Trigo

Hospedeiros Alternativos da lagarta-militar

Prof. Dr. Geraldo Papa
Eng. Agr. MSc Maurício Rotundo

A espécie Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae) foi descrita e pioneiramente estudada há mais de dois séculos por J.E. Smith (1.797) e está amplamente presente na literatura especializada por ser a principal praga do milho (cereal mais importante do mundo), entretanto, devido a seu hábito cosmopolita, também é praga em outras culturas como pastagens, arroz, cana-de-açúcar, trigo, aveia, cevada, amendoim, batata, alfafa e diversas hortaliças.

S. frugiperda encontra-se amplamente distribuída e difundida nas Américas do Sul e Central, todavia, esta espécie não apresenta o mecanismo de diapausa e, portanto, não é capaz de sobreviver continuamente em regiões de clima temperado. Conseqüentemente, nos Estados Unidos S. frugiperda é uma praga esporádica, que ocorre principalmente na cultura do algodão, e que possui sua distribuição limitada as regiões de temperatura mais elevada.

Levantamento divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), referente à produção mundial de milho em 2009, relata que a safra está projetada em 777 milhões de toneladas, 10,8% maior que o volume obtido na safra anterior, quando foram colhidas 701 milhões de toneladas. Os EUA são os maiores produtores, com estimativa de produção de 326,15 milhões de toneladas, representando 42% da produção mundial. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de milho, com previsão de 50 milhões de toneladas, representando aproximadamente 6,4% da produção mundial.

No Brasil, em regiões de cerrado, o milho é uma cultura estratégica, com papel importante nos esquemas de rotação de culturas com soja, algodão, girassol e no plantio direto, como planta fornecedora de palhada, sendo cultivada na época normal (verão), “safrinha” e inverno em áreas irrigadas.

Atualmente a principal praga, tanto para os pequenos como para os grandes produtores de milho é a  Lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, também conhecida como Lagarta-militar. É uma praga cosmopolita, que ataca culturas de importância econômica em vários países. No Brasil além do milho, um dos principais prejudicados, esta praga é encontrada atacando plantas de algodão, arroz, sorgo, pastagens, milheto, entre outras.

O dano causado pela lagarta é um dos entraves para a garantia da produtividade nos milharais brasileiros. As lagartas, que no início apenas raspam as folhas, quando desenvolvidas, podem destruir completamente o cartucho, produzindo grande quantidade de excreções nas folhas remanescentes. Essa praga pode reduzir a produtividade em até 34%, somente pelo dano causado nas folhas.

Com o aumento do cultivo do milho “safrinha” e o cultivo do cereal em áreas irrigadas por pivô central, a população da praga tem aumentado consideravelmente e tem-se notado uma mudança no seu comportamento habitual, atacando plantas recém emergidas e provocando sintomas de “coração morto” semelhantes ao da lagarta-elasmo, Elasmopalpus lignosellus, e cortando plantas rente ao solo como a lagarta-rosca, Agrotis ipsylon, fatos observados principalmente em períodos de veranico. Quando a praga ocorre no final do ciclo da cultura, as lagartas podem danificar a espiga, apresentando o mesmo hábito da lagarta-da-espiga, Helicoverpa zea.

O problema desta praga no milho tem se agravado ano a ano. Um dos fatores se deve ao fato do milho ser plantado o ano todo no país (Safra/Safrinha/Inverno) além do renascimento da cultura do algodão no cerrado brasileiro onde também é problema sério e o controle é difícil. Assim, basta a praga atravessar pontes biológicas entre os ciclos produtivos para encontrar condições de proliferação. A safrinha e a safra de inverno são mais prejudicadas devido a menor precipitação, quando as plantas são mais sensíveis à desfolha provocada pelas lagartas.

Outra grande dificuldade de controle desta praga ocorre pela sua incrível capacidade de adaptação as mais diversas situações de cultivo e diferentes hospedeiros, como os casos de sua mudança de hábito no milho, conforme relatado, quando as lagartas passam a atacar o colmo das plantas rente ao solo ou ataque em espigas. O pior é que quando o produtor percebe que o inseticida utilizado não apresenta bons resultados, muitas vezes ele volta a utilizar o mesmo produto aumentando a dose, o que, além de não resolver o problema, vai onerar o seu custo produtivo e acarretar maior impacto na população de inimigos naturais, no ambiente e na saúde do trabalhador rural. Mas, os problemas não param por aí, o aumento de doses dos inseticidas seguida do uso do mesmo mecanismo de ação dos inseticidas várias vezes durante o ano, leva a seleção de populações da praga resistentes aos inseticidas.

Apesar de atualmente S. frugiperda ser quase sempre associada à principal praga do milho no Brasil, o que também acontece na Colômbia, Venezuela, Guatemala, México, Peru e Chile, ela nem sempre é coadjuvante em outras culturas. Apesar do milho ser o hospedeiro preferencial, S. frugiperda tem registro em mais de 100 plantas hospedeirase pode também atacar plantas ornamentais e silvestres.

O primeiro grande surto da história ocorreu em 1899, quando uma grande parte dos Estados Unidos foi invadida pela S. frugiperda, causando severos danos em milho, arroz, sorgo, trigo e feijão. Em 1902, no Texas, aproximadamente 40.000 acres de pastagens foram altamente danificados pelo inseto. Nos Estados Unidos, ataques intensos ainda foram verificados em aveia, algodão e pastagens. No Brasil, um surto foi relatado em 1964, com enormes danos em milho, arroz e pastagens. As perdas estimadas em função das infestações de S. frugiperda no Brasil são da ordem de 400 milhões de dólares por ano.

O período de suscetibilidade das principais espécies hospedeiras cultivadas no verão, safrinha e inverno, nos diversos agroecossistemas brasileiros, revela a abundância de alimento para a lagarta durante todo o ano. A análise conclui que nas regiões tropicais, onde a temperatura não limita o desenvolvimento do inseto, ocorreu superposição de gerações e o seu crescimento populacional depende da adaptação da lagarta aos diferentes tipos de hospedeiros e da ação de seus agentes de controle, como os inimigos naturais ou o próprio homem.

Na safra atual (2009-2010) esta havendo a entrada significativa dos híbridos de milho com tecnologia Bt na agricultura brasileira. Neste novo cenário é certo que S. frugiperda perderá parte da atenção na cultura do milho, a própria praga e entomologistas irão demandar mais energia para outros hospedeiros.

Hospedeiros Alternativos

Arroz:
Há na literatura estudos que mostram S. frugiperda atacando preferencialmente a cultura do arroz em detrimento ao do milho. Fêmeas de S. frugiperda coletadas em milho não se acasalaram com machos coletados em arroz, ao passo que fêmeas coletadas em arroz se acasalaram com machos coletados em milho e produziram descendentes férteis. O retrocruzamento das fêmeas F1 e também o cruzamento entre eles (F1 x F1) foram observados e os resultados mostraram que existe uma barreira em algum estágio nas 2 direções dos cruzamentos entre as linhagens de S. frugiperda, suportando que a hipótese que S. frugiperda é composta por raças associadas aos hospedeiros.

As barreiras de isolamento entre as linhagens de S. frugiperda são formadas por vários mecanismos. O mais importante deles é a diferença nos horários para acasalamento e postura. A linhagem proveniente do milho realiza a postura nos dois terços iniciais da noite enquanto a linhagem do arroz utiliza o terço final. Há também fatores comportamentais e fisiológicos associados à utilização de um ou outro hospedeiro, permitindo a diferenciação de linhagens baseado nessas características.

Pastagem:
A S. frugiperda na cultura do milho se encaixa dentro do perfil de praga que exige um controle sistemático e bem planejado, pois ocorre todos os anos atacando praticamente todas as áreas produtivas. Porém na cultura das pastagens, ela ganha outro perfil. É praga secundária em pastagens, com menos importância que o curuquerê dos capinzais Mocis latipes, porém sua ocorrência menos freqüente não significa menor prejuízo, pois é tão voraz como M. latipes, o que sempre reduz drasticamente a capacidade de suporte da pastagem em seus esporádicos ataques.

Sorgo:
No sorgo, S. frugiperda provoca o dano típico nas folhas novas dentro do cartucho, entretanto sob determinadas condições, as larvas descem do cartucho para o solo e atacam a planta na região do coleto. Neste ponto, cavam uma galeria ascendente, consumindo os tecidos novos, destruindo o ponto de crescimento. Isso causa murcha e morte das folhas centrais mais novas, causando o sintoma típico de “coração morto”. Quando atacam as folhas, elas costumam se restringir as folhas mais novas. No caso do sorgo granífero, como as plantas são baixas, normalmente a lagarta consome toda a folha bandeira e partes significativas das folhas abaixo dela. Apesar de que em geral o sorgo é mais resistente a S. frugiperda que o milho, há variedades tão suscetíveis quanto o milho, resultando em até 27% de comprometimento na produção.

S. frugiperda é a principal praga do sorgo, e que a quantidade de pesquisas na cultura é bastante reduzida frente a demanda da cultura do milho. O sorgo é mais resistente que o milho a S. frugiperda e de modo geral, os prejuízos são menores que no milho.

Algodão
No Brasil, a intensificação da agricultura pode ser notada na expansão das áreas com cultivo de algodão em diferentes regiões do Brasil, onde a cultura tem obtido ganhos significativos de produtividade. No entanto, as regiões cotonícolas também se caracterizam quanto a sua vegetação agrícola pelos plantios comercias de soja, milho e o próprio algodão numa época de “safrinha”, sendo o milho o cultivo mais importante no plantio em duas épocas. Esse tipo de padrão na exploração das culturas do algodão e milho tem sido sustentado pela viabilidade técnica e pela rentabilidade econômica, associada à geração de um maior número de safras por ano agrícola. Entretanto, os impactos proporcionados por esta composição vegetal na paisagem agrícola sobre a dinâmica populacional de insetos-pragas podem ser avaliados com base nos recentes aumentos na magnitude dos problemas fitossanitários, registrados nas culturas do algodão e milho. Com relação ao algodão, dentre esses problemas, uma das espécies que teve sua dinâmica populacional afetada pelos plantios concomitantes de algodão e milho dentro de uma mesma região foi Spodopera frugiperda, que ocorre com freqüência na cultura, sendo que na maioria das regiões produtoras sua ocorrência é concomitante à outro lepidóptero-praga, que é a lagarta-das-maçãs, Heliothis virescens.

Na cultura do algodão as injúrias causadas por S. frugiperda podem ser diagnosticadas desde a emergência até a fase de maturação. As lagartas recém-eclodidas desta praga raspam o parênquima foliar, enquanto as lagartas pequenas e médias, por sua vez, geralmente raspam a epiderme das brácteas dos botões florais, flores e maçãs antes de perfurarem estas estruturas reprodutivas.

Milheto:
O ataque de S. frugiperda em milheto é tipicamente no cartucho da planta; contudo, se lagartas maiores infestam a cultura no início de desenvolvimento, o inseto pode perfurar a base da planta, atingindo o ponto de crescimento, e provocar o sintoma de “coração morto”.

Os sintomas de S. frugiperda em milheto e sorgo, são praticamente os mesmos que ocorrem com a cultura do milho.

Colunista: Prof.Dr. Geraldo Papa
Área: Agro Negócios
Inserida em: 26/02/2010 17:36

Fonte: http://www.ilhasolteira.com.br/colunas/index.php?acao=verartigo&idartigo=1267216614