Desperdício de Produção

Menos DEJETOS

Mauro Dal Secco de Oliveira*

O fornecimento de cana-de-açúcar como volumoso no período de estiagem é uma das práticas muito utilizadas em nosso meio, tendo em vista a alta disponibilidade desta forragem neste período crítico. O termo hidrólise, em forragens, refere-se à quebra da estrutura da fibra, o que sugere a solubilização de componentes que, por consequência, aumenta a digestibilidade do alimento como um todo, proporcionando uma alimentação adequada e econômica aos animais.

A hidrólise da cana-de-açúcar com agentes alcalinizantes, como a cal virgem ( ≥ 94,1% de CaO) ou hidratada ( ≥ 95% de Ca(OH)2), é uma técnica simples e econômica, podendo ser utilizada pelos produtores rurais com o intuito de alimentar diferentes espécies animais, principalmente vacas leiteiras. A hidrólise da cana-de-açúcar, com o uso da cal virgem ou hidrolisada (0,5 kg de cal misturado com 2 litros de água para cada 100 kg de cana picada), proporciona algumas vantagens: melhora a digestibilidade, o consumo, possibilita a prevenção de acidose ruminal, evita a presença de abelhas e mosquitos, reduz o custo da ração, evita desperdício de ração, possibilita o uso da cana armazenada por até três dias (Figura 1, abaixo).

Destaca-se que, dentre os fatores relacionados com o sucesso da hidrólise, estão o tipo de cal, a homogeneização e a maturação da cana-de-açúcar. Deve-se atentar para a concentração de óxido de hidróxido de cálcio Cales para fins de construção ou que apresentem substâncias tóxicas aos animais como a dioxina e furanos, não são recomendadas. Atualmente existem aproximadamente 63 tipos de cal virgem e 75 de cal hidratada.

Todavia, os dejetos nas granjas leiteiras têm recebido crescente atenção, pois ocorrem perdas de nutrientes tão logo eles são produzidos, podendo causar contaminação do ar, do solo, de águas superficiais e subterrâneas, que contêm microrganismos capazes de disseminar doenças no rebanho, para outras espécies e para o homem; favorecendo a proliferação de moscas e causando odores. Assim, é necessário o conhecimento das quantidades de dejetos geradas pelos animais e de suas características. O primeiro é uma ferramenta útil para o manejo adequado dos dejetos e para a elaboração dos sistemas de coleta e de reciclagem e/ou tratamento. O segundo pode ser útil para o planejamento do seu uso como fertilizante ou para medidas de controle de poluição ambiental.

Outros problemas dos dejetos são o seu grande volume e baixo valor fertilizante em relação aos fertilizantes comerciais; a geração de dejetos é contínua enquanto sua aplicação é sazonal, podendo ocorrer problemas de estocagem .

Trabalho de pesquisa desenvolvido pela UNESP – Câmpus de Jaboticabal revelou que a cana-de-açúcar hidrolisada com cal, além de contribuir com a nutrição das vacas, contribui com o meio ambiente em termos de produção de dejetos (Tabela 1).Vacas leiteiras da raça holandesa alimentadas com dietas contendo concentrado e volumosos (SM= silagem de milho; CIN= cana-de-açúcar picada; CHCV= cana hidrolisada com cal virgem e CHCH= cana hidrolisada com cal hidratada) produziram quantidades diferentes de dejetos. As vacas que receberam CHCH apresentaram menores produções diárias de dejetos (26,60 kg), sendo 16,77% menos que aquelas que receberam CIN (31,96 kg).

O fato da dieta constituída pela CHCH ter proporcionado menor quantidade de dejetos, está relacionado com o aproveitamento dos nutrientes da cana-de-açúcar, devido à ação da cal. Esse dado tem grande importância para o planejamento de sistemas de tratamento e/ou reciclagem dos dejetos, pois implica na redução ou aumento da capacidade volumétrica de canaletas, de tanques de homogeneização, de peneiras, de pátios de compostagem, de biodigestores e de área para a disposição do composto ou biofertilizante. De maneira geral, nas dietas CHCV e CHCH, retornam menos minerais para o solo, exceto o cálcio, uma vez que na hidrólise ocorre adição do mesmo, o que contribui com a mineralização dos animais. As cais proporcionaram dejetos com pH maior, o que pode ser interessante do ponto de vista de reciclagem energética e de nutrientes dos dejetos, com prováveis efeitos na decomposição da matéria orgânica na compostagem ou biodigestão anaeróbia desses dejetos e no solo, quando da utilização do composto ou do biofertilizante obtido.

*Zootecnista e profº do Departamento de Zootecnia da FCAV/Unesp Jaboticabal (SP)

 

Fonte: http://www.edcentaurus.com.br/materias/ag.php?id=2883