Pecuária

Jeito de ganhar mais

As demandas de alimento da humanidade levam à necessidade de intensificar os processos produtivos. Na bovinocultura, isso tem sido feito com os confinamentos de bovinos de corte e estabulação do gado leiteiro. Ademais de agredirem o bem-estar dos animais, pelo que, por isso só, já deviam ser proscritos, esses métodos implicam altos investimentos financeiros e contaminam o ambiente, além de utilizarem grãos na alimentação animal que poderiam ser de consumo humano. Intensificar sim, mas com procedimentos agroecológicos que tragam reais benefícios ao produtor, ao solo, às pastagens, ao ambiente e à sociedade.

Assim é o Pastoreio Racional Voisin – PRV, método que passa a ter maior atualidade e interesse porque, fornecendo alimentação aos animais exclusivamente à base de pasto, é uma proteção contra a doença da vaca-louca e uma forma de melhorar a qualidade ambiental com alto seqüestro de carbono, reduzindo o efeito estufa.

O PRV é um método superior de manejo das pastagens, que se baseia na aplicação dinâmica e dialética das quatro leis universais do pastoreio racional enunciadas por André Voisin: as leis do tempo de repouso, do tempo de ocupação, dos rendimentos máximos e dos rendimentos regulares. Essas leis contemplam as necessidades da pastagem, as exigências e o bem-estar dos animais, a proteção ambiental e os objetivos humanos.

Para viabilizar-se essas leis é indispensável a divisão do campo em pequenas parcelas, as quais, por sua vez, são interligadas por um sistema viário e, cada uma delas dispõe de água que os animais têm, permanentemente, à disposição.

Implementada essa infra-estrutura, o pastoreio passa a ser comandado pelo humano e os princípios de fisiologia vegetal respeitados, o que dá aos pastos o caráter de perenidade, dispensando-se, assim, qualquer tipo de “renovação”.

Com a mudança permanente dos animais nas diferentes parcelas, cumprem-se as leis fundamentais dos tempos de repouso e de ocupação e maximiza-se o uso do principal insumo em PRV: a captação da energia solar.

A partir da deposição concentrada da bosta e do respeito aos tempos, desencadeia-se no solo um intenso processo biocenótico, cujo resultado é o incremento da fertilidade, dispensando-se a incorporação de fertilizantes de síntese química. O aumento da fertilidade dá-se pela conjugação de vários processos, muitos conhecidos e, outros, certamente por se conhecer, mas existentes. Dentre os conhecidos, cito o ciclo etileno, a transmutação dos elementos com baixa energia, o efeito saliva, a trofobiose, a alelopatia, além de outros. Não se usa agrotóxicos, nem se rotura o solo. Trata-se de um método realmente agroecológico e que vem sendo aplicado, com pleno sucesso, em mini, pequenas , médias e grandes áreas.

É freqüente me perguntarem: qual o melhor pasto para o PRV? Basicamente, todos os pastos são bons, se manejados corretamente, isto é, em seu ponto ótimo de repouso. Por esta razão é de boa técnica sempre iniciar o manejo de um projeto com o pasto existente, ainda que seja, aparentemente, de baixa qualidade.

O respeito aos tempos de repouso produz efeitos surpreendentes e, quase sempre, positivos. Se, entretanto, mesmo dando adequado tempo de repouso à pastagem, há necessidade de se introduzir espécies melhoradas, isso deve ser feito com sobre-semeadura, nunca agredindo o solo com aração, gradagem ou procedimentos semelhantes.

O PRV é o melhor método para a produção de carne e ou leite à base de pasto, mas precisa ser implementado e manejado na sua totalidade. Meias tecnologias, sempre são danosas: o produtor gasta e não tem resultado. Produções exclusivamente à base de pasto com PRV, de mais de 1.000 kg de peso vivo/ha/ano e 17.000 kg de leite, têm sido registrados em vários países.

Implantação e manejo

Não existe atividade econômica sem investimento e há muitas formas de se maquiar números e resultados. Prefiro, por isso, comentar dados de fontes idôneas e que reflitam situações reais.

Segundo a Embrapa Gado de Leite (2002), o custo de implantação de bermuda coast-cross é de US$ 352,13/ha e, o custo de utilização é de US$ 627,73/ha/ano.

Com o dólar a R$ 2,85, tem-se o custo de implantação de R$ 1.003,60/ha e R$ 1.789,00/ha para o custeio anual. Trata-se, é verdade, de uma pastagem irrigada, com fortes doses de fertilizantes (R$ 1.098,30/ha) e que possibilita uma alta produção de leite e ou de carne/ha.

Quanto à lucratividade, tenho minhas dúvidas e, quanto à contaminação ambiental com o emprego maciço de fertilizantes de alta solubilidade, não tenho dúvidas.

No PRV, além das vantagens antes enumeradas (algumas apenas), os custos estão no quadro 1 (veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF). Os exemplos aí apresentados foram extraídos de dois projetos, portanto, pretendem ser números reais.

O projeto A é uma área de 320ha, com topografia acidentada, com muitos afloramentos rochosos e é atravessada por uma rede de alta tensão, o que obrigou a 25% das cercas serem convencionais, com custo três vezes maior do que a cerca eletrificada. O projeto B é uma área com pequena declividade, toda mecanizável.

Há, como se vê, uma certa paridade no valor do investimento entre os dados da Embrapa e do projeto A. Já o projeto B, cujas condições são mais próximas das médias é, apenas 50% dos investimentos anteriores.

A diferença, porém, a grande e permanente diferença, é outra: com PRV, além das vantagens já enumeradas, há três outras que, por si sós, justificam a generalização de seu uso: 1) não se faz mais renovação de pastagens, nem gastos de custeio; 2) a fertilidade do solo é incrementada com ganhos crescentes/ha; 3) há uma forte proteção ambiental.

Diante dessas vantagens inequívocas, é, naturalmente, de se perguntar: por que, então, não é um método generalizado? Esta é outra questão e, nos limites desta matéria, posso afirmar ser o PRV simples, mas não fácil, que exige um rigoroso processo de administração o qual permite ser o pastoreio comandado pelo humano e não pelo bovino (Voisin, 1956).

Porém, o PRV não opera milagres; não tem esquemas ou receitas; não faz mágicas.

É, apenas, o melhor!

Luiz Carlos Pinheiro Machado
UFSC

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=236