Pecuária

Leite a pasto: razões e critérios que valorizam o sistema

Dentro da evolução da produção de leite no Brasil, o sistema de exploração a pasto tem provado que alguns de seus conceitos antigos, quando devidamente revistos e avaliados, podem se transformar na opção mais moderna e eficiente para assegurar ganhos econômicos e de produtividade na exploração. De uma maneira geral, esta foi a tese que norteou as discussões ocorridas em outubro último, no simpósio promovido pela Embrapa-Gado de Leite, em Goiânia-GO, reunindo pesquisadores, técnicos e produtores. A comparação com o sistema de produção por confinamento foi inevitável, o que serviu para reforçar este como ideal para as regiões próximas aos grandes centros de consumo, onde se valorize a comercialização do leite tipo pasteurizado.

O principal argumento para utilização do pastejo para se produzir leite está centrado na redução dos custos de produção. Isso se dá pela diminuição das despesas com alimentos concentrados, combustíveis e mão-de-obra, sem contar com a dispensa de investimentos em instalações, especialmente aquelas destinadas ao abrigo de animais e maquinaria. O pesquisador da Embrapa-Gado de Leite, Leovegildo Lopes de Matos, argumenta que “apesar de a receita do leite produzido a pasto ser menor que a do sistema em confinamento, a margem bruta de lucro tem se mostrado superior” nos estudos comparativos que tem feito. Dentro do ambiente econômico de busca da eficiência para competir no mercado, ele sugere uma mudança na velha fórmula do sistema confinado “produção máxima = lucro máximo” para “nível de produção ótimo = lucro máximo”, do sistema a pasto.

Matos cita os Estados Unidos como exemplo de busca do “nível ótimo de produção”. Naquele país, onde os sistemas confinados são largamente utilizados, uma avaliação da utilização de pastagens por produtores do estado de Nova Iorque mostrou que, em média, eles conseguiram redução anual nos custos de produção de U$ 153,00 por vaca, o que significa uma poupança de US$ 0,03 por litro de leite produzido. “A redução nos custos de produção com a utilização de pastagens foi devida, principalmente, à menor dependência do uso de máquinas e menor consumo de energia e combustíveis, além de redução do tempo gasto com o manuseio dos dejetos animais”, analisa.

O pesquisador diz ainda que a tendência de intensificação da produção por animal e por área não deve continuar. E ele não está falando só de Brasil. “Esta tendência vale também para os países da Comunidade Econômica Européia, onde tal intensificação tem sido suportada às custas de pesados subsídios”. Nos países europeus há também o peso do fator ecologia. “O impacto dos sistemas intensificados sobre o meio ambiente tem levado a reformas das políticas ambientais”, afirma Matos. Esta preocupação já começa a fazer parte da realidade brasileira. Em Santa Catarina, estado produtor de suínos, o governo criou uma rígida inspeção para projetos de confinamento, na qual o manejo adequado do esterco está entre os quesitos da avaliação feita pela Fundação de Meio-Ambiente do estado.

É consenso entre pesquisadores e técnicos que o setor leiteiro está sendo pressionado a se modernizar. A adoção do sistema de produção de leite a pasto necessita, porém, de planejamento e controle. A atividade deve sair do modelo tradicional e extrativista que predomina na maioria das propriedades e adotar um modelo profissional e mais empresarial. Dentre os principais problemas a serem solucionados está a questão do baixo índice de irrigação das pastagens e a eficiência dos solos. Na maioria das regiões produtoras, os solos dedicados a produção de forragem se apresentam degradados e erodidos. Além disso, as áreas ocupadas por pastagens em geral são marginais quando comparadas àquelas usados pela agricultura de grãos. Nesta condição, apresentam problemas de fertilidade natural, acidez, topografia, pedregosidade ou limitações de drenagem.

O pesquisador da Embrapa-Gado de Corte, Manuel Cláudio Macedo, diz que a não observação de práticas agronômicas adequadas e de manejo animal inapropriado tem acelerado o problema de degradação. Explica que utilização de pastagens dos gêneros braquiária, panicum e andropogon, principalmente nos Cerrados, tem representado um grande avanço para a pecuária da região. Um exemplo disso é o estado de Goiás, onde a produção de leite cresceu 76% nos últimos nove anos, classificando o estado de quinto para segundo maior produtor de leite do país, só perdendo para Minas Gerais. Mas, “se por um lado a introdução dessas espécies proporcionou aumento de produtividade, trouxe também sérios problemas decorrentes do mal manejo das pastagens, gerando queda da sustentabilidade da produção animal”, diz Macedo.

IRRIGAÇÃO EM PASTO E CANA GARANTE DIETA COM MUITA ECONOMIA

O pesquisador define a degradação das pastagens como um processo dinâmico de degeneração ou de queda relativa da produtividade. Nesse sentido, ele observa que, após a implantação ou renovação de uma pastagem, a produtividade é maior no primeiro e segundo ano de exploração. Quando o potencial produtivo não é limitado por problemas de clima, solo ou manejo animal inadequado, estima-se que a produção das pastagens e a produção animal sejam de 30% a 40% superiores no primeiro ano de exploração em relação aos quatro anos posteriores. Macedo informa que entre as causas da degradação estão a má formação inicial das pastagens, sendo comum constatar práticas inadequadas de conservação e preparo do solo, nos sistemas e métodos de plantio, na correção de acidez e adubação, além de manejo errado dos animais na fase de formação. O uso de fogo como rotina, ausência de adubação de manutenção e excesso de lotação, são outros fatores apontados por ele.

Práticas como essas podem levar a grandes prejuízos. “Quando o processo de degradação está avançado, os custos de recuperação das pastagens podem exceder a U$ 220 por ha”. Quando as pastagens encontram-se no estágio inicial de degradação, elas podem ser recuperadas com a simples aplicação superficial de fertilizantes e corretivos. Num estágio mais avançado, pode-se utilizar a recuperação direta, que consiste nas práticas mecânicas e químicas adotadas, sem substituir a espécie forrageira existente. Entre as práticas mecânicas estão a aplicação de insumos, escarificação, subsolagem, gradagem e aração. Nas opções químicas, relacionam-se a calagem, gessagem e adubação.

A renovação direta de pastagens é uma prática mais drástica e de alto custo, que consiste na substituição da forrageira existente por outra. “Esta alternativa deve ser restrita, pois as forrageiras tropicais, mesmo quando a pastagem está em degradação, possuem um elevado banco de sementes no solo e taxas altas de crescimento relativo”, analisa Macedo. Isto significa que nem sempre as ações mecânicas de preparo do solo ou a dessecação das plantas por herbicidas são eficientes para permitir a implantação de uma nova espécie.

O pesquisador Leovegildo Matos, difusor do sistema de produção a pasto, ressalta que o produtor de leite que pretende ser grande, além de um bom pecuarista, deve ser também um grande agricultor. “Cuidar bem da pastagem, como quem cuida de uma lavoura, representa muito em termos de lucratividade”, diz. Isso porque o leite entra pela boca da vaca, assim como boa parte dos custos da produção. “A alimentação das vacas em lactação responde por 40% a 60% desses custos”, avalia o engenheiro agrícola Carlos Augusto Brasileiro Alencar, que trabalha no centro e no leste de Minas. Se uma boa pastagem depende de chuvas e delas depende a alimentação do rebanho, na época da seca, a produção decai sensivelmente. “No período seco do ano, no Brasil, a produção de leite é de apenas 60%, em relação ao das águas”, completa Brasileiro.

Ele também argumenta que a irrigação é um processo economicamente viável. Os custos de produção de matéria seca (MS) da cana-de-açúcar – uma das alternativas de alimentação dos bovinos para o período da seca – e das pastagens sem irrigação estão em torno de R$ 0,003/kg de MS e R$ 0,002/kg MS, respectivamente. Com a irrigação, estes valores são acrescidos de R$ 0,001. Brasileiro ressalta, porém, que a resposta à irrigação de gramíneas tropicais tem sido controvertida, principalmente em função da região, da espécie forrageira, do nível de insumos e do sistema adotado. No entanto, aponta experiências de sucesso econômico. Na região leste de Minas Gerais, a irrigação, tanto da cana-de-açúcar quanto do pasto de braquiária mostraram viabilidade. Lá, a produção média de leite é de 10 litros por vaca/dia numa taxa de lotação de cinco vacas/ha. O custo da produção que era em média de R$ 0,30, está hoje em torno de R$ 0,18 o litro.

O fator que ajudou a reduzir os custos foi a opção pela irrigação por aspersão fixa de baixa pressão. “Esse tipo de irrigação tem sido um dos métodos mais difundidos na região”, afirma Brasileiro. Nesse modelo, as linhas principais, secundárias e laterais se apresentam como suficientes para irrigar toda a área, com aspersores de pressão de serviço. A condução da água da moto-bomba até os aspersores é efetuada por meio de tubulações de diversos tipos de material, tais como aço zincado, alumínio e PVC rígido, o que torna a montagem do equipamento menos onerosa. Apesar das tubulações serem suficientes para irrigar ao mesmo tempo a área inteira, a irrigação é feita com funcionamento de um determinado número de aspersores por vez, de acordo com o turno da rega. Para isso, o sistema é dotado de um tampão com rosca com controle manual nos pontos de irrigação.

Por necessitarem de baixa pressão, muitos sistemas são instalados com pressão por gravidade, proveniente da diferença de nível entre a fonte de água e a área a ser irrigada. Brasileiro ressalta que “a diferença deste sistema tem sido grande em razão da baixa demanda de energia e de vazão”. Outro fator é o baixo custo do equipamento que está em torno de R$ 700/ha, enquanto o convencional fica em torno de R$ 2 mil. Segundo Brasileiro, a mão-de-obra também é otimizada. “No sistema convencional, é necessário mobilizar um trabalhador em tempo integral para cuidar do equipamento; nesse sistema, o próprio vaqueiro que faz a ordenha pode realizar o serviço”, conclui.

O EXEMPLO DA NOVA ZELÂNDIA

A Nova Zelândia, um dos maiores exportadores de leite do mundo, respondendo por cerca de 30% do comércio internacional de lácteos, tem recebido notoriedade pela eficiência na produção de leite a pasto a baixo custo. A indústria de laticínios daquele país processou em 1998, 10,651 bilhões de litros de leite. Deste total, cerca de 95% do volume foi para o mercado externo. O país goza de características climáticas que ajudam nesta eficiência. O clima temperado favorece o crescimento de gramíneas durante todo o ano. Nicolas Lopez-Villalobos, pesquisador do Institute of Veterinary, Animal and Biomedical Sciences, realça que “as boas práticas de manejo e tecnologias avançadas adotadas por produtores bem treinados” ajudam em muito a fazer a diferença.

O país tem mais de 3 milhões de vacas em lactação, distribuídas em um espaço com 1,2 milhões de ha. As fazendas leiteiras estão, geralmente, confinadas em áreas com potencial mínimo de produção de 10 t de matéria seca de pasto/ha. A produção de leite na Nova Zelândia é baseada quase inteiramente em pastagens de azevém perene e trevo branco. Para otimizar a alimentação do rebanho, o país adotou o modelo de estação de partos concentrados que se tornou a característica mais marcante da sua produção. Os partos são planejados para se iniciarem no final do inverno, com uma grande parte do rebanho parindo nas primeiras quatro semanas e o restante nas próximas seis a 12 semanas. Assim, as parições estariam encerradas quando atingisse o pico de demanda de forragem com o pasto na sua plenitude de crescimento.

“O sistema adotado garante uma necessidade mínima de conservação do excedente de forragem do pasto sob a forma de feno ou silagem e praticamente dispensa a utilização de suplementos energéticos ou protéicos”, diz Villalobos. Apesar da grande produção, o país enfrenta problemas de rentabilidade no setor. O valor que os produtores recebem pelo leite é quase inteiramente dependente dos preços de exportação. A grande disputa pelo mercado tem feito os preços caírem nos últimos anos. “Os valores pagos no mercado externo têm sido consideravelmente inferiores aos que podem ser conseguidos no mercado interno.

Isso tem feito com que os retornos financeiros para os produtores da Nova Zelândia sejam consideravelmente menores do que aqueles em outros países”, reclama Villalobos. Para sobreviver, o setor leiteiro tem sido forçado a fazer ajustes em seu modelo de produção. Entre eles está o aumento da escala de operação com o aumento do rebanho, ganhando pela quantidade produzida. Embora as características da Nova Zelândia e do Brasil sejam diferentes, a fórmula para superar o obstáculo do baixo preço do produto é a mesma em qualquer parte do mundo: aumentar a produção reduzindo custos. Uma receita que o sistema de produção a pasto absorve muito bem.

Por: Rubens Neiva

FONTE:
Revista Balde Branco – Número 422 – Dezembro/1999