Pecuária

Leite: bom para a saúde e melhor ainda para a economia brasileira

Pelo faturamento de alguns produtos da indústria brasileira de alimentos na última década, pode-se avaliar a importância relativa do produto lácteo no contexto do agronegócio nacional, registrando 248% de aumento contra 78% de todos os segmentos.

No ano passado, o Valor Bruto da Produção Agropecuária foi de 84 bilhões de reais. Destes, aproximadamente 35 bilhões de reais são de produtos pecuários, tendo o leite posição de destaque, com o valor de 6,6 bilhões de reais, ou 19% do Valor Bruto da Produção Pecuária, superado apenas pelo Valor da Produção da carne bovina.

O leite está entre os seis primeiros produtos mais importantes da agropecuária brasileira, ficando à frente de produtos tradicionais como café beneficiado e arroz. O Agronegócio do Leite e seus derivados desempenham um papel relevante no suprimento de alimentos e na geração de emprego e renda para a população. Para cada real de aumento na produção no sistema agroindustrial do leite, há um crescimento de, aproximadamente, cinco reais no aumento do Produto Interno Bruto – PIB, o que coloca o agronegócio do leite à frente de setores importantes como o da siderurgia e o da indústria têxtil.

Se acrescentarmos a importância nutricional do leite como alimento, estaremos diante de um dos produtos mais importantes da agropecuária brasileira. O leite é rico em uma grande quantidade de nutrientes essenciais ao crescimento e à manutenção de uma vida saudável. A indústria de laticínios tem potencializado o valor nutritivo do produto. Existem no mercado uma série de bebidas lácteas enriquecidas com vitaminas, minerais e ômegas, assim como leites especiais para as pessoas que não conseguem digerir a lactose.

Embora seja essencial para crianças até os 12 anos, é um erro pensar que o leite não é importante na fase adulta. Beber três copos por dia garante uma vida saudável na maturidade e ajuda a evitar problemas na terceira idade. Estudos provam que o seu consumo diário reduz a incidência de osteoporose.

Além da sua importância nutricional, o leite desempenha um relevante papel social, principalmente na geração de empregos. O País tem, hoje, acima de um milhão e cem mil propriedades que exploram leite, ocupando diretamente 3,6 milhões de pessoas. Para ter-se uma idéia mais objetiva do impacto deste setor na nossa economia, a elevação na demanda final por produtos lácteos em um milhão de reais gera 195 empregos permanentes. Este impacto supera o de setores tradicionalmente importantes como o automobilístico, o de construção civil, o siderúrgico e o têxtil. Numa análise retrospectiva, a produção brasileira de leite nos últimos 25 anos aumentou 150%. Passamos de 8 bilhões (1975) para 19,8 bilhões de litros (2000). A expectativa é de que se tenha produzido próximo a 21 bilhões de litros em 2001 (Gráfico 1).

Para esse significativo crescimento, não podemos desconsiderar a abertura de novas fronteiras, como a Região do Cerrado (especialmente Goiás) e as Regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba em Minas Gerais, além de outras regiões emergentes como Rondônia, Mato Grosso e sul do Pará. O ganho na produtividade também contribuiu para este aumento. No início da década de 1970, a produtividade do rebanho leiteiro nacional era inferior a 700 litros por vaca ordenhada por ano; um número que praticamente dobrou no final dos anos 90. Estes índices referem-se a dados agregados, provenientes de rebanhos leiteiros especializados e rebanhos de dupla-aptidão. Em bacias leiteiras tradicionais e propriedades com rebanhos especializados para leite, temos registros de produtividade anual cinco vezes superior à registrada 25 anos atrás.

É seguro afirmar que os ganhos de produtividade advêm, basicamente, da adoção de tecnologias que melhoram a eficiência do uso dos fatores de produção. O melhoramento na genética de nossos rebanhos leiteiros, na alimentação e na saúde animal, tiveram importantes participações nesta evolução. No melhoramento genético, houve nos últimos anos maior participação das raças européias na composição do sangue do rebanho, hoje predominantemente mestiço Holandês x Zebu, assim como uma extraordinária evolução no melhoramento do Zebu para leite, particularmente o Gir e o Guzerá.

Na alimentação, a revolução foi marcante. Nos últimos 25 anos, as áreas de pastagens cultivadas no Brasil aumentaram 151%. Estimativas mais recentes indicam que essas áreas atingiram 100 milhões de hectares no final da década de 90.

A produção de leite tem perspectiva de continuar a crescer nos próximos anos, com condições reais de o País mudar o panorama de importador para exportador de produtos lácteos. Dentro do cenário mundial, o mercado brasileiro tem um potencial, como poucos, para tal. Esforços têm sido direcionados para impulsionar as vendas externas de lácteos, o que, associado ao crescimento da produção nos últimos anos, garante excedentes de oferta, refletindo diretamente na redução das importações de lácteos (Gráfico 2), estimada em 780 milhões de litros de leite, 44% inferior à inicialmente projetada para 2001, de 1,4 bilhão de litros de leite. Como se pode observar, o agronegócio do leite ocupa posição de destaque na economia brasileira, sendo grandes as expectativas, nesta década, de continuarmos o crescimento da produção e da produtividade, com índices maiores do que aqueles que têm sido alcançados em anos recentes.

Para isso, a iniciativa privada e o governo precisam unir esforços para impulsionar as vendas externas de leite e derivados, criando um programa de incentivo às exportações, incluir o leite na Política de Garantia de Preços Mínimos, possibilitando a implementação de mecanismos de comercialização de produtos lácteos, criar um fundo para a promoção do consumo de leite e derivados no mercado doméstico, e incentivar o uso de leite nacional na merenda escolar, estimulando as compras nos estados e municípios.

Por outro lado, não há dúvidas de que a estabilidade de preço do leite é um dos principais objetivos do produtor e que a relação produtor e indústria leva a isso e, para garantir uma nova eqüidade, ou seja, processos capazes de equacionar desigualdades entre os segmentos do setor leiteiro, os contratos surgem como uma boa opção a curto prazo. Também é necessário buscar formas alternativas para enfrentar o poder oligopsônico das grandes redes de supermercado, que ampliam cada vez mais suas margens de lucro.

Duarte Vilela – PhD em Nutrição Animal, Embrapa Gado de Leite – vilela@cnpgl.embrapa.br

Fonte:  http://www.portalruralsoft.com/manejo/manejoExibe.asp?id=51