Mudas e Sementes

Mais produtivos mas mais exigentes

Emília Freire

20 de Dezembro – 2010

A transição dos cereais de sequeiro para regadio implica, além de investimentos consideráveis, uma grande planificação e acompanhamento dia-a-dia. Mas é a única via para uma agricultura sustentável e com futuro.

Com o clima a revelar-se cada vez mais irregular e a conjuntura económica a pressionar fortemente os agricultores, dominar a rega é fundamental para uma agricultura moderna e rentável.

No Alentejo, com Alqueva, os produtores de cereais, oleaginosas e proteaginosas têm hoje muito mais possibilidades de usar esta ferramenta mas, para aumentar a eficiência do uso da água, precisam de adaptar o itinerário técnico das culturas ao regadio.

No sentido de mostrar aos agricultores que é possível fazer a passagem do sequeiro ao regadio de forma bem sucedida, a ANPOC e o IRNB/INIA Elvas organizaram um seminário (ver artigo na pág. 24) que incluiu um dia de campo com visitas a ensaios. Ensaios de trigo, cevada e outros cereais, onde se testa-ram variedades mais adaptadas ao regadio, bem como datas, densidade e tipos de sementeira, e se fizeram experiências com diferentes aplicações de azoto e formas de rega. Tudo para proporcionar aos agri-cultores os itinerários técnicos mais rentáveis para este tipo de produção.

“Fizemos ensaios cruzados em sequeiro e regadio para seleccionar as variedades com o maior potencial genético de produção em regadio e as melhores já estão no Catálogo Nacional de Variedades”, expli-cou à Vida Rural, Benvindo Maçãs, coordenador da Unidade de Recursos Genéticos, Ecofisiologia e Melhoramento de Plantas (URGEMP/INIA Elvas). “Seja para os trigos moles e rijos, seja para as cevadas, incluindo a dística, já que fazemos parte do Comité da Cevada e do Malte que todos os anos publica a lista de variedades adequadas à produção de malte para cerveja”, salientou o responsável.

“O que fazemos é investigação aplicada que é de grande interesse para o agricultor. Por isso estamos no Ministério da Agricultura, senão estaríamos no da Ciência”, alertou Benvindo Maçãs.

O coordenador da URGEMP disse-nos ainda que os investigadores daquela unidade têm “procurado também variedades de triticale e aveia com elevado potencial forrageiro, que tenham capacidade de recrescer após o pastoreio, porque são espécies que se enquadram na rotação de culturas fundamen-tal para melhorar a qualidade dos solos”.

“As alterações climáticas acentuam ainda mais a necessidade de regar e, nos cereais, esta é a melhor forma de suplementar as culturas quando não chove”, frisou.

Melhorar sementes pré-base

Durante a visita aos campos na Herdade da Comenda, José Coutinho, também da URGEMP, salientou que o objectivo destes ensaios é o melhoramento genético das sementes pré­ base para “aumentar produ-ções e manter a regularidade”. Neste ano agrícola o INIA Elvas tem semeadas 13 variedades de cereais: quatro trigos moles (Jordão, Eufrates, Nabão e Ardila), três trigos rijos (Marialva, Celta e Hélvio), dois triticales (Fronteira e Alter) e quatro aveias (Boa-Fé, Santa Eulália, Santo Aleixo e Santa Rita).

“As pré-bases de cereais foram instaladas utilizando um esquema de sementeira em linhas pareadas. Esta opção reduz em 1/3 a densidade de sementeira aconselhada para cultivar. Permite também um melhor controlo da biomassa produzida durante a fase de desenvolvimento vegetativo que, normalmente, conduz à acama, assim como reduz a incidência de doenças da palha e do ‘pé’ da planta ao possibilitar um melhor arejamento, evitando-se a persistência da humidade dentro do coberto vegetal”, informa José Coutinho (ver quadro).

A propósito da semente, António Sevinate Pinto, da Lusosem, salientou a importância da qualidade da semente utilizada pelos agricultores, nomeadamente, semente certificada, para garantir os bons resul-tados.

Regadio na cevada dá garantia à indústria

Na Herdade do Buque, visitaram-se ensaios de cevada dística em regadio, onde Manuel Patanita da Esco-la Superior Agrária de Beja explicou a importância da gestão da aplicação do azoto com rega, nomeadamente o efeito positivo do seu fraccionamento, “conseguindo-se prolongar o ciclo da cul-tura. Mas é importante analisar primeiro o teor de nitrato no solo, para determinar o azoto a apli-car e ter em conta a data de sementeira, porque, de acordo com os dados que temos obtido nos ensaios em Beja e agora aqui, se a sementeira for mais tarde temos de cortar no azoto”.

Também na cevada o regadio permite maiores produtividades (ver quadro) e diferença de resposta entre variedades, embora menor do que nos trigos. “A variedade Prestige, por exemplo, não respondeu muito bem”, afirma Manuel Patanita, salientando que nos tratamentos também há muitas diferenças entre sequeiro e regadio porque com maiores níveis de humidade as plantas ficam mais susceptíveis, obrigando a, pelo menos, um tratamento fungicida.

Patrícia Cotrim, da Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja, considera que o regadio na cevada dística tem benefícios claros mas depende fundamentalmente da zona. “No baixo Alentejo, por exemplo, nota-se uma diferença muito grande conseguindo-se controlar melhor a estabilidade e regularidade do lote e a produção é muito mais homogénea em termos de tamanho do grão”.

Para a indústria cervejeira “a cevada dística de regadio tem interesse porque é muito mais controlável, oferecendo, à partida, mais garantias”, salienta Patrícia Cotrim. A responsável afirma que, pessoalmente, “se deve regar no afolhamento e no enchimento e sempre que se faça uma cobertura. A seara de cevada precisa de 450/600?mm de água no total, por isso deve-se usar a rega para fazer face a essa carência”.

Escolha da variedade é fundamental

Diz que já fez a conversão há anos, que no regadio tem de se estudar cada passo e acompanhar a cul-tura dia-a-dia. “O regadio obriga a uma atenção muito maior à cultura, tem que se entrar na seara todos os dias para ver como se está a desenvolver e, como há mais produção de biomassa e vulnerabi-lidade a problemas fitossanitários, decidir tratamentos atempados, etc.”, explica-nos António Vieira de Lima, agricultor da zona de Cuba.

“Com o regadio a produtividade e rentabilidade crescem claramente mas quem tenha de fazer a tran-sição agora, a partir do zero, com os preços actuais dos cereais e todo o investimento necessário… não vejo retorno a médio prazo”, admite, salientando que “o custo de produção em regadio é de cer-ca de 100€ mais do que em sequeiro mas a diferença de produtividade também é significativa para mais”.

Este agricultor frisa ainda que “a escolha da variedade tem muitíssima influência” e, neste âmbito, salienta “o excelente trabalho que tem sido feito pelo INIA Elvas”. José Eduardo Gonçalves, por seu lado, considera que compensa fazer a passagem do sequeiro para o regadio nos cereais, mesmo com os actuais preços de mercado. “Está no limite, anda ali muito empatado. Mas os custos de produzir em regadio são muito superiores”. Este agricultor da zona de Elvas, também dirigente da ANPOC, salienta também a importância da escolha da variedade a semear. No trigo duro, por exemplo, o Marialva tem respondido muito bem ao regadio mas nos trigos moles também já depende muito para o que é”.

Na Herdade da Torre do Frade também se visitaram ensaios de qualidade de trigos em regadio e multi-plicação de trigo duro Marialva em regadio, do agricultor Fernando Carpinteiro Albino.

À conversa com a Vida Rural, Fernando Carpinteiro Albino respondeu à pergunta sobre se compensa o regadio para os ac­tuais valores dos cereais afirman­do que “quem quiser ser agricultor tem de ser também empresário e por isso investir. Tudo o que for transformar sequeiro em regadio é sempre um bom investimento porque com água pode-se ter rendimento acrescido em cerca de dois anos, mas até pode ser num”.

Aquele agricultor salientou ainda que “se a produção é de 2,5/3?t/ha em sequeiro, será de cerca de 5?t/ha em regadio, mas é claro que o regadio propicia mais doenças, logo mais custos em fungicidas, passagens de tractor, etc. pelo que todos os custos têm de ser muito bem medidos, mas tendo sempre igualmente em conta o potencial da seara”.

Fernando Carpinteiro Albino também frisa – como António Vieira de Lima já tinha feito – que “o rega-dio exige um maior acompanhamento do agricultor”.

De qualquer forma, António Vieira de Lima considera que esse tem de ser o caminho, o regadio em con-junto com a agricultura de precisão. “Esses sim, são sistemas que se pagam em muito pouco tempo e permi-tem melhoria da produtividade e uniformidade”, afirma.

“Eu tenho tudo com GPS e pilotagem automática (autotrack) e o que noto é que a precisão na aplica-ção de fitofarmacêuticos é muito maior. Poupa-se no produto, no facto de não haver operador, etc. Há uma atenção ao detalhe e aí é que se vai buscar a diferença. Mesmo em parcelas irregulares não há sobreposição. Estimo que a poupança em produtos fitofarmacêuticos seja da ordem dos 20%”, garante aquele agricultor. “O próximo passo é tráfego controlado. É o futuro para fazer a sementeira direc-ta! Os tractores passam sempre no mesmo sítio com mobilizações mínimas”, defende.

Ali na Herdade da Torre do Frade estiveram à disposição dos participantes precisamente vários trac-tores com sistema GPS e autotrack, da John Deere, e também com sistemas da Isagri. •

Fonte: http://www.vidarural.pt/content.aspx?menuid=73&eid=5491&bl=1