Ovinos

Manejo: Ovinos deslanados em pastagens tropicais

Eduardo Antonio da Cunha, Luiz Eduardo dos Santos, Mauro Sartori Bueno, Josiane Aparecida de Lima

O manejo adequado permite a  cria­ção de cordeiros em peso vivo, próximo aos 30 kg, com boas condições de depo­sição de músculos e adequada ­cobertura de gordura. Sendo assim, a produção de cordeiros para abate é uma alternativa interessante quando a produção é con­dizente com as exigências de merca­do, ou seja, inspeção sanitária, cortes adequados e preços compensadores.

É importante ressaltar que não existe um único sistema de produção para abate que seja considerado o melhor em qualquer situação ou região. ­Dependendo das condições de clima, solo, ­topografia, realidade fundiária e condições de mercado, o sistema recomendado pode variar de região para região. No Nordeste, por exemplo, o clima é árido e as condições de solo podem apresentar sérias limitações à produção de forragem, um mes­mo sistema intensivo de produção possível de ser conduzido no Sudeste. O mesmo pode ser di­to para a região Centro-Oeste, onde as características da atividade devem ser baseadas na distribuição fundiária, caracterizada por propriedades maiores, e nas condições do solo, com fertilidade que varia de média a baixa, típicas de cerrado e onde a atividade tem boas possibilidades de condução conjunta com a bovinocultura de corte. Desse pon­to de vista, é aproveitável a estrutura de pastos, cercas e aguadas já existentes, além do manejo sanitário quanto ao controle da verminose observado no pastejo conjunto ovino/bovino.

O sucesso na criação

Em uma criação de ovinos, o núme­ro de cordeiros disponíveis para abate de­pende, basicamente, de dois fatores:

Maior disponibilidade de ventres fér­teis por área, ou seja, quanto maior o nú­mero de matrizes, maior o potencial de produção de cordeiros.

Elevada eficiência reprodutiva, ou se­ja, quanto maior a fertilidade (nº de ove­lhas fertilizadas em relação ao nº to­tal de ovelhas do rebanho) e a prolificida­de (nº de crias por concepção) e menor o intervalo entre partos, maior é o ­número de cordeiros produzidos por ano.

Dessa maneira, a elevada produção de crias para abate, entre outros ­fatores, é obtida com a maior eficiência, ou seja, ventres férteis, prolíficos e sem estacionalidade reprodutiva, associada à obtenção de uma elevada lotação por área de pastagens.

O primeiro passo para o sucesso na atividade é o uso de matrizes de ­porte pequeno ou médio (40 a 70 kg de peso), eficientes em termos reprodutivos (férteis, prolíficas e com elevada aptidão ma­terna) e de raças mais rústicas, ou seja, menos exigentes do ponto de vista nutri­cional e menos sensíveis a problemas sa­nitários, mantidas em boas condições de criação e manejo reprodutivo.

Nessas condições, as matrizes des­­lanadas pertencentes às raças ­Santa Inês e Morada-Nova, cruzadas com reprodutores de raças especializadas para corte, tais como Suffolk, Ile-de-France, Poll Dorset ou Texel são alternativas indi­cadas ao produtor de carne ovina.

Em condições específicas de criação e o acelerado processo de melhoramento das raças em questão surge uma preocupação na seleção de animais mais precoces e com melhores caracte­rísticas de carcaça, sem desconsiderar os aspectos de eficiência reprodutiva e rusticidade. Não se pode descartar a uti­lização de reprodutores das próprias raças, descartando-se o cruzamento com raças exóticas, sendo esta uma alterna­tiva válida inclusive para o Nordeste.

A Morada-Nova

A raça Morada Nova, naturalizada bra­sileira e com origem no nordeste do Bra­sil, é descendente de animais trazidos da África durante o período ­colonial. Provavelmente, esta é uma das mais afri­canas entre as raças nordestinas, com pouco ou nenhum grau de sangue de ani­mais lanados europeus. De porte pequeno e menor exigência nutricional, é extre­mamente adaptada ao ambiente ­tropical brasileiro. Não apresenta estacionalidade reprodutiva e é mais resistente à verminose, com grande potencial para ser uti­lizada como linhagem materna para pro­dução de cordeiros de forma econômi­ca e sustentável.

A resistência à verminose leva à me­nor necessidade de vermifugação e outros produtos químicos, podendo ser ex­plorada de maneira sustentável e ecológica, ou seja, os cordeiros podem alcançar o peso de abate sem receber medica­mentos.

O menor porte, em relação às demais raças de corte, é adequado aos ­sistemas de produção baseados em pastagens, pois possibilita maior número de ventres por área, aliado ao menor intervalo entre par­tos e elevada habilidade materna. Dessa maneira, é possível obter maior quan­tidade de cordeiros por área e por ano, em qualquer época e, como conse­qüência, maior rentabilidade.

A coloração da pelagem varia do ver­melho ao amarelo claro, são característi­cas resultantes de centenas de anos de adaptação ao ambiente tropical, onde a ra­diação solar e o calor ambiente são in­tensos podendo levar à redução do nú­mero de animais de coloração e tipo de pe­lagem que não propiciem a ­dissipação de calor.

A pelagem escura absorve muita ra­diação, resultando no aumento da temperatura corporal, o que causa diminuição do consumo de alimentos e menor de­sempenho. Animais sem pigmentos também não são adequados para o ­clima tropical, pois estão mais propensos a so­frer queimaduras solares, sendo mais sus­cetíveis à fotossensibilização.

Quando as fêmeas deslanadas são bem alimentadas, apresentam ciclo estral não-estacional e cios férteis em qualquer época do ano. Podem ser cobertas logo após o parto contribuindo para a re­du­ção acentuada do intervalo entre os mes­mos, ou seja, uma parição a cada 7 me­­ses. Assim, a capacidade de ­produzir cordeiros para abate, em intervalos menores, contribui com a diluição dos custos de manutenção das matrizes, aumentando a rentabilidade do empreendi­mento.

Se por um lado a raça Morada-Nova apresenta características interessantes do ponto de vista sanitário e ­reprodutivo, por outro lado apresenta um desempenho ponderal em crescimento bastante inferior em relação aos demais animais de raças especializadas para corte (euro­péias).

Um dos entraves à expansão da cria­ção de Morada-Nova é o pequeno número de criadores. Essa situação que pode ser alterada por meio do surgimento de novos criadores que valorizam o po­tencial da raça, bem como pela ação dos órgãos de pesquisa, selecionando e difundindo material genético superior, com animais que apresentam melhor desempenho ponderal e melhor característica de carcaça.

Cálculo de lotação

para manutenção das matrizes

Em média, um ovino consome 3,5%, do peso vivo, em matéria seca por dia. Comparando, tem-se:

Uma ovelha Santa Inês com peso médio de 70 kg podendo consumir até  2,45 kg de MS/dia.

Uma ovelha Morada-Nova, de 40 kg, podendo consumir até 1,4 kg de MS/dia.

Produção em diferentes épocas

Época de chuvas – Pastagens bem manejadas e de boa pro­dutividade de Tifton, Coast-cross, Aruana ou Tanzânia produzindo cerca de 12 a 18  toneladas de MS/ha, ou seja, 2,5 toneladas de MS/ha/ciclo de ­pastejo. Isto possibilitará a manutenção média de 34 matrizes da raça Santa Inês/ha ou de 59 matrizes da raça Morada Nova/ha.

Época seca – A produção média de forragem em pastagens de boa produtividade, como as citadas anteriormente, é cerca de 0,9 toneladas de MS/ha/ciclo de pastejo. Essa condição permite a manutenção de 12 matrizes Santa Inês/ha ou 21 matrizes Morada-Nova/ha.

Considerações finais

O primeiro passo para o sucesso na ovinocultura é a utilização de matrizes de porte pequeno ou médio (40 a 70 kg de peso), mais eficientes em termos reprodutivos (férteis, prolíficas e com elevada aptidão materna) e de raças mais rús­ticas, que devem ser mantidas em boas condições de criação e sob adequado manejo nutricional e reprodutivo.

Eduardo Antonio da Cunha, Luiz Eduardo dos Santos, Mauro Sartori Bueno, Josiane Aparecida de Lima são pesquisadores científicos do Instituto de Zootecnia, de Nova Odessa (SP).

Revista Berro.Com.Br

Fonte: http://www.zebus.com.br/berro/noticias_ver.php?CdNotici=93