Pecuária

Manual para o dia-a-dia

O manejo rotineiro dos bovinos — independente de seu temperamento — envolve riscos de acidentes com as pessoas e os próprios animais, além de efeitos desastrosos em todos aspectos produtivos quando é realizado de uma forma inadequada – agressiva e ineficiente. O problema pode ser ainda mais sério quando os animais são desacostumados com o manejo, as pessoas não têm o conhecimento e a atitude corretos, e as instalações são mal planejadas e conservadas.

O bom manejo deve iniciar no momento do nascimento do bovino e seguir por toda vida deste. O bovino possui uma forte memória associativa, portanto, experiências prévias negativas afetam o comportamento do animal quando precisa passar pela mesma situação novamente. Mesmo se um animal apresenta um bom temperamento devido a um acontecimento traumático ele pode tornar-se um animal problemático.

As regras mais importantes para um bom trabalho são óbvias mas essenciais: bom senso, calma e respeitar o comportamento natural do bovino. Não devemos “forçar” o animal a fazer algo contra sua natureza, conhecendo seus princípios de comportamento, devemos “induzi-lo” a fazer o que queremos.

Este artigo apresenta algumas recomendações simples para o manejo diário e do pré-abate, que, se seguidas, podem tornar a lida mais segura, eficiente e menos danosa para a produtividade dos animais. Contudo, por mais que tenhamos um bom sistema de manejo nunca devemos subestimar o risco de acidentes mesmo com todas as precauções sendo seguidas.

Geral

Mantenha o gado familiarizado com as pessoas e diferentes tipos de manejo (a cavalo ou a pé).
Os bezerros necessitam uma atenção especial – no pasto e no curral – são animais bem mais frágeis que os adultos e devem ser tratados de uma forma diferenciada, com muito menos agressividade do que o tradicional.
Seja paciente, deve-se respeitar os animais. Movimente-se com calma, evite movimentos bruscos e sons repentinos quando entre o gado.
Use o instinto de rebanho no manejo. Evite deixar um animal isolado.
Acostume o gado a entrar e sair calmamente do pasto, piquete e curral.
Elimine o uso de ferrões. O uso de varas com tiras de plástico ou outras distrações na ponta funcionam muito bem para tocar o gado. O fundamental na lida é o posicionamento da pessoa. Estando o bovino tranqüilo, podemos levá-lo para onde quisermos.
Tenha sempre as instalações de manejo em bom estado de conservação e as revise (cercas, curral, embarcador etc) antes de trabalhar com o gado nestas. Examine o funcionamento de dobradiças, tronco de contenção, etc.
Planeje – ou reforme se necessário – o curral objetivando aproveitar os princípios de comportamento dos bovinos para um fluxo mais fácil dos animais (vide artigo “Curral racional”, Cultivar Bovinos, ed. 03).
Tenha um cuidado especial com o embarcador. Todo seu esforço na produção de um bovino com uma carcaça de boa qualidade pode ser perdido em segundos.
Movimente lotes reduzidos de animais.
Limite o número de pessoas no curral ao mínimo necessário para o trabalho com o gado.
Retire os cães do local de trabalho.
Não ocupe toda a área da seringa/embute. Os animais necessitam de espaço para se virarem ou visualizarem a entrada do tronco.
Elimine distrações visuais.
Use adequadamente o tronco de contenção, com pressão suficiente para conter o animal (sem excesso ou falta). O animal deve entrar e sair andando do tronco ou brete.
Para qualquer categoria a primeira experiência em um curral deve ser a mais tranqüila possível.

Manejo pré-abate

Para a produção de um carcaça de boa qualidade e bom rendimento, com o mínimo de contusões, são essenciais um manejo adequado na fazenda, no embarque/desembarque e no frigorífico, um transporte bem planejado e a condução apropriada do veículo. O manejo no frigorífico deve seguir as mesmas recomendações para a fazenda.

Seleção para abate

Planeje previamente a venda dos animais para abate para que qualquer remanejamento de lotes seja feito com antecedência.
Selecione lotes homogêneos obedecendo ao peso mínimo e com uma pequena diferença entre o animal mais leve e o mais pesado do lote.
Selecione lotes com bom acabamento.
Não misture animais inteiros com animais castrados.
No caso de animais inteiros, estes devem permanecer juntos da engorda até ao abate.
Manejo para abate
Programe previamente o manejo pré-embarque (do pasto ao embarque).
Não misture bovinos (para abate) de lotes diferentes na fazenda, se for inevitável, faça-o pelo menos de 3 a 4 semanas antes do embarque.
Não misture lotes diferentes no momento de embarque.
Evite apartar um ou dois animais de um lote para completar uma carga de caminhão de outro lote.
Espere pelo menos um mês para enviar o abate gado comprado ou vindo de outra fazenda.
Se necessário trabalhar com o gado para abate no curral, faça-o no mínimo uma semana antes do embarque.
Ofereça um período de descanso com alimentação e água por pelo menos 12 horas antes do manejo de embarque para animais que tiveram problemas sérios de manejo antes do embarque.

Embarque

Evite embarcar novilhas em cio.
Evite embarcar animais inteiros junto com castrados.
Bovinos de chifre devem ser embarcados separados dos animais sem chifre.
Embarque lotes de animais de peso similar.
Não embarque animais de temperamento muito inadequado ou com sinais severos de estresse.
Não embarque animais doentes ou dentro do período de tratamento veterinário.
Os animais mais susceptíveis ao estresse e contusões durante o transporte devem ser embarcados por último e desembarcados em primeiro lugar.
Embarque o gado em silêncio, com calma e aos poucos. Não use cães, ferrões e restrinja ao máximo o uso de ferrões elétricos.
Evite embarcar o gado durante chuva.
Tenha muito cuidado com a quantidade de animais no caminhão, os animais não devem ficar apertados nem com muita folga entre eles. Não tente colocar mais animais do que o recomendado.

Transporte

Trabalhe com transportadoras de confiança.
Combine com antecedência o horário (e confirme) detalhes do transporte.
Esteja com o gado pronto para o transporte no horário combinado.
Examine o estado do caminhão de transporte. Preste atenção a qualquer saliência que possa causar contusões e ferimentos, e ao piso, que deve estar em boas condições de higiene, seco e propiciar firmeza aos animais.
Não aceite que o gado seja transportado em veículos que não atendam a condições adequadas de segurança aos animais.
No embarque o caminhão deve estar perfeitamente alinhado com o embarcador, use o tempo que for necessário para tal.
Deve-se transportar o gado diretamente ao seu destino.
Informe ao motorista do caminhão qualquer detalhe que precise ser passado ao frigorífico.
Seja prestativo com o motorista do caminhão, ofereça uma refeição ou o que puder para deixá-lo confortável. Trate o responsável pelo transporte como você gostaria de ser tratado, uma boa relação entre as partes é fundamental para o sucesso da operação.

Paulo C N Costa
Cercar
Contatos: cercar@cercarnet.com.br

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=301