Soja

Lagartas na Soja

Geraldo Papa
Fernando Juari Celoto
Unesp /Ilha Solteira-SP

A soja é a principal cultura do país tanto em volume como na geração de renda. Entre pequenas, médias e grandes propriedades são aproximadamente 250 mil produtores, distribuídos em quase todos os estados do Brasil. Somos o segundo maior produtor e exportador mundial de soja em grãos, óleo de soja e farelo, com produção superior a 50 milhões de toneladas, que gera cerca de 10 bilhões de dólares (12% da exportação total brasileira) por ano.

Diante da enorme escala de produção atingida pela cultura da soja, com grandes áreas plantadas em monocultivo, é esperado o surgimento de desafios fitossanitários, que necessitam serem equacionados para manter viável a produtividade e a própria sustentabilidade deste cultivo, tão importante ao Brasil e a sua agricultura.

Dentre o complexo de lagartas de normal ocorrência na cultura, além da lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis, bastante conhecida dos produtores e que é a maior causadora de desfolha na cultura, outras espécies de Lepidópteros vêm aumentando sua ocorrência como é o caso das espécies pertencentes à subfamília Plusiinae, onde a Pseudoplusia includens é a espécie mais freqüente e tem trazido dificuldades para os plantadores, exigindo modificações no manejo e mudanças dos defensivos e doses normalmente utilizadas para o controle da A. gemmatalis.
A Pseudoplusia includens é popularmente chamada de lagarta mede-palmo, causa severos danos à cultura e pode ser encontrada em todas as áreas cultivadas com soja. Sua ocorrência é simultânea a A. gemmatalis, porém não raro são encontradas de forma isolada, principalmente nos primeiros estágios de desenvolvimento da lavoura.

A P. includens era considerada uma praga secundária em soja, controlada normalmente por parasitóides e fungos entomopatogênicos (doença branca e outras).  Entretanto, nas últimas safras, surtos foram constatados em vários estados, principalmente em Mato grosso do Sul, São Paulo e Paraná.  Provavelmente, as condições de umidade nesses locais desfavoreceram a incidência de inimigos naturais com conseqüente aumento de população da praga, cujo controle é mais difícil que o da lagarta-da-soja.

A lagarta de P. includens apresenta coloração verde claro com linhas brancas longitudinais espalhadas sobre o dorso. Apresentam três pares de pernas abdominais, fazendo com que no seu deslocamento ocorra intenso movimento do corpo, parecendo medir palmos, característica marcante que lhe confere o nome popular de lagarta-mede-palmo.

O ataque da lagarta mede-palmo deixa as folhas com aspecto rendilhado, pois  a lagarta não consome as nervuras. O controle químico dessa lagarta, ocorrendo sozinha ou associada à lagarta-da-soja, deve ser feito quando forem encontradas, em média, 40 lagartas grandes (>1.5 cm) por pano-de-batida, considerando-se 2m da cultura em fileiras paralelas ou 20 lagartas grandes por pano de batida, considerando-se a batida das plantas no pano em apenas uma das fileira (1m) ou se a desfolha atingir 30% antes da fase do florescimento, ou 15%, tão logo apareçam as primeiras vagens.

Geralmente o ataque da mede-pamo ocorre antes da floração e antes da ocorrência da lagarta-da-soja, quando a aplicação de um produto químico pode causar drástica redução na população de inimigos naturais, provocando desequilíbrio biológico, que provoca aumento no número de aplicações por ciclo da cultura.


Lagarta-mede-palmo, Pseudoplusia includens


Dano de P. inclusens em soja

Dificuldade de controle

Diferente da Anticarsia gemmatalis, a P. includens habita mais o baixeiro das plantas, se expondo menos aos inseticidas aplicados, além disso, esta espécie é em geral mais tolerante às dosagens usuais dos defensivos quando comparado com a lagarta-da-soja. Devido a estes fatores, a qualidade da aplicação passa a ser fundamental, visando atingir com eficiência o alvo, ou seja, as lagartas que ficam no baixeiro e interior das plantas.

Importância do manejo integrado de pragas (MIP)

O manejo integrado de pragas da soja é um dos programas de maior sucesso, sendo reconhecido mundialmente. O MIP visa a integração de várias táticas de controle, ao invés de se basear no controle pelo uso exclusivo de inseticidas, constituindo-se na melhor estratégia para o controle das pragas da soja, pois sendo um método ecologicamente orientado, utiliza diversas técnicas de controle, que combinadas num sistema dinâmico e harmonioso, confere a cultura um modelo sustentável, que leva em conta os interesses dos produtores, e impactos na sociedade e no ambiente. Entretanto, nos últimos anos os programas de MIP tem sido ameaçados pelo surgimento de novas pragas e doenças como é o caso da ferrugem asiática na soja, que exige pulverizações de fungicidas quase que de forma preventiva devido a falta ainda de informações e estratégias mais adequadas de controle. No caso do aumento da freqüência na ocorrência de lagartas, o uso generalizado de fungicidas para controlar a ferrugem asiática causa a morte de fungos benéficos que auxiliam no controle das pragas, contribuindo para o ressurgimento de lagartas, como as Plusias. Outra ameaça para os programas de MIP é o avanço dos defensivos genéricos que, se por um lado tem barateado os custos com pesticidas por outro lado pode representar um retrocesso se ocorrer o aumento de aplicações de inseticidas de grupos químicos antigos, de alta toxicidade e de amplo espectro de ação.

Para o sucesso de um programa de manejo integrado de pragas são necessários a integração harmônica de quatro componentes: a pesquisa, que gera as informações sobre a bioecologia dos insetos-pragas e seus inimigos naturais, os níveis de danos, as amostragens, as tomadas de decisões de controle e a escolha do defensivo; a extensão rural, atualmente um dos componentes mais deficitário devido a falta de técnicos e a crônica falta de recursos para os órgãos oficiais, sendo que a difusão das tecnologias tem sido realizada pelos Engenheiros Agrônomos das industrias de insumos, das empresas de consultoria, das cooperativas e dos canais revendedores; as empresas que produzem insumos como os inseticidas ou material biológico como inimigos naturais ou inseticidas biológicos  e no final da cadeia temos os agricultores, que farão uso das informações e estratégias para os quais os programas são desenvolvidos.

Resistência das lagartas aos defensivos

Considerando-se que a melhor maneira de avaliar o sucesso de um sistema proposto, entre várias outras opções, é a sua adoção e a permanência de sua aceitação após anos de uso, o controle químico mostra-se até o momento como a mais utilizada e, conseqüentemente, mais importante forma de controle de pragas.  Todavia, o uso abusivo e sem critérios técnicos poderão acarretar em sérios problemas, comprometendo a sustentabilidade, como é o caso do desenvolvimento da resistência das pragas aos defensivos. Dentre as conseqüências drásticas da evolução da resistência estão a aplicação mais freqüente de pesticidas; aumento na dosagem do produto e substituição por um outro produto, geralmente de maior toxicidade. Estes fatores comprometem os programas de manejo integrado de pragas (MIP) em vista da maior contaminação do ambiente com pesticidas, destruição de organismos benéficos, e elevação nos custos de controle da praga.

Assim o desenvolvimento da resistência não interessa a nenhum setor, quer seja da indústria, que tem a vida útil de seu produto reduzida, do produtor, que perde uma das opções de controle de pragas ou da sociedade em geral que terá que consumir produtos com maiores chances de contaminação por resíduos, além da elevação dos custos da produção. Com isso o manejo da resistência de artrópodos a produtos químicos tem se tornado um importante componente do MIP e vice-versa.

Bacillus thuringiensis: INSETICIDA BIOLÓGICO COMO OPÇÃO DE CONTROLE E MANEJO DA RESISTÊNCIA DAS LAGARTAS NA SOJA.

O Bacillus thuringiensis, conhecido como Bt, é uma bactéria que vive naturalmente no solo, ou em folhas de plantas e desde a década de 40 foi introduzida no mercado mundial para o controle de pragas agrícolas, principalmente lagartas da ordem Lepidóptera. O Bt produz proteínas denominadas delta-endotoxinas durante o processo de esporulação, que são altamente tóxicas aos insetos, porém, inofensivas aos mamíferos e a flora em geral.

A atividade entomopatogênica do Bt está relacionada com a produção de cristais com ação inseticida, que são sintetizados a partir da fase estacionária e acumulados no citoplasma da célula mãe durante a esporulação. Cada cristal pode ser formado por uma ou mais proteínas codificadas por classes de genes denominados de CRY. Os inseticidas comerciais a base de Bt geralmente contêm uma mistura de esporos e de cristais secos das toxinas. São aplicados na soja via foliar e as lagartas ao se alimentarem das folhas ingerem o inseticida que será ativado pelo pH alcalino da hemolinfa (sangue) da lagarta. Como resultado da ingestão do Bt ocorre o rompimento das paredes do aparelho digestivo do inseto causando paralisação na alimentação com posterior morte do inseto.

O modo de ação das proteínas Cry difere completamente dos modos de ação dos conhecidos inseticidas químicos sintéticos, fazendo com que essas proteínas sejam elementos chaves para auxiliar no manejo integrado de pragas através de sua aplicação foliar sobre as plantas ou, como mais recentemente, através da expressão dessas toxinas em plantas transgênicas.Enquanto o uso de inseticidas biológicos ainda permanece significativamente atrás dos inseticidas químicos sintéticos, muitos aspectos relacionados à segurança e ao meio ambiente favorecem o contínuo aumento da utilização de B. thuringiensis para o controle de pragas. Isso, porque as proteínas que têm sido estudadas, até o momento, não são patogênicas para os mamíferos, pássaros, anfíbios ou répteis e ainda são muito específicas para os grupos de insetos contra os quais as toxinas têm atividade.


Mecanismo de intoxicação da lagarta pela ação das toxinas Bt

ESTRATÉGIAS DE USO DE INSETICIDAS A BASE DE Bt NO MANEJO DE LAGARTAS DA SOJA

Diversas lagartas que atacam a soja podem ser controlados pelo Bacillus thuringiensis destacando-se: a lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis e as lagartas do complexo Plusias, onde a mais freqüente é a Pseudoplusia includens (lagarta-mede-palmo). Resultados de pesquisas mostram que é viável a utilização de inseticidas biológicos a base de Bt, associados a inseticidas químicos, potencializando o controle e contribuindo para o manejo da resistência. Entre os inseticidas químicos o grupo dos piretróides sintéticos tem proporcionado controle efetivo das lagartas da soja com excelente efeito de choque, com a vantagem de que, entre os grupos químicos convencionais, os piretróides são menos tóxicos quando comparados aos organofosforados ou carbamatos, podendo ser usados em rotacionamento com os Bts, poupando a cultura de aplicações mais freqüentes com inseticidas químicos. Outra vantagem do Bt é a alta seletividade a inimigos naturais, baixa toxicidade e compatibilidade com uso associado ao controle biológico.
Outro ponto importante no emprego de inseticida biológico a base de Bt são os múltiplos sítios de ação das endotoxinas que dificultam o desenvolvimento da resistência dos insetos ao defensivo.


Esquema mostrando os múltiplos sítios de ação das toxinas do Bt vr. Kurtaki (Dipel R)

Esquema de Manejo de lagartas ao longo do ciclo da cultura da soja utilizando a associação de inseticidas biológico e químico.

Colunista: Prof.Dr. Geraldo Papa
Área: Agro Negócios
Inserida em: 06/09/2007 11:55

Fonte: http://www.ilhasolteira.com.br/colunas/index.php?acao=verartigo&idartigo=1189090532