Gerenciamento de Produção

Introdução da Seringueira em São Paulo

Hoje, o Estado de São Paulo é o maior produtor nacional de borracha natural, apontam as estatísticas.

De acordo com os dados publicados pelo IAC, em 2004, para uma produção de borracha do gênero Hevea – Hevea brasiliensis, a nossa popular seringueira, de cerca de 105.000 toneladas, São Paulo contribuiu com 51.450 toneladas, ou seja, 49%, seguido dos Estados de Mato Grosso, com 22.500 t, 22%, Bahia, com 9.500 t, 10%, Espírito Santo, com 6.000 t, 7%, e os demais com 12.000 t, 11%.

Embora esses dados possam ser novidades para o grande público, para o cidadão comum, para nós, em particular, que tivemos, diga-se, modestamente, a oportunidade de participar do programa de Implantação e Consolidação da Exploração Comercial da Cultura da Seringueira em nosso Estado, eles têm um significado todo especial, de satisfação e orgulho.


Introdução da Seringueira em São Paulo
Como é conhecida, a introdução da cultura da seringueira no Estado de São Paulo foi feita em 1917, depois de uma tentativa fracassada em 1915, pelo Cel. José Procópio de Araújo Ferraz, na Fazenda Santa Sofia, município de Gavião Peixoto, (Araraquara) com sementes enviadas pelo Mal. Cândido Mariano da Silva Rondon: “… que colhi das seringueiras das serras do Jarú (Estado de Rondônia), as melhores nesta região conhecidas… que vão só um barril pequeno em serragem de cortiça, que por acaso, na ocasião, me veio parar às mãos” (Introdução e Cultura da Seringueira no Estado de São Paulo, Luiz Procópio de A. Ferraz).


Esta introdução, cujos belos e majestosos exemplares podem ainda ser observados na Fazenda Santa Sofia, com inúmeros descendentes, deu origem à formação de algumas plantações no Estado e a grande maioria dos “cavalos” sobre os quais foram enxertados os clones distribuídos pelo Serviço de Expansão da Cultura da Seringueira.

Início dos Trabalhos de Pesquisa
Em 1941/42, quando não se podia prever o desequilíbrio entre a produção e o consumo de borracha, observado por volta de 1950, o Instituto Agronômico de Campinas, IAC, deu inicio aos trabalhos de pesquisas com seringueira no Estado, efetuando o plantio de pequenos lotes de progênies nas Estações Experimentais de Campinas, Pindorama e Ribeirão Preto.
A partir de 1951, quando então tivemos que importar borracha estrangeira para atender a demanda do nosso mercado interno, algumas indústrias de artefatos de borracha, tendo em vista as perspectivas futuras de novas importações de borracha, houveram por bem se unirem no sentido de colaborar com a pesquisa no estudo do aumento da produção de borracha no Estado, a preço baixo e mais próximo do Centro de Pesquisa.

Em princípios de 1956, a comissão de técnicos da Secretaria da Agricultura – XVI Comissão Técnica – Seringueira, criada em 23/12/55, para estudar as possibilidades do cultivo da Seringueira no Estado, apresenta um relatório final, no qual é traçado um programa de heveicultura em São Paulo, estabelecendo assim o desempenho de cada membro no campo da pesquisa e do fomento.
Criação do Serviço de Expansão da Seringueira
Em 20/11/1956, com a assinatura do Decreto Estadual nº. 26.815, no governo do Sr. Jânio Quadros, é criado o Serviço de Expansão da Seringueira que, no ano seguinte, dá inicio ao programa de instalação de viveiros de mudas, através de contratos assinados com particulares cooperados, que, nesse primeiro ano, produziram pouco mais de 300.000 mudas enxertadas.
Em 16/07/1956, o Fundo de Fomento à Cultura da Seringueira, criado pelo D.E. nº. 26.816, firmou um acordo com o Escritório Técnico de Agricultura dos Estados Unidos, designado Projeto ETA-50, com duração até 31/12/60, mais tarde prorrogado até 31/12/61.

A partir desta época, já em 1959, o Serviço de Expansão da Seringueira pode contar com a introdução de clones orientais, do Sudeste Asiático, enviados pelo Projeto ETA-50 ao Instituto Agronômico de Campinas, para a formação dos “jardins de clones” e enxertia dos “cavalos” dos viveiros de mudas dos cooperados.

Com a extinção do Serviço de Expansão da Seringueira em 31/11/1959, todo trabalho de fomento da cultura que vinha sendo feita até então, ficou a cargo da Seção de Seringueira e Plantas Tropicais, da DATE, atual Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, CATI.
Durante os trabalhos desenvolvidos com a expansão da seringueira em São Paulo, os principais problemas encontrados e que, de certa forma não deixaram de produzir alguns efeitos psicológicos sobre os agricultores e Engenheiros Agrônomos Regionais da Secretaria da Agricultura, foram o baixo pegamento das mudas distribuídas em 1959 no planalto e o surto imprevisto da doença “Mal Sul-americano das Folhas”, causada pelo fungo Mycrocyclus ulei (Dotidella ulei) no inicio de 1960, em viveiros e plantações novas enxertadas com material suscetível do litoral.
De 1962 em diante, o volume de mudas produzido sempre foi superior à demanda, dando inicio a Secretaria da Agricultura a distribuição gratuita das mesmas para os agricultores, para a instalação de Campos de Observação e replantio das culturas já instaladas.
Vencida a primeira etapa de trabalho de um Serviço criado com um programa bastante amplo, sem, contudo, dispor de técnicos de nível superior e médio em quantidade suficiente, assim como por se trabalhar em faixa climática limítrofe, sem contar com muitos dados de pesquisas utilizáveis e na qual muitas dificuldades tiveram que ser superadas, com alguns prejuízos para o fomento, São Paulo podia, então, contar com excelentes culturas de seringueira em vários de seus municípios.

Treinamento em Sangria das Árvores
Em meados dos anos 60, quando os seringais instalados com mudas distribuídas para plantio em 1959 começavam a apresentar um número razoável de árvores em condições de serem sangradas para a extração do seu látex, demos início a um programa de treinamento das primeiras equipes de sangradores.

Agora, sem podermos mais contar com a estrutura e os recursos disponíveis durante a vigência do Serviço de Expansão, era chegada a hora da verdade, da cobrança: “Se a Secretaria da Agricultura mandou nós plantarmos seringueira, gostaríamos de saber se é viável a sua exploração comercial ou se devemos transformá-la em um bosque para fazer “pic-nic” ou lenha?” perguntavam os agricultores.
Geralmente, tratava-se de pequenos plantadores, com 600 a 1500 árvores que, isoladamente, não tinham condições de encontrar no mercado todos os materiais necessários para a sangria, coleta e beneficiamento do látex, a não ser sob encomenda, a um preço muito elevado.

Entretanto, como poderíamos ver mais adiante, a completa falta de conhecimento dos nossos agricultores com relação às técnicas de sangria da seringueira, uma prática altamente especializada e delicada para o sucesso econômico da sua exploração, levou alguns deles a acharem que seria melhor e mais cômodo “roubar” os sangradores de outras propriedades, oferecendo-lhes algumas vantagens, do que treinar os seus funcionários.
Por outro lado, o mercado para nossa incipiente heveicultura era ainda uma incógnita. Voltávamos, assim, sem alimentar maiores esperanças, para a estaca inicial.
Implantação de Centros-Piloto

Finalmente, em meados de1967, conseguimos implementar um programa de instalação de 10 Centros-Piloto de Sangria e Preparo do Látex, com um adiantamento de verba do então Fundo do Departamento da Produção Vegetal, que permitiu a compra dos 10 conjuntos laminadores de borracha (Calandras), tijelinhas, pingadeiras, faca de sangria (Jebong) e outros materiais, que foram repassados, a preço de custo, para os primeiros heveicultores paulista das regiões agrícola de Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Vale do Paraíba, Vale do Ribeira e Bauru.
Desde então, com a instalação dos Centros-piloto nos seringais das Fazendas Himalaia, do Sr. Miguel Thomé, no município de Bálsamo e Santa Helena, do Dr. Joaquim Junqueira do Val, em Colina, considerados, na ocasião, de grande porte, pela primeira vez, foi possível se fazer um controle diário do rendimento de látex e de borracha seca produzidos por árvore, da mão-de-obra utilizada e da evolução das sangrias durante o ano agrícola, com inicio no mês de setembro, até o seu termino, com suspensão das sangrias, no mês de julho.

As primeiras borrachas produzidas, na forma de laminas seca ao ar e cernambi (resíduo de borracha dos cortes de sangria e fundo das tijelinhas) foram prontamente absorvidas na própria região pelas Indústrias de Recauchutagem de pneus dos Irmãos Sagula, de Jaboticabal e Tiresoles, de Ribeirão Preto.

Logo a seguir, com a entrada da Xetal (látex ao contrário), no mercado, uma indústria de pequeno porte, especializada na fabricação de artigos cirúrgicos e balões, de São Roque, a venda de borracha passou a ser feita na forma de látex puro conservado com amônia.
Não deixava, pois, de ser curioso e pitoresco observar o caminhão da Xetal na sua peregrinação pelas fazendas do interior do Estado, desde São Roque, perto da Capital, até Jales, descarregando os seus tambores de 200 litros vazios e carregando aqueles já cheios de látex puro, com mais de 70% de água.
Mas, toda essa ginástica tinha uma justificativa.

Como era difícil importar o látex concentrado a 60% e os tambores que vinham da Bahia, devido aos atrasos nos seus transportes, chegavam em más condições, a Xetal, por falta de matéria-prima, não pode atender, na ocasião, uma encomenda de mais de um milhão de pares de luvas cirúrgicas feita pelos Estados Unidos e outras 300 mil, feita pela Alemanha.
Assim, não raro, para felicidade dos produtores, era o próprio comprador que, com medo de perder o seu fornecedor, propunha um reajuste dos preços do látex.
Em novembro de 1972, participamos, em Cuiabá, MT, do 1º Seminário Nacional da Seringueira, promovido pela extinta Superintendência da Borracha – Sudhevea, do MIC (Ministério da Indústria e Comércio): ali, para surpresa nossa, pela primeira vez, podíamos discutir o assunto seringueira com os colegas representantes dos Estados tradicionais produtores de borracha do Acre e da Amazônia, do Mato Grosso e da Bahia, sem medo, sem preconceito.

Foi nesse ambiente que, embora nos sentíssemos meio deslocados, como um convidado “penetra”, pudemos ter uma visão mais realista das precariedades da nossa agroindústria extrativa da borracha, e ver reforçada a nossa convicção de que, graças ao potencial agrícola do nosso Estado e da capacidade empresarial do nosso agricultor, São Paulo, um dia, daria a sua resposta.

Desde então, tendo em vista os resultados econômicos obtidos nesses Centros-Piloto, que foram, na ocasião, amplamente divulgados pela imprensa, o nosso agricultor resolveu investir na seringueira por conta própria, como uma nova e promissora opção agrícola, muitas vezes em substituição de lavouras decadentes.
Situação Atual da Heveicultura em São Paulo
Hoje, São Paulo pode contar com uma área plantada de cerca de 90.000 hectares, com mais de 14 milhões de pés em produção e mais de 4,5 milhões de pés novos, distribuídos entre 2,5 mil pequenos, médios e grandes produtores, que empregam cerca de 15 mil trabalhadores.

De acordo com a Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha, Apabor, até 2020, é previsto um plano ambicioso de ampliação da área plantada no Estado para 250 mil hectares – inteiramente custeado pela iniciativa privada, visando reduzir o nosso déficit entre a produção e o consumo de 289.000 toneladas pelas nossas indústrias manufatureiras de borracha.

Das suas 19 Usinas de Beneficiamento de Borracha existentes, 72% da produção são destinadas para a indústria pesada (de pneus) e 28% para a indústria leve (de autopeças, materiais cirúrgicos, preservativos, entre outros).
Entretanto, a nosso ver, a expansão da cultura da seringueira em São Paulo foi retardada em, no mínimo, dez anos, devido à falta de uma política séria para o setor.

Fonte: http://www.heveabrasil.com/?page=noticias.asp&newsid=0001