Pecuária

Melhorando os campos

A pecuária brasileira conquistou novos mercados, aumentou as exportações de carne e atingiu a posição de maior exportador mundial em 2003. Um dos fatores determinantes para essa conquista foi a preferência dos consumidores por alimentos mais saudáveis, obtidos em sistemas de criação baseados na utilização de pastagens, onde os animais podem caminhar na busca do alimento, em troca dos produtos oriundos de sistemas de criação intensiva de bovinos baseados na manutenção dos animais confinados e alimentados com subprodutos de origem animal, como vinha-se fazendo em diversos países da Europa e no Canadá. As nossas condições ecológicas, com abundância de radiação solar, proporcionam vantagens competitivas para a utilização da alimentação a pasto, cujas características possibilitam a obtenção de produtos de alta qualidade alimentar com baixo custo.

Nesse cenário, produtos de origem animal obtidos em sistemas de criação baseados em pastagens naturais tornam-se ainda mais atrativos, em função de que não houve impacto ambiental para a formação das pastagens e a utilização de insumos industrializados, especialmente os adubos químicos, é mínima ou nula. Os campos nativos do Sul do Brasil já vêm produzindo e contribuindo para a economia do Rio Grande do Sul e do Brasil por mais de 200 anos, constituindo-se em um exemplo de sistema de produção sustentado. Além disso, contribuem para a conservação do solo, da água e da fauna.

O que torna estes campos especiais é o grande número de gramíneas com capacidade de produção de forragem e a coexistência de espécies com metabolismo de fotossíntese C3 (temperadas ou de inverno) e C4 (tropicais ou de verão), que influenciadas pelas condições ambientais (solo e clima) e de manejo são encontradas em diferentes combinações, formando comunidades vegetais distintas.

Contudo, apesar da sua importância sócioeconômica e ecológica, os campos sulinos não têm sido valorizados e estão sob grande pressão antrópica devido à expansão da agricultura e o manejo inadequado, principalmente o uso continuado e intenso, que diminui o resíduo de matéria seca disponível aos animais, reduzindo o consumo e o desempenho animal. Também promove a diminuição da presença e até o desaparecimento das boas espécies forrageiras nativas, especialmente das espécies hibernais, devido à redução do vigor das mesmas e à impossibilidade da produção de sementes. Outrossim, abre a comunidade vegetal facilitando a ocorrência de espécies não forrageiras e o aumento da compactação e da perda dos nutrientes do solo pela falta de cobertura, com conseqüente diminuição da capacidade produtiva dos campos.

Para evitar esses problemas e manter os campos naturais sulinos produzindo é necessário modificar a forma de manejá-los, passando a adotar práticas que levem em conta as necessidades da pastagem e que sejam recuperadoras e melhoradoras da sua capacidade produtiva. Uma dessas práticas de manejo é o diferimento, que pode ser definido como um descanso planejado da pastagem através da retirada dos animais por um tempo suficiente para a produção e queda das sementes (ressemeadura natural) das espécies forrageiras nativas, de forma a aumentar a presença e a contribuição das espécies desejáveis na composição botânica. O tempo para a manifestação dos efeitos varia de poucos a muitos anos, dependendo da condição de degradação anterior, do tipo de solo, clima, competição entre as espécies e estoque de sementes (muito dependente). Além disso, diferimentos em diferentes épocas favorecem a manifestação das distintas espécies.

Um exemplo da mudança da composição florística foi verificado por GOMES (1996), onde um campo natural diferido na época de produção de sementes das gramíneas C3 (primavera), teve um aumento de 140% na freqüência de ocorrência dessas espécies em relação a uma área não diferida.

Em uma avaliação que está sendo realizada na Embrapa Pecuária Sul, localizada em Bagé (RS), foi observado que as gramíneas C3 Agrostis montevidensis, Briza minor, Briza subaristata, Bromus auleticus, Bromus catharticus, Calamagrostis viridiflavescens, Phalaris angusta, Piptochaetium montevidense, Piptochaetium stipoides e Vulpia sp. entre outras, e Adesmia latifolia (leguminosa de inverno), estão sendo protegidas pelo diferimento de inverno/primavera (descanso de meados de agosto a início de dezembro – cerca de 120 dias), apresentando intenso florescimento e formação de sementes. O destaque tem sido para Bromus auleticus, por ser uma gramínea perene caracterizada pela boa produção de forragem de alta qualidade, demonstrando que a utilização dos campos naturais durante todo o ano prejudica o desenvolvimento e persistência destas espécies. Também se beneficiaram com o mesmo diferimento as gramíneas C4 Axonopus argentinus, Coelorachis selloana, Panicum hians (Figura 4 – veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF), Paspalum dilatatum, Paspalum plicatulum (Figura 5), Paspalum urvillei e Trachypogon canescens, todas com média a alta qualidade da forragem.

Outra finalidade é acumular forragem em um período para a utilização em outro, de pouco ou nulo crescimento da pastagem como é o inverno na região Sul, diminuindo as perdas de peso dos animais. O diferimento das pastagens, ou vedação, também é realizado no Brasil Central para suprir a falta de forragem do período seco.

Em uma avaliação do desempenho animal realizada no período de 05/06 a 15/08/01 (parte do outono/inverno) na Embrapa Pecuária Sul, verificou-se que os animais mantidos durante todo o ano sobre o campo (tratamento Testemunha) perderam em média 16 Kg de peso vivo porque houve redução de consumo devido ao baixo resíduo disponível, enquanto que os animais que utilizaram uma área diferida no outono (de março a junho), ganharam cerca de 14 Kg em pleno inverno (Quadro 1), em função da maior disponibilidade de forragem acumulada anteriormente (outono), que garantiu níveis de consumo maiores. É importante destacar que as cargas estavam ajustadas às disponibilidades de forragem de cada tratamento.

Outro aspecto importante é sobre os efeitos do descanso da pastagem sobre a parte subterrânea. Em uma avaliação feita em julho de 2003, foi confirmada a vantagem do diferimento para a recuperação e ampliação do sistema radicular (Quadro 2), tendo sido verificado um aumento de 106% no peso de rizomas e de 35% na percentagem de raízes na camada de 10 a 20 cm de profundidade no tratamento Diferimento de Verão (descanso de início de março a início de junho) em relação ao tratamento sem descanso (Testemunha).

Considerações finais

Esses resultados demonstram que ainda temos muito que avançar na melhoria do manejo e que o diferimento pode ser uma ferramenta útil na reformulação do modo atual de utilização, viabilizando a ampliação da produção animal e a conservação dos campos naturais sulinos.

Apesar da sua realização ser fácil e de baixo custo, é necessário fazer um planejamento do uso das áreas e do rebanho, para não coincidir a época e/ou o tamanho das áreas diferidas com o momento de maior demanda de forragem pela propriedade. A duração é determinada pelo tempo para o amadurecimento das sementes.

Klecius Ellera Gomes
Embrapa Pecuária Sul

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=233