leite com as próprias mãos? Somente para consumo próprio ou por hobby. O leite que chega nas unidades de beneficiamento como a da cooperativa Castrolanda, em Castro, não entra em contato com o ar. Sai direto da vaca para tambores de refrigeração e depois é levado para a indústria em caminhões-tanques como os que transportam combustíveis. A pecuária vem testando sistemas em que a própria acoplagem das ordenhadeiras nas tetas da vaca é feita mecanicamente, com uso de sensores.

O fim dos calos da capina

Dois fatores fazem com que enxadas e arados sejam abandonados. Eles são motivos de comemoração: quem teve algum contato com a rotina da capina sabe o quanto essa tarefa é árdua, principalmente sob o sol. O uso de herbicidas eficientes (não necessariamente mais tóxicos) é o primeiro deles, com o controle de praticamente 100% do mato. O segundo fator é o plantio direto na palha, em que uma lavoura é plantada após a outra sem remoção da palhada. Essa camada protege o solo e de certa forma ajuda a reduzir as plantas daninhas e evita compactação. Os riscos que são observados na terra na verdade são marcas de plantadeiras. Mais da metade das lavouras de grãos do Brasil usam esse sistema. Nas culturas em que virar a terra é necessário (batata, mandioca e hortaliças em geral), predomina o uso de tratores e arados.

Quase tudo vem da soja

Por que o Brasil cultiva tanta soja? Por que o grão se tornou o principal produto de exportação? Certamente as lavouras não são mais campos de produção de matéria-prima para óleo de cozinha e derivados como margarina. O grão serve, sim, basicamente para à produção de óleo e farelo. Esses produtos são usados nas cadeias de uma lista de mais de 100 alimentos. O farelo entra na ração, que vira carne de suíno e frango, principalmente. Também há soja no hambúrguer, em sucos, em achocolatado, na maionese… e até em cosméticos. Milhões de toneladas de soja são usados ainda na produção de biodiesel.

Abates menos violentos

Os sistemas industriais de produção de carne praticamente eliminaram o uso de instrumentos cortantes nos abates. Frangos, suínos e bovinos são primeiro atordoados e, após perderem os sentidos, sangrados. Pistolas de pressão são usadas para “desmaiar” os animais maiores. Os frangos, pendurados em fileiras, “apagam” ao tocar a cabeça numa corrente de água eletrificada. O “abate humanizado”, que integra a lista de critérios de bem-estar animal indispensáveis à exportação, inclui conforto no transporte e até silêncio na hora de apanhar as galinhas para condução aos frigoríficos. Antes da adoção das novas tecnologias, bovinos e suínos eram abatidos com instrumentos cortantes ou tiros. Galinhas tinham o pescoço quebrado ou simplesmente cortado, em métodos que eram bem aceitos, embora causem arrepios em qualquer vegetariano.

O campo sem colonos

A própria imagem do produtor rural muda drasticamente com os novos sistemas produtivos. A agricultura familiar cultiva a maior parte dos alimentos que chegam ao consumidor in natura, mas mesmo em pequenas propriedades quem produz está cada vez mais próximo da rede de distribuição, do comércio, do consumidor. Ou seja, são cada vez mais raras as famílias ou vilas isoladas da zona urbana e a figura do colono fica desbotada. E não se trata propriamente de um novo êxodo rural, fenômeno que marcou a história do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. O campo fica mais urbano. Embora tenha oportunidades mais lucrativas que as de 40 anos atrás, perde população para as cidades pela própria possibilidade de as atividades serem coordenadas à distância. A população mundial urbana ultrapassou a rural em 2007. No Brasil, isso aconteceu no início dos anos 1970. Em 2010, a relação era de 30 milhões de brasileiros (16%) no campo contra 161 milhões nas cidades (84%). Em 2050, essa diferença pode ser de 16 milhões (6%) para 238 milhões em 2050 (94%). Mas quem ficar na lavoura deverá operar máquinas controladas por computador em atividades cada vez mais automatizadas.

Alimentos menos tóxicos

Outro mito criado pela modernização da produção de alimentos é o de que as novas tecnologias representam invariavelmente maior risco à saúde do consumidor de alimentos. O temor surge também pelo fato de o Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. No entanto, a concentração de substâncias de risco nos alimentos tende a cair, segundo os especialistas. Eles consideram que o Brasil usa mais defensivos por ter clima tropical (favorável a insetos e plantas daninhas). Além disso, partem do fato de que todos os agrotóxicos têm o grau de concentração considerado seguro para a saúde humana determinado por pesquisas que antecedem a liberação comercial. Como esses produtos representam alto custo para os produtores, a tendência é que a dose indicada seja respeitada por economia. Quando o alimento sai do campo, boa parte da substância aplicada na lavoura já se degradou, diz a pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP Elizabeth de Souza Nascimento. O maior controle dos efeitos dessas substâncias tem sido o caminho para tornar os alimentos mais seguros. A produção de alimentos orgânicos, sem agrotóxicos, em volume suficiente para o abastecimento exigiria uma área maior do que a cultivada atualmente.

Fonte: Gazeta do Povo (AgroGP)
Autor: José Rocher