Sanitário

Lesões a vírus nos tetos e úberes dos bovinos: varíola bovina, pseudovaríola e herpes mamilite

Todas são de importância econômica, principalmente quando atingem mais de um rebanho pelas grandes perdas que ocasionam à produção de leite, devido à diminuição da quantidade de leite produzido pelo rebanho mas também ao aumento do índice de mastite nos rebanhos afetados. Tal ocorrência é decorrente do aumento da sensibilidade dolorosa, que dificulta a ordenha, favorecendo a instalação de infecções secundárias, resultantes da maior quantidade de leite residual. Assim a perda na produção de leite não se dá apenas pelas perdas causadas pela diminuição do volume diário mas também pelo descarte do leite contaminado. Adicionalmente, além da importância na saúde animal, muitas dessas enfermidades são também relevantes em relação à saúde pública, pois podem ser transmitidas para o homem pelo animal infectado.

Desde o final da década de 90, um grande número de surtos de varíola bovina tem sido relatado. Esses surtos têm ocorrido em diferentes estados do Brasil, entre eles, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Profissionais do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) relataram em 2001: “uma nova enfermidade produzida por um vírus da mesma família da varíola, está ameaçando a saúde de nossos bovinos e retireiros. Trata-se de uma zoonose (enfermidade transmitida dos animais para o homem) de fácil transmissão, que ocorre no focinho e gengivas dos bezerros e no úbere e tetos das vacas, levando-as a uma queda na produção de leite e predispondo a mastite. A transmissão dentro do rebanho, de um animal inefectado para outro, se dá pelo contato direto entre animais, pelas mãos do ordenhador e teteiras”. Hoje este órgão está envolvido na vigilância dos surtos de varíola bovina em todo o Estado de Minas Gerais.  Estudos sobre essas viroses também tem sido realizado pelo Laboratório de Vírus do Instituto de Ciência Biológica.

Departamento de Medicina Preventiva e Epidemiologia, ambos do UFMG.

A falta de informações precisas sobre os fatores responsáveis pela ocorrência e disseminação de algumas doenças virais e parasitárias dos bovinos é preocupante, principalmente em relação a infecções pela papilomatose (também conhecida como figueira, verruga ou verrucose) pela importância econômica que exercem em relação às perdas de produção, descarte de matrizes e perda genética.

Existe ainda uma outra enfermidade semelhante, a mamilite herpética bovina (BHM) ou mamilite ulcerativa, que se espalha rapidamente nos rebanhos, sendo que a forma de transmissão do vírus não está comprovada, embora alguns autores acreditem que  insetos sejam os possíveis vetores.

COMO ESTAS DOENÇAS SE MANIFESTAM NOS ANIMAIS

Varíola Bovina

A varíola bovina é uma das raras doenças dos animais na qual o homem é o vetor principal, sendo rara a transmissão de homem para homem. Os sintomas clínicos da varíola bovina são bastantes semelhantes à da pseudovaríola, porém as lesões da varíola bovina são mais graves.  Até a década de 80, a maioria dos surtos descritos de lesões nos tetos foram diagnosticadas como surtos de pseudovaríola bovina. Entretanto, apesar de existirem técnicas para diagnóstico molecular em laboratório, estabelecer um diagnóstico diferencial no campo entre as duas enfermidades pode ser bem difícil devido a essa similaridade dos sintomas clínicos.  Isto ocorre em função de ambas as enfermidades serem causadas por poxvírus pertencente à família Poxviridae, cujos principais sintomas são a formação de vesículas e pústulas (tipo bolhas).

A varíola bovina começa com um eritrema com forma circular que após 2 ou 3 dias se transformam em pápulas duras, avermelhadas na periferia. Em torno do quarto dia é observada uma vesícula (bolha), havendo depois formação de uma crosta.

A importância em medicina veterinária de se conseguir um diagnóstico rápido é grande, não só para que medidas de controle possam ser tomadas, mas também, pelo fato de que essas enfermidades são do interesse da saúde pública. Isso devido ao caráter zoonótico deste vírus, pois é transmitido ao homem. Assim, o vírus vaccínia causa uma zoonose ocupacional, pois geralmente os ordenhadores são infectados. A presença de lesões vesiculares (bolhas) nas mãos e no antebraço dos ordenhadores são semelhantes às lesões presentes nas tetas e úberes das vacas. No caso humano, além das lesões extremamente dolorosas, é comum o indivíduo infectado apresentar febre, mal-estar, dores nas costas, aumento dos linfonodos (popularmente conhecido como “íngua”), podendo em casos mais graves ocorrer o afastamento temporário do trabalho. Cuidados devem ser tomados para que não haja contato com as lesões ou objetos contaminados por estas, evitando que a enfermidade seja disseminação para outras pessoas.

Para o produtor, essa virose se torna um problema econômico não só pelos custos relacionados ao tratamento dos animais infectados, como também devido ao fato das propriedades serem temporariamente interditadas. Isto ocorre devido ao fato das lessões causadas pela febre aftosa serem semelhantes às da varíola bovina. A confirmação de que o surto não foi causado pelo vírus da febre aftosa é necessário para a liberação da propriedade. Adicionalmente, a produção total dos rebanhos muitas vezes não é aceita pelas cooperativas, indústria leiteiras ou por outro local para onde se destina o leite daquela propriedade.

Pseudovaríola

No Brasil a pseudovaríola é a mais freqüente enfermidade infecto-contagiosa de etiologia viral, caracterizada clinicamente por lesões cutâneas principalmente nos tetos dos bovinos e, mais raramente no úbere. Quando as crostas se desprendem a cicatrização central mostra forma de ferradura ou anel.  O agente etiológico da psudovaríola é um vírus conhecido como Paravaccínia, pertencente também ao grupo Poxvírus e que difere do vírus da varíola em alguns aspectos morfológicos.

O vírus da pseudovaríola confere apenas baixo grau de resistência à reinfecção tanto nos animais quanto nos homens, podendo em muitos rebanhos tornar-se um problema crônico. É transmissível ao homem pelo contato direto com os animais infectados e geralmente, produzem lesões cutâneas localizadas, principalmente nas mãos e no antebraço. A doença “nódulo de ordenhador” caracteriza-se por lesões nas mãos que variam de múltiplas vesículas a um único e consistente nódulo.

Os sintomas clínicos assemelham-se aos da varíola, porém as lesões são maiores, chegando a 2,5 cm de diâmetro. Elas aparecem na forma crônica ou aguda e, no caso, surgem até 10 feridas por teto.

A presença de lesões vesiculares nas mãos dos ordenhadores de vacas com pseudovaríola bovina, não é rara em nosso país. É uma doença na qual o homem é o vetor principal, sendo freqüente a transmissão de um animal para o outro, através das mãos infectadas dos ordenhadores, pelas teteiras da ordenhadeira mecânica ou, possivelmente, pela transmissão mecânica através de insetos.

Esta enfermidade se dissemina rapidamente no rebanho, geralmente após entrada de um animal doente. Pode ser também proveniente de um foco de infecção crônica. Quando ocorre uma infecção, ela se dissemina rapidamente no rebanho, sendo que dentro de dois meses mais da metade até a totalidade dos animais podem adoecer. A doença é disseminada principalmente durante a ordenha., por isto as lesões se localizam principalmente nos tetos.

Herpes Mamilite ou Mamilite Herpética

Esta doença é considerada um sério problema de rebanhos leiteiros em nosso país, pois atinge vários animais de um mesmo rebanho. Na vaca a doença se caracteriza pela formação de lesões vésico-postulares, na parte inferior do úbere ou tetas. Inicialmente forman-se pápulas que se transformam em pústulas (com 1 – 3 cm de diâmetro), em cujo centro desenvolve-se uma umbilicação. A fricção no processo de ordenha faz com que as lesões se rompam, formando ulcerações muito sensíveis. Em seguida aparecem crostas que permanecem no local por aproximadamente três semanas. As lesões podem ser agudas ou crônicas, podendo ocorrer até 10 pústulas por teto.

COMO ESTAS DOENÇAS ENTRAM EM UM REBANHO

Todas estas enfermidades a vírus podem ser introduzidas em rebanhos sadios após a entrada de animais doentes vindos de outra propriedade. Caminhões e pessoas que lidam na coleta de leite em várias propriedades, parecem estar envolvidos na disseminação destas doenças. No caso da varíola bovina, suspeita-se que os roedores sejam hospedeiros naturais (animal naturalmente infectado) do vírus vaccínia, podendo disseminar o vírus para várias propriedades.

Algumas viroses dos bovinos coincidem com o local de predileção de carrapatos e insetos hematófagos no corpo dos bovinos, ou seja: úberes e tetos, barbela e pescoço, orelhas, lombo. Suspeita de transmissão mecânica de enfermidades a vírus, ou seja, por moscas ou outros artrópodes hematófagos (que se alimentam de sangue) também existem. Dentre estes estão o carrapato do bovino e a mosca-do-chifre que preocupam pelos prejuízos e pela dificuldade de controlá-los. As picadas dolorosas, repetidas vezes ao dia, forma lesões que podem se tornar infectadas por bactérias e vírus e provocam também estresse nestes animais, reduzindo seu mecanismo de defesa imunológico. Associando esta deficiência geral do organismo à baixa resistência local pela irritação mecânica, pode-se criar condições favoráveis à infestação de viroses.

SITUAÇÃO DA ENFERMIDADE NO BRASIL

Varíola Bovina

Atualmente no Brasil, principalmente no estado de Minas Gerais, o agente etiológico envolvido que tem sido isolado e caracterizado biológica e molecularmente é o vaccínia virus. A mamilite herpética bovina (BHM), conhecida como mamilite ulcerativa, é uma doença sazonal, semelhante à pseudovaríola, que se espalha rapidamente por todas as vacas de rebanhos leiteiros susceptíveis, no período de um a dois meses. O método de transmissão do vírus entre fazendas com rebanhos fechados não está comprovado, embora acreditem os autores que insetos sejam os possíveis vetores.

Surtos recentes por lesões a vírus:

1) Passatempo vírus – Vaccínia vírus
2) Araçatuba vírus
3) Vaccínia vírus ou Cowpox vírus nos Estados de São Paulo e Goiás
4) Vaccínia vírus na região da Zona da Mata Mineira
5) Paravaccínia vírus ou PseudoCowpox em rebanhos dos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro entre 1999 -2000 Surtos de pseudovaríola foram diagnosticados por técnicos da Embrapa Gado de leite, em propriedades rurais, onde os ordenhadores foram seriamente acometidos com lesões dolorosas nas mãos e antebraço, apresentaram hipertermia e impossibilidade de comparecer ao trabalho por uma semana (Comunicação pessoal – relatórios de viagem, Veiga 1999 e 2000). Por outro lado, não existem vacinas em uso para proteger o gado dessas doenças a vírus, e o tratamento é paliativo.

Não existem informações precisas sobre os fatores responsáveis pela alta prevalência das viroses de úberes/tetas dos bovinos e o que contribui para a disseminação dessas doenças. Esta enfermidade é preocupante, pois suas conseqüências  principalmente as perdas que exercem  em relação à produção e produtividade, muitas vezes inviabilizam a ordenha, predispõem ao aparecimento de mastites bacterianas, contaminam o leite e levam ao descarte de matrizes. Em animais de raças puras, podem representar obstáculos às vendas e à participação em feiras e exposições.

Estas enfermidades são também um problema relacionado à saúde humana, pois agentes virais como o vaccínia vírus são transmissíveis ao homem. No caso de rebanhos infectados, praticamente todos os profissionais que mantém contacto direto com os animais são acometidos. Embora a prevalência destas doenças não esteja quantificada…  O rebanho bovino total brasileiro é composto por grande parte de animais criados em sistemas extensivos, portanto, com menor exposição às enfermidades causadas por vírus. Considerando, no entanto, uma infestação de 1,5%, significa ainda um plantel de 2,4 milhões de animais infectados.

COMO CONTROLAR ESTAS ENFEMIDADES EM BOVINOS

Não existem informações suficientes que permitam traçar a melhor estratégia de controle dessas enfermidades, que comprometem a saúde e o tempo de vida útil dos animais. O ideal é tomar algumas precauções como:

• não adquirir animais com
• enfatizar o controle de moscas
• manejar por último os animais afetados
• realizar a desinfecção de agulhas, seringas e materiais utilizados para retirada do teto extra em bezerras
• uma opção em rebanhos com alta incidência de papilomas no teto de novilhas é a utilização de pomada repelente na região do futuro úbere.

Fonte: Embrapa Gado de Leite
http://www.cnpgl.embrapa.br