Manejo

Manejo do nitrogênio em canaviais

Autor: Márcio Luis Chaves, graduando em Agronomia na Universidade Federal de Lavras, membro da Equipe ReHAgro

O nitrogênio é um elemento constituinte de todos os aminoácidos, proteínas, enzimas e ácidos nucléicos e, juntamente com o potássio, é o nutriente exigido em maior quantidade pela cana de açúcar. O nitrogênio absorvido aumenta a atividade meristemática na parte aérea, resultando em maior perfilhamento e índice de área foliar. O incremento do índice de área foliar eleva a eficiência do uso da radiação solar aumentando, portanto, o acúmulo de matéria seca (Malavolta et al., 1989; Keulen e Stol, 1991).

Poucos trabalhos mostram resposta à adubação nitrogenada em cana-planta. Uma revisão feita em 135 trabalhos realizados em diferentes tipos de solo e climas, nas regiões Nordeste e Sudeste, mostrou que em 78% dos experimentos não houve resposta significativa à adubação nitrogenada em cana-planta.

As possíveis causas da não resposta ao nitrogênio oriundo da adubação em cana-planta podem ser devido à variação experimental, à mineralização da matéria orgânica e restos culturais pelo preparo do solo, às épocas de aplicação e à fixação biológica do nitrogênio. Em soqueiras, a resposta à adubação nitrogenada é mais evidente. A análise de 81 experimentos realizados no estado de São Paulo, mostrou que 49% dos trabalhos apresentaram resposta positiva em produção de colmos, brix e pol, à adubação nitrogenada (Azeredo et al., 1986).

Canaviais destinados à alimentação de ruminantes são colhidos sem a queima prévia para eliminação da palhada. Parte dessa palhada permanece na área cobrindo o solo. Pouco se conhece sobre o manejo da adubação nitrogenada em áreas de cana sem a queima prévia, visto que as pesquisas foram conduzidas em áreas de usinas onde, ainda hoje, a queima da palhada é predominante.

A deposição da palha sobre o solo em canaviais estabelecidos apresenta vantagens como controle de plantas daninhas, aumento da umidade no solo, proteção do solo contra erosão, reciclagem de nutrientes, entre outros. Apresenta, também, desvantagens como menor brotação de soqueiras em algumas variedades, aumento de pragas e maior susceptibilidade a geadas. A quantidade de palha que fica no solo após a colheita pode variar de 10 a 15 toneladas por hectare. Essas quantidades foram estimadas em áreas de usina, onde não só as folhas são deixadas na área, mas também os ponteiros, portanto, possivelmente, em áreas destinadas á alimentação de ruminantes a quantidade de palha seja menor.

A palhada da cana, segundo diversos autores, contém de 40 a 100 Kg de nitrogênio por hectare. Entretanto a disponibilidade desse N pode não ser imediata devido à baixa taxa de mineralização. Com o passar do tempo, pela proteção do solo contra a erosão, aumento contínuo da matéria orgânica e mineralização gradativa do N no solo poderá ser possível uma redução nas doses aplicadas de N em cana soca (Abramo Filho et al., 1993; Buzolin, 1997; Furlani Neto et al., 1997; Cantarella, 1998; Costa, 2001; Vitti, 2003).

A eficiência da adubação nitrogenada depende, dentre outros fatores, das fontes e métodos de aplicação. Das fontes de N, a uréia é a mais usada, devido ao baixo custo por unidade de N e a elevada concentração desse nutriente. Entretanto, é a fonte mais susceptível às perdas por volatilização. Há registros de até 50% de perdas do N oriundo da uréia quando aplicada sem incorporação ao solo. Diferentes fontes de N, como uréia, uran e sulfato de amônio, são equivalentes quanto às perdas, se aplicados corretamente. A aplicação de uréia sob a palha em cana soca reduziu em 30% as perdas por volatilização (Prammanee et al., 1988; Byrnes, 2000; Costa, 2001).

Quando da implantação de um canavial deve-se levar em consideração, para a adubação nitrogenada, aspectos como produtividade esperada, potencial de resposta do solo e teor de matéria orgânica no solo e, para adubação nitrogenada das soqueiras, os aspectos citados acima, bem como as fontes e método de aplicação do Nitrogênio.

Referências Bibliográficas:

Abramo Filho, J.; Matsuoka, S.; Sperando, M. L.; Rodrigues, R. C. D.; Marchietti, L. L. Resíduo da colheita mecanizada da cana crua. Álcool e Açúcar, v. 13, n. 67, p. 23-25, 1993.

Azeredo, D. F.; Bosanello, J.; Weber, H.; Vieira, J. R. Nitrogênio em cana-planta. Stab – Açúcar, Álcool e Subprodutos, v. 4, n. 5, p. 26-33, 1986.

Buzolin, P. R. S. Efeitos da palha residual da colheita mecanizada associada a fontes de potássio e doses de nitrogênio, no solo e nas socas de cana-de-açúcar. Jaboticabal, 1997. 89 p. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.

Byrnes, B. H. Liquid fertilizers and nitrogen solutions. In: INTERNATIONAL FERTILIZER DEVELOPMENT CENTER. Fertilizer Manual. Alabama: Kluwer Academic, 2000, cap. 2, p. 20-44.

Cantarella, H. Adubação nitrogenada em sistema de cana crua. Stab – Açúcar, Álcool e Subprodutos, v. 16, n. 4, p. 21-22, 1998.
Costa, M. C. G. Eficiência agronômica de fontes nitrogenadas na cultura da cana-de-açúcar em sistema de colheita sem despalha a fogo. Piracicaba, 2001. 79p. Dissertação (Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas) – Escola Superior de Agricultura “Luis de Queiroz”, Universidade de São Paulo.

Furlani Neto, V. L.; Ripoli, T. C.; Villa Nova, N. A. Biomassa de cana-de-açúcar: energia contida no palhiço remanescente da colheita mecânica. Stab – Açúcar, Álcool e Subprodutos, v. 15, n. 4, p. 24-27, 1997.

Keulen, H.; Stol, W. Quantitative aspects of nitrogen nutrition in crops. Fertilizer Research., n. 27, p. 151-160, 1991.

Malavolta, E.; Vitti, G. C.; Oliveira, S. A. Avaliação do estado nutricional das plantas. Piracicaba: Associação para Pesquisa da Potassa e do Fosfato, 201 p., 1989.

Prammanee, P.; Saffigna, P. G.; Wood, A. W. Loss of nitrogen from urea and ammonium sulfate applied to sugar cane crop residues. In: AUSTRALIAN SOCIETY OF SUGARCANE TECHNOLOGISTS, 11, MacKay, 1989 Proceedings: Mackay: Watson Fergunson, p. 76-84, 1989.

Vitti, A. C. Adubação nitrogenada da cana-de-açúcar (soqueira) colhida mecanicamente sem a queima prévia: manejo e efeito na produtividade. Piracicaba, 2003. 114 p. Tese (Doutorado em Energia Nuclear na Agricultura) – Escola Superior de Agricultura “Luis de Queiroz”, Universidade de São Paulo.

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