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iLPF: receita de agricultura sustentável, com aumento de produtividade

01/04/2014

Levar a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) ao sistema de ensino brasileiro. Foi com esse objetivo que a John Deere, em parceria com a Embrapa e a Rede de Fomento em iLPF, reuniu cerca de 700 pessoas no 8º Dia de Campo da Fazenda Santa Brígida, realizado em Ipameri (GO).

Durante o evento, professores e alunos de mais de 20 instituições de ensino de todo o Brasil puderam verificar a eficiência do sistema e entender um pouco mais sobre essa tecnologia, que transformou as terras degradadas da propriedade em um modelo de produtividade.

Para Paulo Herrmann, presidente da John Deere Brasil e da Rede de Fomento em iLPF, incluir a integração no currículo oficial dos cursos relacionados à agronomia, zootecnia e ciências ambientais é a melhor forma de engajar e preparar os futuros profissionais da área. “Precisamos de gente jovem e mentes abertas para divulgar o iLPF entre os produtores. Para isso, temos que despertar o interesse e a curiosidade das instituições de ensino. Dessa forma, teremos mais força para chegar às lavouras de todo o País”, diz.

Atualmente, disciplinas de iLPF fazem parte da grade curricular de oito universidades brasileiras. Para aumentar essa atuação, representantes das instituições de ensino presentes no evento decidiram formar um grupo que irá trabalhar na divulgação da disciplina e na definição do conteúdo voltado ao iLPF. “É muito importante incluir o iLPF na grade curricular para que possamos abordar com profundidade a complexidade que envolve o planejamento, os ciclos do negócio, a gestão e o acompanhamento dos resultados”, diz o diretor da Faculdade de Tecnologia da Fatec-Indaiatuba, Luiz Antonio Daniel.

iLPF – A integração Lavoura-Pecuária-Floresta é uma estratégia de produção sustentável que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais, realizadas na mesma área em cultivo consorciado, em sucessão ou rotacionado, buscando efeitos sinergéticos entre os componentes do agroecossistema, contemplando a adequação ambiental, a valorização do homem e a viabilidade econômica.

Segundo a Embrapa, a iLP e a iLPF são as tecnologias que mais trazem benefícios agronômicos às lavouras, entre eles a recuperação e a manutenção de ambientes produtivos, com destaque na matéria orgânica do solo. Além disso, o sistema permite a diversificação da produção e a redução de custos e riscos, beneficiando também o meio ambiente ao conter os efeitos degradadores – como a erosão – reduzir o uso de defensivos e aumentar a captação de carbono da atmosfera por meio da manutenção de cobertura verde durante a maior parte do ano.

De acordo com o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, estamos vivenciando uma revolução na agricultura tropical. “O Brasil construiu algo extraordinário nos últimos anos. Estamos iniciando um ciclo marcado pela sustentabilidade, utilizando os recursos naturais de forma planejada e obtendo produções recordes. Somos referência para a agricultura mundial.”

Cenário brasileiro

Dados da Embrapa apontam que, de um total de mais de 800 milhões de hectares, o Brasil dispõe de pouco mais de 300 milhões de hectares para a produção agropecuária, sendo dois terços dessa extensão utilizados na produção pecuária e um terço para a produção vegetal.

Na área destinada à produção pecuária, cerca de 82% está em processo de degradação, ou seja, com uma taxa de lotação menor que 1,0 unidade animal por hectare. Nesse sentido, o iLPF é um dos principais caminhos para recuperar essas áreas, além de contribuir decisivamente para a redução de gases de efeito estufa.

Para o engenheiro agrônomo João Kluthcouski, doutor em Solos e Nutrição de Plantas e pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, as áreas degradadas de hoje representam uma oportunidade para o Brasil triplicar tanto a produção animal, como a vegetal. “Pode ser iLP ou iLPF, não existe uma regra para aplicar esse sistema. Cada um cria a sua fórmula conforme o tamanho e as necessidades de sua propriedade.”

Paulo Herrmann reforça que o Brasil tem um diferencial muito importante que é a capacidade de produzir 12 meses ao ano. “Precisamos otimizar os processos de produção, aumentando a eficiência sem aumentar a área de plantio”, diz. “Os produtores brasileiros são responsáveis e estão abertos a formas sustentáveis de produção e o iLPF mostra o potencial que existe dentro das propriedades. Nossa missão é fazer essa tecnologia chegar até eles.”

A Fazenda Santa Brígida

Modelo de produtividade, a propriedade de 922 hectares, localizada em Ipameri (GO), começou a utilizar o sistema iLPF em 2006, quando apresentava apenas pastagens degradadas.

Foi então que a dentista Marize Porto Costa, proprietária da fazenda, buscou ajuda e, com o apoio da Embrapa, em parceria com a John Deere e a Universidade Estadual de Goiás, iniciou um processo de recuperação dessas pastagens por meio de um sistema de consórcio de milho, braquiária e leguminosa.

Com o tempo, observou-se um incremento gradual na produção. Da safra de 2006/2007 para a safra de 2011/2012 a produção de soja aumentou cerca de 20%, passando de aproximadamente 40 sacas/ha para acima de 50 sacas/ha. Para o milho, esse aumento foi ainda mais expressivo: de 80 sacas/ha no primeiro ano para cerca de 180 sacas/ha no sexto ano.

Segundo a Embrapa, essas evoluções podem ser atribuídas às melhorias dos atributos químicos do terreno, bem como o aumento da matéria orgânica no solo (MOS), decorrente da rotação lavoura-pasto. No caso da Fazenda Santa Brígida, o teor de MOS passou de 1,8 % para 2,8%, o que equivale à fixação de mais de 11 toneladas de carbono orgânico por hectare nos primeiros 20 centímetros do perfil do solo.

A evolução da produtividade pecuária também foi bastante expressiva. A taxa de lotação média anual, que era de 0,5 UA/ha em 2006, passou para 2,5 UA/ha com animais na fase de engorda, durante 60 dias, no período de inverno, e chegou a 4,6 UA/ha, com animais em fase de recria, durante 120 dias, também no período de inverno. Outro incremento importante foi na produtividade de carne, que passou de duas para 16 arrobas/ha.

Em propriedades rurais com pastagens degradadas, os animais podem chegar a perder mais de 200g/dia no inverno. Na Fazenda Santa Brígida, o ganho em peso a pasto nesse período é da ordem de 1,2 kg por animal ao dia. Além disso, na pecuária tradicional, o custo de produção da arroba é estimado em R$ 73,00, enquanto que no sistema iLPF é de R$ 37,50.

Vale lembrar que as pastagens utilizam apenas o residual dos fertilizantes aplicados nas lavouras e que a idade de abate que, antes de 2006, era acima de quatro anos passou a ter uma média de três anos, com planejamento para chegar aos 24 meses nos próximos anos. Essa redução no ciclo implica na diminuição de pelo menos um quarto da emissão de gás metano por quilo de carne produzida.

Na Fazenda Santa Brígida também se produz milho para silagem, sempre consorciado com braquiária, cuja produtividade nos últimos anos tem sido sempre acima de 50 t/ha, ficando na área uma pastagem verde, de alta qualidade para alimentação animal durante toda a estação seca do ano, e aumentando a fixação de carbono. Além disso, hoje são contabilizadas na fazenda 51 mil árvores de eucalipto, que além de conforto térmico aos animais e reciclagem de nutrientes, representam uma renda extra para a propriedade e uma enorme contribuição para a mitigação de gases de efeito estufa.

As técnicas utilizadas na Fazenda vão de encontro ao Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que tem a missão de organizar e planejar ações para a adoção de tecnologias de produção sustentáveis. A meta do Mapa é recuperar pelo menos 20 milhões de hectares de terras com algum grau de degradação até o ano de 2020, quatro milhões deles por meio do sistema iLPF. A meta da John Deere é incluir o iLPF em 10 milhões de hectares até 2020.

Dia de Campo

Para a oitava edição do Dia de Campo da Fazenda Santa Brígida, os participantes puderam visitar quatro estações técnicas: (1) condicionamento de solo para iLPF, (2) iLPF safra/verão, (3) sistemas de plantio/iLPF safrinha e novos sistemas de iLP e (4) desempenho animal e madeireiro.

Além disso, os visitantes tiveram a oportunidade de checar 23 novas tecnologias de plantio. “São os berçários da Embrapa, onde vemos o desenvolvimento de diferentes variáveis, como combinações de culturas, espaçamentos e técnicas”, explica Marize Porto. Outra novidade é o sistema de gestão para iLPF criado pelo Siagri. Desenvolvido na Fazenda Santa Brígida, o programa integra todas as áreas da fazenda: agricultura, pecuária, floresta, máquinas e administração. “Para nós foi uma ótima mudança, pois a gestão desses diferentes setores era bastante complexa. Agora outras fazendas poderão utilizá-lo.”

Para Paulo Herrmann, eventos como esse são uma ótima oportunidade para informar e inspirar futuros multiplicadores. “Ainda temos muitos desafios pela frente, entre eles criar novas leis trabalhistas, treinar a mão de obra para a atuação multitarefa e adequar as linhas de crédito à nova realidade da agricultura. Por isso esses encontros são importantes. Aqui discutimos, trocamos experiências e temos um exército de especialistas da Embrapa e pesquisadores para dar explicações – inclusive econômicas – sobre o sistema.”

Documentários – Para aumentar a difusão de técnicas para uma agricultura sustentável, a Fundação John Deere, em parceria com a Embrapa, produziu uma série de documentários sobre melhores práticas e tecnologias, referências para a agricultura e produção de energia alternativa no Brasil. O primeiro DVD, lançado em 2012, “Terra e Sustentabilidade”, apresenta os benefícios do iLPF. O segundo, “Energia Verde e Amarela”, lançado em 2013, destaca os diferentes processos de geração de energia sustentável, que provêem da biomassa e dos seus resíduos. Esses e outros vídeos estão disponíveis no canal da John Deere no YouTube: www.youtube.com/johndeerebrasil

Fonte: Agrolink